As montanhas se separam (2015)

Por André Dick

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É muito interessante a trajetória do cineasta chinês Jia Zhangke. Se em Plataforma ele fazia um apanhado histórico sobre a Revolução Cultural na China, em Prazeres desconhecidos ele concebia seu cinema em movimento como se estivesse preso a uma reflexão. O belíssimo O mundo, no qual as vidas de várias pessoas se localizavam dentro de um parque com réplicas de diferentes partes da Terra, não é apenas o precursor de Em busca da vida, outro grande filme, desta vez com uma crítica ao avanço de corporações sobre o meio natural, como consegue traduzir realmente o que pensa Jia sobre o universo que o cerca, traço também encontrado em 24 city, embora neste ele não se sinta tão à vontade com sua narrativa em forma de documentário. Um de seus esforços mais recentes é Um toque de pecado, desta vez apostando numa ambientação mais violenta e dividido mais claramente em histórias que se relacionam por um fio temático e que parecem influenciadas pelo Tarantino que recriou o Oriente, no seu díptico Kill Bill. Este é o cineasta homenageado no documentário Jia Zhang-ke by Walter Salles, exibido no Festival de Cannes de 2015.

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Neste mesmo festival, ele lançou As montanhas se separam, mais uma peça com recursos dramáticos interessantes. Ele inicia em 1999, mostrando dois homens, Zhang Jinsheng (Zhang Yi) e Liang Jangjung, ou Liangzi (Liang Jing Dong), apaixonados por Shen Tao (Zao Thao). Enquanto Jinsheng tem negócios que lhe rendem dinheiro suficiente para sempre comprar novas minas de carvão, Liangzi é um operário. Jinsheng pressiona Shen a decidir por um dos dois – e essas cenas rendem momentos de desentendimento complicados para Shen, que parece gostar de ambos. Anos depois, em 2014, um deles volta novamente a estabelecer contato com ela, que tem um filho, Zhang Daole (Zishan Rong), ou Dollar, como passa a ser chamado pelo pai, com o qual não tem boa relação. Finalmente, Jia faz um hiato temporal para mostrar um desses personagens em 2024, morando na Austrália, e que possui um laço afetivo com sua professora de inglês, Mia (a excelente Sylvia Chang).
As montanhas se separam possui, como em toda a obra de Jia, uma fotografia deslumbrante de Yu Lik-wai, com uma predileção por captar ambientes externos com um cuidado irreparável, assim como deixa cenários internos com uma sensação de realismo destacada. A China antiga e a China moderna convivem não raramente no mesmo enquadramento, e se temos algum sinal de neve é sempre em meio a uma natureza já surgida no asfalto. Cenas que captam a tradição chinesa são ampliadas com um afeto trabalhado, lembrando o que Ka-Wai e Kurosawa já fizeram para o Oriente em termos de imagem. E, em meio a essas imagens, a presença cada vez maior do Ocidente, sobretudo na circulação de automóveis e vendas de equipamentos de som, e um sentimento de que a China vive o futuro, principalmente na velocidade dos trens e na tentativa de incorporar outras linguagens.

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Este também é o filme mais acessível do cineasta, que entrega a temática de forma mais facilmente identificada com seu pensamento, a partir da canção “Go west”, do Pet Shop Boys, na véspera do Ano Novo, unindo passado e futuro. Desse modo, há uma estranha ambiguidade em alguns momentos, não existente em seus trabalhos anteriores. O primeiro ato é especialmente forte, com um sentimento trabalhado na solidão dos personagens, uns afastados dos outros, mesmo próximos, e o segundo mostra a aproximação que existe mesmo a distância. Se o terceiro ato parece um pouco desajeitado é pela tentativa de Jia de surpreender com uma narrativa antilinear – e em determinado momento muda-se o tamanho da tela de 1,85: 1 para 2,35: 1. A princípio deslocada, a conclusão melhora com o crescimento de um determinado sentimento com que o personagem enfocado precisa trabalhar, e há um trabalho sentimental em torno das ações. Nisso tudo, Jia arrisca fazer com que o filme não tenha personagens centrais fixos, ou seja, eles vão se modificando conforme a narrativa avança.
Enquanto em Um toque de pecado, o cineasta mostrava o crescimento da violência associado ao crescimento financeiro, aqui ele faz uma espécie de homenagem aos homens que crescem à margem de um sistema já pré-determinado, ou de homens que não querem seguir essa linhagem já entregue. Em certos momentos, ele não evita o vocabulário mais reducionista, mas isso não atrapalha o andamento. Ele trabalha com a memória de maneira que ela se perde, se reencontra ou se esvai em camadas, por meio de objetos (um cartão de casamento, um amuleto da sorte, dois fones de ouvido entrelaçando duas pessoas, um cenário, ou uma situação semelhante a outra já vivida).

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Jia trabalha principalmente por meio da atuação de sua atriz preferida, Zhao, mais uma vez brilhante num papel com poucas falas, e ainda pela melancolia transmitida por Liangzi, graças ao ator que o interpreta, o excelente Liang Jing Dong, com uma discrição impressionante, enquanto Zhang Yi, como seu oponente, é levemente exagerado. A sensação, como em outros filmes do cineasta, especialmente O mundo, é a de estarmos vivendo dentro de um ciclo que vai se desdobrando e com o qual as pessoas vão lidando. Uma pessoa vai substituindo a outra apenas superficialmente: os sentimentos, para Jia, se conservam longe da superfície e cada personagem é movido por eles. Pode-se dizer que o cineasta tem êxito ao mostrar essas sensações e o sentimento de afastamento e solidão é incômodo, embora bem desenhado e desenvolvido, e uma casa deixada pelo tempo adquire uma força especial ao neutralizar mágoas. É um mundo onde trens e aviões criam afastamentos e aproximações, assim como pessoas estão sempre caminhando em linha reta, ao lado ou não de cães que simbolizam um afeto duradouro, sem se preocuparem com as separações entre as montanhas e esperando ver o que permanece do outro lado do mar.

山河故人, China/França, 2015 Diretor: Jia Zhangke Elenco: Zhao Tao, Zhang Yi, Liang Jing-dong, Dong Zijian, Sylvia Chang Roteiro: Jia Zhangke Fotografia: Yu Lik-wai Trilha Sonora: Yoshihiro Hanno Produção: Ren Zhonglun, Nathanaël Karmitz, Liu Shiyu, Shozo Ichiyama Duração: 131 min. Estúdio: Arte France Cinéma / Beijing Runjin Investment Distribuidora: Imovision

Cotação 4 estrelas e meia

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2 Comentários

  1. O problema de Esquadrão Suicida é a tentativa apressada de aproveitar o sucesso de Guardiões da Galáxia. As músicas pop pareceram jogadas aleatoriamente, os personagens “desajustados” ficaram mais caracterizados como anti-heróis do que como vilões, na tentativa de torná-los carismáticos para o público, as soluções e motivações de roteiro são extremamente fracas (Sério que uma maluca com taco de beisebol faz parte de um time dos ‘piores dos piores’?), e a lista vai longe… E essa mesma pressa esteve no fiasco que foi BvS. Enfim, gostaria de ter esperança na DC do cinema, mas tá bem difícil. Enquanto eles continuarem tentando apanhar as sobras da Marvel, vai ficar difícil.

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    • André Dick

       /  14 de agosto de 2016

      Bem, você queria comentar no post de Esquadrão suicida, mas respondo por aqui mesmo. Apesar de reconhecer qualidades em Guardiões da galáxia, eu não diria que as músicas pop são uma característica apenas dele. No filme de Ayer, elas funcionam como transição entre sequências sobre personagens definidos, ao contrário de Guardiões, em que elas eram um elemento próprio do personagem central. E, dentro do sistema atual, era natural que os personagens não seriam caracterizados excessivamente como vilões. Nesse sentido, termos como “maluca com taco de beisebol” ou “pressa” igual ao “fiasco que foi BvS” me fazem lembrar aquele consenso pré-fabricado que muitos consideram o ponto de referência. Sendo conhecedor também de todos os filmes da Marvel (e apreciar filmes dos heróis dessa vertente), considero que a DC, com êxito ou não, não faz cópias nem apanha sobras. Tanto faz um trabalho diferente que ele é visto como o oposto do que faz a Marvel, e nisso se concentram as críticas. Considero ambos os trabalhos de qualidade, com o diferencial de que os filmes da DC/Comics têm uma densidade e concepção visual que os da Marvel, pelas próprias características de seus super-heróis, não possuem.

      Responder

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