Mogli – O menino lobo (2016)

Por André Dick

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Depois de realizar os dois primeiros Homem de ferro, o diretor e ator Jon Favreau se viu num momento difícil ao ser contestado de forma vigorosa por seu trabalho em Cowboys e aliens, com Daniel Craig e Harrison Ford em boas atuações. Segundo ele, para fugir aos grandes estúdios e grandes projetos, ele fez Chef, em que atuou também como um cozinheiro que se vê às voltas com uma nova maneira de atrair seus clientes, depois de estar à frente de um restaurante.
No entanto, não levaram três anos para que Favreau se voltasse novamente a um grande projeto, ligado aos estúdios Disney: a refilmagem de Mogli – O menino lobo, cuja versão mais conhecida era a de 1967, dirigida pelo alemão Wolfgang Reitherman e o último supervisionado por Walt Disney, antes de sua morte. Apesar de apreciar muitas animações, acredito que o desenho animado original é um dos melhores já feitos, uma mescla de humor e musical, cuja simpatia é destacada – e, ao assisti-lo pela primeira vez, com a minha esposa, que o tinha como referência de filmes na infância, já havia ficado admirado com a maneira que o diretor Reitherman conseguiu transformar a história original de Rudyard Kipling em algo realmente universal.
Ao contrário da versão de 67, Favreau prefere atenuar a parte do humor e os números musicais (mantendo alguns, é verdade) para fazer uma espécie de épico, em que a animação muitas vezes se parece com cenários reais mais do que vemos em filmes – e a sensação é a de estarmos vendo uma mistura entre As aventuras de Tintim, As aventuras de Pi e Avatar. Embora não tenha assistido a e ele em 3D (optamos por uma versão em 2D, legendada), fica difícil negar o quanto Favreau e sua equipe se esmeraram em criar uma atmosfera realmente de selva para o filme – mais real do que aquela que vi no trailer do próximo Tarzan. Os seus detalhes são, nesse sentido, espetaculares e, apesar de a animação de 1967 ter um trabalho de cores belíssimo, é a versão de Favreau que dá a sensação de estarmos mesmo em meio aos perigos de uma floresta.

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A história segue inicialmente os mesmos passos da versão original: Mogli (Neel Sethi, único ator real) é um menino criado numa matilha de lobos, adotado por Raksha (Lupita Nyong’o) e Akela (Giancarlo Esposito).  Ele vive ao lado de seus irmãos lobos quando surge o ameaçador tigre Shere Khan (Edris Elba, com trabalho de voz temível). A partir daí, já se sabe o que acontecerá: Mogli terá a ajuda de Bagheera (Ben Kingsley, ótimo) – uma pantera que o salvou quando era criança – para chegar à aldeia onde vivem os humanos.
No entanto, há percalços pelo caminho, e a figura mais inusitada surge: o urso Baloo. É a interação entre o urso (cuja voz é de Bill Murray, num grande momento) e Mogli que rende os melhores momentos da versão dos anos 60 e desta: há uma união no sentido de que o menino lobo o ajudará a encontrar mel o suficiente para que possa hibernar com tranquilidade. Favreau lida com humor, assim como Reitherman, com essa situação inusitada e daí para a frente a obra se sucede numa sequência grande de ação, modificando alguns elementos do original – e falar aqui seria redundar em spoilers.
Alguns falam o quanto o original torna estereotipada a imagem da Índia no sentido cultural. Embora estivesse a 17 anos de Indiana Jones e o templo da perdição, o verdadeiro estereótipo dessa cultura (com o humor de Spielberg e Lucas), Mogli talvez não tivesse o intuito de defini-la, como este filme também não possui. Há um jogo de personagens universal aqui e Favreau lida mesmo com violência e um sentido de realidade que o de 67 não possui (pelo menos, nem todas as cenas são para crianças). É um traço do diretor, que em Cowboys e aliens afastou parte do público a que se destinava pelas cenas de violência (principalmente a inicial, quando o personagem de Craig é abordado por alguns forasteiros).

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Do mesmo modo, este Mogli trabalha num plano às vezes de uma escuridão, e personagens que pareciam apenas bem-humorados no primeiro se transformam em ameaçadores aqui, e nem mesmo a volta das canções “Wan’na Be Like You” e “The Bear Necessities” atenua este traço. Scarlett Johansson faz de forma destacada a voz de Kaa – e é um de seus melhores trabalhos, ao lado de Ela, em que também aparecia apenas por meio da voz –, com uma cena no mínimo assustadora. No entanto, talvez o destaque fique por conta de Cristopher Walken, como Louie. Interessante perceber como a maneira de olhar dos personagens de Murray e Walken se parece com a dos atores; percebe-se que Favreau lidou com ela na criação da imagem animada.
A questão mais intrigante desse universo (breve spoiler) é realmente a maneira como o menino se insere entre os animais e a questão da “flor vermelha”, que seria o fogo ameaçador para o tigre Shere Khan, que ficou cego de um olho por causa de uma tocha. Favreau parece imaginar esses personagens também como figuras solitárias de uma selva gigantesca e o menino como uma ameaça de que pode crescer e acabar com tudo por meio do fogo. (fim de spoiler) Não apenas há um diálogo interessante com o universo de Tarzan como se sente a ameaça desse universo em cada ponto. O filme inicia quase como uma sequência a uma das passagens do Apocalypto, de Mel Gibson, e em determinado momento evoca, de forma ainda mais curiosa, Apocalypse now.  O trabalho de imagens que lida com essa simbologia é destacado ainda mais em razão da fotografia de Bill Pope, cujo trabalho em Matrix, Homem-Aranha 2 e Scott Pilgrim contra o mundo mostra o mesmo vigor para cenas de ação e um poder quanto aos detalhes que poderiam passar despercebidos, dando real movimento às sequências nas quais Mogli parece correr um real risco. E Neel Sethi se mostra um ator versátil para levar a história adiante, embora eu considere que o humor de Mogli na versão de 67 era um destaque, assim como a mais próxima ligação entre Baloo e Bagheera, aqui deixada um pouco de lado.

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Mas o maior sentido do trabalho de fotografia se dá no sentido épico que Favreau empresta a esta adaptação: não são poucas as paisagens que são espetaculares e definitivamente reais, como na sequência em que Mogli precisa escapar de um determinado confronto e se vê no meio de um estouro de búfalos – é a cena talvez mais impressionante do filme por sua escala grandiosa, lembrando um pouco a cena dos dinossauros de King Kong (2005). Há uma reverência de Favreau em relação à natureza, não apenas neste trecho como naqueles em que aparecem os elefantes – e a ligação que o menino lobo tem com todos, mesmo não sendo, de fato, um animal. Todos os temas universais envolvendo a família são ressaltados no roteiro, e mesmo a passagem do menino por uma espécie de paraíso (em que pode haver a serpente) antes de conhecer a dor real de um acontecimento ligado à sua origem, torna esta obra de Favreau em algo mais do que uma produção para agradar ao grande público. Ele abrange a integração do homem e natureza como raras vezes se revela num filme.

The jungle book, EUA, 2016 Diretor: Jon Favreau Elenco: Neel Sethi, Bill Murray, Ben Kingsley, Idris Elba, Lupita Nyong’o, Scarlett Johansson, Giancarlo Esposito, Christopher Walken, Garry Shandling, Brighton Rose Roteiro: Justin Marks Fotografia: Bill Pope Trilha Sonora: John Debney Produção: Jon Favreau e Brigham Taylor Distribuidora: Walt Disney Studios

Cotação 4 estrelas

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