007 contra Spectre (2015)

Por André Dick

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Alguns anos depois de 007 – Operação Skyfall, Sam Mendes relutou em voltar à franquia de James Bond, mas, convencido pelo estúdio, rodou mais este 007 contra Spectre. Segundo boa quantidade de admiradores do personagem, ele não deveria tê-lo feito, ou seja, teria sido melhor ele ter deixado sua marca apenas no anterior. Se a franquia com Daniel Craig no papel do agente britânico está em seu quarto filme, e Skyfall é considerado o melhor, seguido por Cassino Royale, deve-se admitir que este novo empreendimento está muito longe de ser o fracasso que quiseram transformá-lo. Pelo contrário, desde seu início no Dia dos Mortos na cidade do Novo México, quando James Bond está atrás de Marco Sciarra (Alessandro Cremona), e antes seduz uma latina para, então, partir de vez ao serviço programado, e o embate se dá num helicóptero, 007 contra Spectre se transforma no filme mais sólido do herói desde 007 – A serviço secreto de sua majestade, o único filme protagonizado por George Lazenby de uma série que já contou, entre seus atores, com Sean Connery, George Moore, Timothy Dalton e Pierce Brosnan.

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Daniel Craig sempre fez o James Bond mais bruto da história e aqui acontece o mesmo: a sua ação, desde o início, não é exatamente pela conversa mais ponderada, e sim pela ação da arma. Por isso, talvez M (Ralph Fiennes) queira desativar a sua função, o que Bond não considera, à medida que conta com a ajuda de Q (Ben Wishaw) e Moneypenny (Naomie Harris), em momentos de humor que estavam no mínimo ausentes em 007 – Operação Skyfall e sempre fizeram parte do personagem. Sua ida de Londres para Roma marca um dos grandes momentos da série, quando ele precisa encontrar a mulher de Sciarra, Lucia, feita por uma ótima Monica Bellucci (embora em papel diminuto), e depois se depara com uma seita que nada fica a dever para aquela de De olhos bem fechados, de Kubrick.
Eis um dos melhores momentos da trajetória de Sam Mendes: a construção de suspense dessas cenas desencadeia um 007 realmente mais soturno, mesmo em relação ao anterior, por causa também da fotografia notável de Hoyte Van Hoytema (de Interestelar e Ela), que rende uma das melhores cenas de perseguição. Que o 007 de Skyfall já lidava com traumas do passado do personagem e sua relação com M era, sem dúvida, uma conquista de Mendes e também do diretor de fotografia Roger Deakins, neste parece que o espectador consegue entrar na mente de Bond, como em determinado momento do filme, vendo seus temores. Isso fica claro numa sequência-chave em que ele encontra um determinado homem que o levará à personagem de Madaleine Swann. Que Léa Seydoux não está tão à vontade neste papel, é determinante para que se torne uma das bond girls mais discretas da história. No entanto, tal atitude não extrai de sua presença enigmática uma ponte com o passado do agente, capaz de explicar não apenas o filme, como também os capítulos anteriores, junto com Franz Oberhauser (Christoph Waltz), ou seja, há um espectro rondando 007 realmente, ritmado pela trilha de Thomas Newman, que aproveita temas clássicos dando uma roupagem de suspense.

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O que mais torna o James Bond de Craig interessante desde Cassino Royale é seu equilíbrio entre a força incalculável e uma certa vulnerabilidade em qualquer confronto que precisa enfrentar – e da qual o espectador não sabe se sairá bem, desde o momento em que acaba tomando um whisky de forma descuidada em Cassino Royale. Ainda assim, essa vulnerabilidade é que estabelece o personagem como um ser humano e não meramente um agente secreto capaz de defender as cores da Rainha da Inglaterra desde sua origem.
Mendes, de maneira sugestiva, coloca os momentos iniciais numa claridade que serão ofuscados pela noite tanto da Inglaterra quanto de Roma, onde se dará o início dos eventos que levarão ao grande confronto, e durante a narrativa vai alternando lugares escuros com lugares claros dependendo das motivações estarem evidentes ou não para Bond. Há um enigma em 007 contra Spectre que não havia nos filmes anteriores de Craig e dificilmente foram tratados em algum momento. Sam Mendes é um cineasta irregular, mas muito interessante, capaz de ter se consagrado já no início de carreira com Beleza americana e sucedendo a trajetória com filmes que mostram os recantos escuros da América, a exemplo de Estrada da perdição, Soldado anônimo e Foi apenas um sonho, além de seu singelo Distante nós vamos, irrealizado filme sobre um casal querendo criar laços entre si e com os outros. Em todos esses filmes, Mendes mostra a fragilidade das relações, no entanto sempre oferece uma espécie de segunda chance a seus personagens.

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Num determinado encontro com Madeleine, a claridade do vagão de trem não chega a iluminar por completo uma cena que certamente vai desencadear algo muito remoto e escondido dentro de cada um desses personagens, além da ameaça de Mr. Hinx (Dave Bautista). É como se David Fincher estivesse fazendo um capítulo da franquia de 007, e não por acaso, mesmo pela presença de Craig, temos indícios da presença de Millennium na maneira como as paisagens são enquadradas, embora Rooney Mara seja mais participativa do que Seydoux e estabeleça uma parceria mais convincente com o ator. O ritmo empregado por Mendes traz um equilíbrio entre as paisagens espetaculares e as ações, com uma elegância incomum, já entrevista em Operação Skyfall, mas que chega ao ápice neste filme. Sua necessidade de mostrar James Bond como uma figura complexa, sempre ligado a uma questão familiar, é uma das saídas mais interessantes do período da série em que Daniel Craig está à frente. Mendes, com isso, nunca o mostra como um agente voltado apenas para sua missão, e sim como uma figura com virtudes e falhas. Desse modo, 007 contra Spectre é uma peça de alta tensão, feita realmente com a dedicação dada a um filme de Bond e que alterna cenários distintos como a naturalidade de quem muda o figurino do personagem central.

Spectre, Reino Unido, 2015 Diretor: Sam Mendes Elenco: Daniel Craig, Christoph Waltz, Léa Seydoux, Ben Whishaw, Naomie Harris, Andrew Scott, Monica Bellucci, Ralph Fiennes, Dave Bautista Roteiro: John Logan, Neal Purvis, Robert Wade Fotografia: Hoyte Van Hoytema Trilha Sonora: Thomas Newman Produção: Barbara Broccoli, Michael G. Wilson Duração: 148 min. Distribuidora: Sony Pictures Estúdio: B24 / Columbia Pictures / Eon Productions / Metro-Goldwyn-Mayer (MGM) / United Artists

Cotação 4 estrelas e meia

 

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