Boa noite, mamãe (2015)

Por André Dick

Filme de terror

O gênero de terror sofreu uma transformação principalmente com certa presença de diretores europeus que o mesclaram com o gênero dramático de maneira que houve uma dissolução entre campos habitualmente vistos como diferentes. Os diretores Severin Fiala e Veronika Franz trabalham sobre seu próprio roteiro neste terror que em alguns pontos parece emular Michael Haneke, a começar por Funny games. Haneke é também austríaco e serve como referencial, desde O vídeo de Benny, como um cineasta que transforma o terror e o suspense em elementos de dialogar com uma atmosfera europeia bastante comedida. No filme de Fiala e Franz, são dois garotos gêmeos de 9 anos, Elias (Elias Schwarz) e Lucas (Lucas Schwarz), que estão desconfiados que a mãe (Susanne Wuest), depois de voltar de uma cirurgia plástica com o rosto coberto por ataduras, não é a mesma pessoa. Eles moram numa casa afastada, com uma arquitetura moderna e cercada por um verde de florestas. E a história inicia com os dois correndo em um milharal; crianças correndo num milharal não podem indicar exatamente tranquilidade.
Boa noite, mamãe é o tipo de filme que se assiste com apreensão, e pode-se dizer que pelo menos sua meia hora inicial, também por causa da fotografia de Martin Gschlacht e do design de produção meticuloso, trabalhando com cada detalhe de onde se passa a história, é absolutamente notável. Os diretores criam um suspense que prende o espectador apenas por meio de silêncios e passos nesta casa distante da civilização.

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Elias e Lucas, mais do que nomes com peso religioso, são referências de uma infância também afastada de tudo. É como se tudo trouxesse uma sensação de algo idílico, mas que pode indicar o início de um pesadelo. Eles ficam passeando pelos arredores da casa, procurando novos lugares, e também pela casa, principalmente quando desconfiam que sua mãe voltou para casa ou se é outra pessoa. Nessa espécie de transformação depois da cirurgia, a mãe se transformou numa fantasma? É ela mesma? Como ela seria antes desse momento? As informações passadas pela dupla de diretores é de que ela trabalha como apresentadora de TV, mas não há uma explicação para o fato de ter deixado os filhos em casa, sem ninguém para cuidar. Quem seria a pessoa que dorme no quarto ao lado? Há muitos símbolos espalhados pelo cenário: além do corpo, os insetos (a exemplo das baratas) podem cercar o ser humano e torná-lo mais assustador, como David Cronenberg faria. Talvez a sutileza mais inteligente seja dispor imagens da mãe pela casa, ao mesmo tempo que há imagens de moda constituídas por sombras e uma planta de vaso alta como uma labareda. Mais ainda: seu rosto coberto por ataduras lembra o de uma múmia, que está tentando se conservar viva num ambiente ameaçador. Lançado no Festival de Veneza de 2014 e representante na Áustria ao Oscar de filme estrangeiro em 2015, como outras obras, ele não foi selecionado, certamente pelo material devastador, pouco afeito à Academia. É uma obra estranha: se por um lado parece bela e lírica, tem momentos bastante desagradáveis e até repulsivos.
É aí que Fiala e Franz não controlam os impulsos e se afastam do habitual comedimento de Haneke (não menos assustador). Há uma torção que, mesmo dentro da imponderabilidade a que se permite o filme, faz a narrativa tender a um certo fluxo de opressão exagerado. Ainda assim, se visto dentro do gênero, esse fluxo não deixa de ser menos impactante.Obviamente, o segredo que ele guarda não é aquele que todos imaginam – revelado aos 10 minutos –, ou seja, os diretores não queriam fazer surpresa nesse sentido, mas sim mostrar o comportamento frio diante de uma pressão psicológica incontrolável.

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O talento dos diretores é contrapor uma determinada situação a uma espécie de imaginário de medo ligado à infância, com a figura das árvores, de um bosque onde podem surgir não criaturas, mas uma figura humana sem rosto definido – num dos momentos possivelmente mais assustadores da narrativa. A mãe não vai ao quarto contar fábulas para as crianças: elas a observam com medo, observando na porta. Tudo tem um clima onírico de conto, não exatamente de fadas, e sim de terror mais extremo. Não se sabe o que ela traria de ameaçador, no entanto os irmãos gêmeos têm certeza de que sua mãe não faria as imposições da pessoa que voltou, nem os obrigaria a manterá s cortinas fechadas enquanto ela se recuperasse. Também não há a presença paterna na casa nem se sabe o que aconteceu com ele, e desse modo as crianças procuram um padre na igreja mais próxima. Em outro momento, eles ficam diante de uma imagem religiosa. Ou seja, a analogia entre a paternidade e a figura religiosa é colocada num dos momentos mais significativos de Boa noite, mamãe: quando há o início de uma chuva e finalmente a casa então idílica se mostra mais isolada. O design de som do filme é de um absoluto cuidado, separando cada ação, cada passo dos personagens, e talvez não se exagere quando se vê nele quase um personagem à parte. O que mais chama atenção nesse cuidado com o som e a fotografia é justamente como os diretores contrapõem o escuro e a claridade. No escuro, pode não haver tantos sustos como na claridade, assim como o fogo pode existir sob um céu azul quanto numa noite obscura. E os sonhos de um dos irmãos se constitui nessa revelação de um universo fantasioso dentro da realidade em que estão inseridos. Não sei se eu veria de novo, pela parte final, mas Boa noite, mamãe evoca uma faceta assustadora. Dentro do que se propõe, difícil afirmar que não atende aos requisitos.

Ich seh, ich seh, AUS, 2015 Diretor: Severin Fiala, Veronika Franz Elenco: Susanne Wuest, Lukas Schwarz, Elias Schwarz  Roteiro: Severin Fiala, Veronika Franz  Fotografia: Martin Gschlacht Trilha Sonora: Ekkehart Baumung Produção: Ulrich Seidl Duração: 100 min. Distribuidora: Playarte Pictures Estúdio: Ulrich Seidl Film Produktion GmbH

Cotação 4 estrelas

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4 Comentários

  1. Spoilers abaixo

    definitivamente, uma crítica, completa e perfeita relacioanada ao filme! que inclusive, deixa a grande duvida, que eu nn consegui resolver nem entender, a mãe era de fato amãe?? o menino elias era esquizofrenico? ou simplismente n aceitava a morte do irmão? e a foto final do filme… mãe e gemeos mortos e felizes?!? e a moça da foto…. um filme inebriante e ao mesmo tempo agonizante pelas sacadas de terror estilo torture porn… com certeza ganhou minha admiração…

    Responder
    • André Dick

       /  20 de março de 2016

      Prezada Paola,

      agradeço por sua mensagem generosa sobre a crítica do filme. Todas essas perguntas que faz correspondem também às minhas. Em nenhum momento a narrativa realmente esclarece o que aconteceu, nem mesmo ao final, depois dos acontecimentos mais perturbadores. O que se tem certeza é que os diretores não querem lidar com o mistério que todos apontam, ou seja, percebê-lo não interfere no comportamento enigmático dos personagens.

      Obrigado pela visita e volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder

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