Zootopia (2016)

Por André Dick

Zootopia

Este novo desenho da Walt Disney foi incensado pela crítica e pelo público (que deixou mais de 1 bilhão de dólares nas bilheterias!) e pode-se achar, antes de assisti-lo, que é mais um produto de marketing superestimado. Nos últimos anos, há uma sequência de animações que se caracterizam por um grande apoio da crítica especializada, vendo nelas, sobretudo, temas que agradam mais a adultos do que a crianças. Passam a ser animações inteligentes, paradoxalmente consideradas “não infantis”, como se este público não as entendesse de fato. Esses temas não raramente são inseridos em meio ao que se considera politicamente correto, tendo como mensagem exatamente lições que podem ser interpretadas sob o ponto de vista de manifestações vistas com mais respeito. Estamos aqui diante de uma animação que pode lidar com tais temas, mas parte do pressuposto de que é dirigida realmente a todas as idades, sem facilitar ou complicar para um determinado público.
Zootopia (que tem um dispensável subtítulo em português, Essa cidade é o bicho) inicia mostrando a infância de Judy Hopss (Ginnifer Goodwin), filha de Stu (Don Lake) e Bonnie (Bonnie Hunt), da zona rural de Bunnyburrow, cujo sonho é se transformar na primeira coelha a ser policial e se dedica a uma peça teatral, numa breve homenagem a Rushmore, de Wes Anderson. Em seguida, ela é confrontada por uma raposa, Gideon Gray (Phil Johnston), deixando-a traumatizada. Os pais, obviamente, não querem que ela siga este caminho, pois pretendem que ela se transforme, como eles e seus irmãos, numa fazendeira.

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Quando cresce, ela vai parar exatamente no departamento de polícia da cidade vizinha, Zootopia. Excluída pelo chefe, Bogo (Idris Elba), da tarefa de investigar crimes – a princípio, pelo seu pequeno porte –, ela passa a ser controladora de trânsito. No meio do serviço, ela conhece Nick Wilde (Jason Bateman), exatamente outra raposa, e Finnick (Tommy ‘Tiny’ Lister), que aprontam fazendo trabalhos suspeitos. Num deles, Nick pretende comprar um picolé num estabelecimento que vende apenas para elefantes para o que seria seu filho, até que a coelha descobre que tudo não passa de uma grande invenção. Ainda incansável com a ideia de que deve também ser uma investigadora, ela recebe o apoio da vice-prefeita, Dawn Bellwether (Jenny Slate), maltratada pelo prefeito Lionheart (J.K. Simmons), ao querer ajudar a Sra. Otterton (Octavia Spencer).
Tudo é início de uma aventura que transformará Zootopia, onde todos os animais deveriam conviver em harmonia, o que lembra um pouco Uma cilada para Roger Rabbit. No filme de Zemeckis, havia Toontown, a cidade onde os desenhos viviam em comunidade. Em Zootopia, também convivem diferentes épocas: há cenários futuristas com outros que lembram os de dias atuais e até aqueles que lembram um passado mais imediato.

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Byron Howard, Rich Moore e Jared Bush, diretores do filme, conseguem compor uma personagem central muito interessante e mesmo original no universo da animação, e coloca como parceiro dela uma figura das mais empáticas do universo animado recente, graças, também, à voz do ótimo Bateman. Ambos têm ligações também pelo passado em comum, mesmo um sendo associado à tranquilidade e outro à vilania. Em razão do talento dos diretores em compor um design visual atrativo, com uma cidade que lembra, em diferentes momentos, a de Tomorrowland e De volta para o futuro 2, junto com influências visíveis de O fantástico Sr. Raposo, de Wes Anderson, e uma homenagem bem-humorada a O poderoso chefão, Zootopia demarca uma atmosfera realmente original. Poucos desenhos recentes conseguem demarcar um cenário amplo, a partir do qual o espectador pode visualizar os personagens, e a sua cidade se caracteriza, além de pela diversidade, por uma ideia realmente consistente de cotidiano, não apenas de um meio urbano, como também do meio rural.
Além disso, o filme traz como temas a identidade, o estereótipo, a discussão de gêneros e liberdade entre diferentes, no entanto sem se basear nisso o sucesso. Nesse sentido, ele me parece desenvolver melhor tais temas do que outros desenhos animações, mesmo o recente Detona Ralph, dirigido por Moore, um dos codiretores deste, e atua num plano em que Universidade Monstros, lamentavelmente desvalorizado, se arrisca: o de que a infância possui medos que devem ser colocados à prova, não exatamente original, mas poucas vezes tão bem trabalhado quanto aqui.

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É difícil dizer se, em alguns momentos, Zootopia não aplica uma certa vontade de rotular o que exatamente critica – mesmo que haja ótimas gags, como a do elefante na sala. Os pequenos animais são vistos sempre sob o ponto de vista de que são bons ou inofensivos (os coelhos, as ovelhas), em relação aos maiores, e os diretores brincam com essa ideia. Sob outro ângulo, eles colocam um tigre atendendo no departamento de polícia que está mais interessado em acompanhar a trajetória de uma cantora de Zootopia, Gazelle, que parece uma homenagem a Adele, mesmo tendo a voz de Shakira. Além de tudo, há uma sequência de cenas de ações bem feitas e bem-humoradas (como o encontro com os funcionários de trânsito, que são bichos-preguiça) e uma transição natural, nada forçada, entre as cenas. É muito raro encontrar uma animação que ainda invista numa trama policial e não se perca pelo meio do caminho, capaz de desenhar uma amizade entre figuras diferentes de maneira tão crível. As comparações feitas, por exemplo, com o clássico Chinatown são realmente verossímeis e bem solucionadas pelo roteiro escrito por um dos diretores, Jared Bush, e Phillip Johnston, colaborador em Detona Ralph. Em certos momentos, arrisca-se até mesmo um clima noir, em meio a uma perseguição numa floresta seguida de um amanhecer do sol radiante. Ele não soa excessivamente infantil nem apresenta temas mais adultos de maneira pretensiosa, ficando num meio-termo agradável. De maneira mais ampla, este desenho me parece o maior acerto do selo da Disney (não contando o departamento da Pixar) desde Aladdin, de 1992, muito superior a sucessos recentes da companhia.

Zootopia, EUA, 2016 Direção: Byron Howard, Jared Bush, Rich Moore Elenco: Ginnifer Goodwin, Jason Bateman, Idris Elba, Jenny Slate, Nate Torrence, JK Simmons Roteiro: Jared Bush, Phillip Johnston Trilha Sonora: John Powell Produção: Clark Spencer Duração: 108 min. Distribuidora: Disney Estúdio: Walt Disney Animation Studios / Walt Disney Pictures

Cotação 4 estrelas e meia

 

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4 Comentários

  1. luizsiqueiraneto

     /  18 de junho de 2016

    Uma verdadeira obra de arte, adorei esta animação. Os personagens são ótimos, tudo é muito bem equilibrado. Muito boa análise sua, parabéns.

    Responder
    • André Dick

       /  18 de junho de 2016

      Prezado Luiz,

      agradeço novamente por seu comentário generoso e realmente há poucos desenhos, como este, que podemos colocar como verdadeira obra de arte. Os personagens parecem simples, mas se tornam memoráveis. Ele é tão bem encaixado que nenhuma campanha de marketing poderia torná-lo ainda melhor.

      Volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder
  2. Filme excelente!!! Parabéns pela crítica, que ficou muito boa, e ainda atiçou a minha curiosidade para assistir ‘O Fantástico Sr. Raposo’.

    Responder
    • André Dick

       /  24 de outubro de 2016

      Prezado Fernando,

      agradeço por seu comentário generoso e fico feliz que também tenha gostado de Zootopia! E, quando puder, assista a O fantástico Sr. Raposo. Vale muito a sessão.

      Volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder

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