A garota dinamarquesa (2015)

Por André Dick

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O cineasta inglês Tom Hooper recebeu os Oscars de melhor filme e direção por um de seus esforços menos entusiasmantes, O discurso do rei. Logo depois, ele apresentou um musical moderno baseado na peça Os miseráveis, apostando num grande elenco (Hugh Jackman, Anne Hathaway e Russell Crowe) cantando por força própria, sem o auxílio (pelo menos aparente) de complementos ou correções de estúdio pós-produção. Esses dois filmes anunciam em parte a nova obra do diretor, A garota dinamarquesa. Em parte porque mostra bem uma cultura determinada – a dinamarquesa –, assim como ele mostrava anteriormente as culturas inglesa e francesa, apoiada num grande design de podução, em parte porque lida com a superação de um homem diante de sua vontade própria, assim como os personagens centrais de Os miseráveis e O discurso do rei.
A história inicia em Copenhagen, por volta dos anos 1920. Desta vez, o núcleo é o pintor reconhecido de paisagens Einar Wegener (Eddie Redmayne), casado com a também pintora Gerda Wegener (Alicia Vikander). Ambos pretendem ter filhos, mas Gerda não consegue engravidar. Certo dia, ela lhe pede para posar com uma roupa de bailarina para uma pintura que está fazendo, e Eimar admira o figurino, como se vestisse uma nova pele. No dia em que Gerda o aconselha a ir vestido como uma mulher para uma festa, ele encontra Henrik (Ben Whishaw, competente como sempre), por quem logo se sente atraído. E passa a chamar de Lili Elbe, em razão da amiga Ulla (Amber Heard), exatamente uma bailarina.

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Essa transformação de Einar numa mulher vai acontecendo numa forma gradativa, em meio a conflitos com a esposa. Gerda sonha em sobreviver por meio da pintura, mas tem seus quadros negados por um expositor, até o momento em que parece descobrir o seu estilo, como também Einar, ao lembrar de Hans Axgil (Matthias Schoenaerts). Por esse diálogo com o universo dos pintores e da boemia que os cercava, é fácil detectar uma beleza plástica nos detalhes comparável a Moça com brinco de pérola, além de um diálogo com Eclipse de uma paixão, sobre a relação romântica entre Rimbaud e Verlaine. E, baseado em fatos reais, como esses dois filmes, A garota dinamarquesa é um belo exemplo de como fazer uma obra biográfica sem cair exatamente no lugar-comum. Indo à história real, é interessante como Hooper conseguiu manter elos de ligação e criou outros, como o apego de Einar à sua infância, traduzido constantemente em suas pinturas.
Enquanto a trilha de Alexander Desplat parece excessivamente calcada em tons já conhecidos, a fotografia de Danny Cohen proporciona os melhores momentos de A garota dinamarquesa, junto com a presença de Vikander. Ela é realmente o principal nome da narrativa, mesmo com a presença de Redmayne, cujo papel é bastante difícil e ao qual ele se entrega com esforço, não sem cair, por vezes, em certos maneirismos que, ao longo do filme, acabam por desfocar um pouco o personagem – e sua atuação fica longe daquela de A teoria de tudo em termos de resultado.

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É como se a personagem de Vikander realmente desempenhasse a força central dessa história, bastante auxiliada a partir de determinado ponto por Schoenaerts (tão bem dirigido quanto em Ferrugem e osso e tornando complexo um personagem com roteiro mínimo). Vikander, depois de já se mostrar excelente atriz em O amante da rainha e Anna Karenina, embora tenha ficado mais conhecido com o recente Ex Machina, desempenha este papel com um potencial de atuação raras vezes visto nos últimos anos, mesclando um drama interno com uma tentativa de parecer menos atingida pelos desejos do marido.
A maneira como Hooper entrelaça o mundo artístico e a descoberta de uma visão própria nesse universo com a descoberta de si mesmo cava boa parte do interesse dramático de A garota dinamarquesa, que lida bem com algumas instabilidades narrativas, principalmente devido às ações de Gerda, não tão explicadas quanto o diretor possivelmente imagine. Ainda assim, mesmo com a dramaticidade em parte exagerada, Hooper tem um entendimento desse universo muito interessante. As comparações com o recente Tangerine por parte de alguns críticos me parecem injustas: embora o primeiro seja exemplo de cinema indie e aparentemente mais objetivo e direto, A garota dinamarquesa me parece um filme mais completo, além de visualmente muito bem trabalhado, dialogando, em seu design de produção, com as produções anteriores de Hooper.

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São muito interessantes as consultas que Einar faz a diferentes médicos e as prescrições dadas sobre sua obsessão em se tornar uma mulher, e a ausência de psicologia efetiva, além dos tratamentos recomendados. O filme não quer apenas, como me parece Tangerine, utilizar o tema da transexualidade porque é pouco abordado, mas sim levar os personagens a um espaço em que são mais do que símbolos de um período. Mesmo a figura da bailarina, presente em toda a primeira parte da história e por meio da qual o personagem central parece finalmente encontrar sua sexualidade, é um diálogo direto com o universo pictórico de Degas, do final do século anterior. Quando o expositor diz a Gerda para encontrar um estilo, é como se pedisse a ele um contorno menos francês. Esse contorno acaba sendo reproduzido pelo anseio do marido de se libertar de sua condição de casado: a figura da bailarina, já tão usada em quadros, é o que lhe proporciona a ideia de fugir ao que se espera do homem, do padrão de masculinidade esperado.
O tema da transexualidade se coloca com uma simbologia de representação do corpo e de se ver com outro sexo (e uma imagem em que Einar observa uma stripper por meio de um vidro é de uma grande sensibilidade de Hooper). Nunca há um deslizamento da história para o que poderia ser uma espécie de apelo. O roteiro de Lucinda Coxon, baseado em romance de David Ebershoff, tem o mérito de enquadrar as passagens dessa experiência de modo a nunca torná-la previsível. Isso se deve sobretudo a Vikander, uma grande atriz que consegue transformar os momentos derradeiros em uma virada realmente emocional, apoiada também em Redmayne, finalmente num momento que faz jus ao seu talento. E, ao contrário de O discurso do rei, Hooper não se entrega a uma frieza histórica, e sim a uma emoção calculada em doses, como no final sólido e que expande a imaginação do espectador.

The danish girl, Reino Unido/EUA, 2015 Diretor: Tom Hooper Elenco: Eddie Redmayne, Alicia Vikander, Matthias Schoenaerts, Ben Whishaw, Amber Heard, Sebastian Koch, Emerald Fennell, Adrian Schiller Roteiro: Lucinda Coxon Fotografia: Danny Cohen Trilha Sonora: Alexandre Desplat Produção: Anne Harrison, Eric Fellner, Tim Bevan Duração: 120 min. Distribuidora: Universal Pictures Estúdio: ELBE / Harrison Productions / MMC Independent / Pretty Pictures / Senator Film Produktion / Working Title Films

Cotação 4 estrelas

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