Memórias secretas (2015)

Por André Dick

Memórias secretas

O diretor Atom Egoyan, nascido no Egito e naturalizado canadense, tem tido dificuldades de se afastar dos seus sucessos de crítica dos anos 90, como O doce amanhã, pelo qual recebeu uma indicação ao Oscar de diretor, e Exótica. O resultado é que seus últimos filmes são recepcionados como notórias decepções, mesmo sendo de qualidade às vezes muito acima da média. Nos anos 2000, embora Ararat tenha a trama mais conturbada, foi o que melhor foi recebido, quando suas outras obras, como Verdade nua, Adoração e Chloe – O preço da traição são interessantes, com tramas realmente envolventes para quem se afasta um pouco da ideia de cinema mais efetivamente hollywoodiano. Mais recentemente, em 2014, ele apresentou os subestimados Sem evidências e À procura, este um exemplo de como Ryan Reynolds poderia aparecer de forma dramática numa narrativa de sequestro.
Como À procura em Cannes, Memórias secretas teve uma recepção bastante fria no Festival de Veneza, sem receber especial atenção. Cristopher Plummer vem à frente do elenco, numa atuação extraordinária (a melhor desde Beginners), que o faz ser cotado para as próximas premiações. Ele interpreta Zev Gutman, um senhor de idade, com quase 90 anos, que mora num asilo, com demência, caracterizada pelos esquecimentos (entre os quais, de que sua esposa faleceu). Esse início mantém suas bases numa espécie de realismo com um toque surpreendente de suspense.

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Lá, ele é amigo de Max Rosenbaum (Martin Landau, quase irreconhecível), que foi seu companheiro de prisão em Auschwitz e escreve uma carta-guia para que possa procurar o homem que matou sua família e que teria se mudado para os Estados Unidos, com o nome Rudy Kolander. Zev, então, mesmo com todos os lapsos de memória, vai atrás de sua vingança particular, dele e em nome do amigo que está impossibilitado de sair do asilo – e, para isso, precisa comprar uma arma. Ao mesmo tempo, deixa seu filho, Charles (Henry Czerny), preocupado com o que pode lhe ocorrer.
Com uma fotografia muito bela de Paul Sarossy, iluminando os cenários quase naturalmente e com movimentos de câmera claramente inspirados por Emmanuel Lubezki, sobretudo em sua parceria com Malick, Memórias secretas, como outras peças de Egoyan, guarda alguns temas em comum: o conflito entre o presente e o passado, a busca por vingança (explicada quase sempre em bases históricas e culturais, como no quase esquecido e belo Adoração) e a exasperante solidão de um homem. Todos lidam essencialmente com o tema da memória, o quanto ele influencia no presente momento em que vivem os personagem e o quanto ele ressoa numa distância de anos. O pano de fundo de filmes quase ignorados do diretor, como Adoração, Verdade nua e o recente À procura, é este, compondo uma obra autoral e instigante. Zev é um personagem já visto em na trajetória de Egoyan, com um grito de dor quase sufocado, ainda despreparado para seu presente e em relação a seu futuro. Ele faz a narrativa andar de ponta a ponta, em razão da competência de Plummer para compor gestos mínimos e profundos. Para ajudar a compor seu drama, é fundamental, além do roteiro de Benjamin August, bastante contido e com diálogos apenas quando estritamente necessário, a trilha sonora de outro habitual colaborador de Egoyan, Mychael Danna. Ele lança as notas a cada passo dado pelo personagem, como se compusesse uma atmosfera de jornada pessoal, dramática, ao lado de um tom soturno e problemático.

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Impressiona como Egoyan consegue partir de um drama pessoal – de um homem de idade sufocado pelas memórias – para uma espécie de road movie de investigação e perseguição. Alguns classificam o filme como thriller, mas talvez não o seja exatamente: ele se sustenta mais na base dramática que evoca o drama da Segunda Guerra que não pode ser esquecido. Há uma passagem que mostra um determinado personagem capaz de remeter o espectador aos conflitos provocados pelo nazismo (na figura de Dean Norris, ator conhecido por Breaking Bad) e cenas capazes de remeter ao melhor Egoyan, com uma plasticidade raramente encontrada e uma determinada sensação de desgaste que contempla as decisões de seus personagens. Podem ser feitas, também, comparações com Amnésia, de Cristopher Nolan, e talvez haja algumas semelhanças, principalmente porque o personagem está sempre preso a hotéis em sua viagem e em embate com sua memória. No entanto, parece que Plummer, nessa viagem para vingar os familiares, parece estar em um drama profundo sobre a busca pela identidade que se perdeu. Diante do que podemos ver de seu comportamento, ela dificilmente irá voltar, mas o espectador deseja que ele consiga acertar as contas com seu passado. Egoyan mostra essa difícil trajetória não sem uma certa dose de humor corrosiva e estranha, para um filme em que as pessoas estão sobrecarregadas pelo que aconteceu décadas antes. Tudo parece se mover de maneira muito tranquila, e quando Zev precisa estabelecer cada quadro de sua missão é mais natural que estejamos preparados para um grande drama. E, apesar de considerar o final do terceiro ato um tanto apressado e expositivo em excesso, fica difícil negar que Egoyan novamente conseguiu um belo acerto.

Remember, CAN, 2015 Direção: Atom Egoyan Elenco: Christopher Plummer, Dean Norris, Martin Landau, Jurgen Prochnow, Bruno Ganz, Henry Czerny Roteiro: Benjamin August Fotografia: Paul Sarossy Trilha Sonora: Mychael Danna Produção: Ari Lantos, Robert Lantos Duração: 94 min. Distribuidora: Diamond Films Estúdio: Egoli Tossell Film / Serendipity Point Films

Cotação 4 estrelas

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