Brooklyn (2015)

Por André Dick

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O espaço para filmes históricos foi preenchido por três filmes no Oscar: O regresso, Ponte dos espiões e Brooklyn. O filme de Iñárritu abriga um velho oeste com grande movimento, o filme de Spielberg é uma retomada sobre o universo da Guerra Fria, enquanto Brooklyn vai numa direção contrária: apesar de mostrar uma imigrante irlandesa, ele não tem especial interesse em desenhar um painel político ou social de sua época, a não ser por breves detalhes nas entrelinhas. Com base num roteiro de Nick Hornby, reconhecido por Alta fidelidade e Um grande garoto, entre outros livros com material pop, adaptado de um romance de Colm Tóibín, Brooklyn estreou no Festival de Sundance, no qual surgem produções que se destacam ao longo do ano.
A história inicia em 1952, quando Eilis Lacey parte de Enniscorthy, pequena cidade da Irlanda, para os Estados Unidos, depois da ajuda de sua irmã Rose (Fiona Glascott), deixando sua mãe (Jane Brennan). Sua viagem de navio lembra imediatamente a de Era uma vez em Nova York, assim como as recomendações que Eilis recebe antes de chegar aos Estados Unidos. No entanto, o filme de Crowley não tem a pretensão do filme de Gray, sendo extremamente simples.

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Eilis passa a viver na pensão de Sra. Kehoe (Julie Walters) junto com outras mulheres, e trabalha num departamento, tendo como chefe Miss Fortini (Jessica Paré), enquanto recebe ajuda para enfrentar a distância de casa do padre Padre Flood (Jim Broadbent). Ao longo de dias de melancolia, Eilis vai a um baile, onde conhece Tony Fiorello (Emory Cohen), de origem italiana, um encanador, que logo se mostra interessado em estabelecer um romance. A narrativa se mostra de maneira compassada: a jovem se adapta à América porque precisa se adaptar, e esquecer um pouco os familiares faz parte do que estaria traçado. Nada fugirá a este script, e talvez seja exatamente isso que torne Brooklyn, em parte, menos surpreendente do que poderia. Junte-se a isso um roteiro de Hornby, conhecido por sua agilidade em termos de diálogos, e torna-se estranho que o filme pelo menos não mostre uma fluência próxima ao contemporâneo, ou seja, algumas situações de Brooklyn se sentem próximas de um filme dos anos 40 e 50.
Quem admirou o visual de Carol, o filme de Haynes, possivelmente não tenha menos motivos para apreciar um design de produção e uma fotografia (assinada por Yves Bélanger, colaborador de Jean-Marc Vallée em Clube de compras Dallas e Livre) notáveis, em alguns momentos lembrando também a beleza de Era uma vez na América, dos anos 80. Nenhum detalhe técnico, por outro lado, supera ou chama mais atenção do que a atuação encantadora de Saoirse Ronan, indicada ao Oscar e que surgiu para o cinema de forma destacada em Hanna e no ano passado também estava na estreia na direção de Ryan Gosling em Lost river, até cantando. No filme de Wright, Ronan já mostrava uma versatilidade: aqui, em cima de um roteiro bastante problemático, ela consegue realmente extrair sensibilidade.

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Quando sua personagem passa a se envolver com Tony e precisa, ao mesmo tempo, ter notícias de sua cidade natal, Ronan se revela uma atriz de talento insuspeito. Nesses momentos, Brooklyn apresenta um retrato da sociedade da época, o sonho de pertencer à fundação de uma América que possa ser próspera para os imigrantes. Brooklyn é muito mais otimista do que outros filmes de imigração, mesmo contendo uma melancolia em sua superfície – que Crowley não eleva a certo material excessivamente emotivo. Falta, com isso, uma espécie de empuxe dramático ou emocional à direção, principalmente porque conta com uma excelente Ronan e as participações de Emory Cohen e Domhnall Gleeson, como Jim, que mora na Irlanda. Em nenhum momento, a história aponta para algum conflito que pudesse lembrar o de Madame Bovary: os personagens parecem estar apenas à espera do que o roteiro já promete de antemão. Nesses anos 1950 de Crowley, parece que não há conflitos nem a Segunda Guerra Mundial é tão recente; não há interesse por escombros e reconstrução de um passado, apenas a tentativa de uma jovem encontrar seu amor e contrabalançar sua vinda para a América com a culpa de ter deixado seus pais e sua irmã.
Há um problema bastante perceptível na estrutura de Brooklyn: sua montagem é muito apressada, não dando espaço à construção dos personagens, como o do padre Flood, embora as motivações da personagem sejam interessantes e bem arquitetadas para o espectador. Eles permanecem apenas figuras dispersas, sem uma real contribuição para a história de Eilis. Tudo parece harmoniosamente clássico, como Carol, minando um pouco as situações nas quais poderia haver mais drama ou humor.

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Quando o diretor consegue ressaltar essas emoções, Brooklyn cresce, por exemplo, na sequência em que Tony apresenta Eilis à sua família: o Sr. Fiorello (Paulino Nunes), Sra. Fiorello (Ellen David) e seus irmãos Maurizio (Michael Zegen), Frankie (James DiGiacomo) e Laurenzio (Christian de la Cortina). Frankie, principalmente, é o destaque desta família. Esta sequência se constitui no momento em que Brooklyn mais exibe sua potencialidade de mostrar um ambiente familiar e os conflitos possíveis entre duas culturas – a italiana e a irlandesa – de modo afetivo, principalmente pela atuação de Cohen, um ator que se destacou anteriormente no belo O lugar onde tudo termina.
Brooklyn, sob qualquer ângulo, é mais uma fantasia sobre a imigração, e isso transparece na luz solar que o diretor Crowley capta, com uma câmera lenta um pouco incômoda, lembrando excessivamente telefilmes antigos, mas, por causa do elenco, de Ronan sobretudo, atinge uma emoção verdadeira em certos momentos, quando ela fica em dúvida se deve ficar com a descoberta da América ou voltar ao velho mundo, à segurança de estar num lugar de origem. Não há uma dramatização intensa revelando isso, acabando por prejudicar o empenho do elenco em trabalhá-la, mas Brooklyn possui uma certa sinceridade que outras obras com mais pretensão não capturam, o que não o afasta de um modo de fazer cinema já clássico e cujo hype suscitado pelo Oscar apenas o prejudica.

Brooklyn, IRL, 2015 Diretor: John Crowley Elenco: Saoirse Ronan, Domhnall Gleeson, Julie Walters, Emory Cohen, Jim Broadbent, Mary O’Driscolll Roteiro: Nick Hornby Fotografia: Yves Bélanger Trilha Sonora: Michael Brook Produção: Finola Dwyer Duração: 111 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Irish Film Board / Item 7 / Parallel Film Productions / Wildgaze Films

Cotação 3 estrelas

 

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2 Comentários

  1. Ótima crítica, uma das melhores que esse filme recebeu. Acho que o encantamento do filme, está relacionado tanto com a busca do “grande sonho americano” que durante décadas fez o imaginário de diversos imigrantes, sejam ele latinos ou europeus (principalmente para os europeus na década de 50, pós vitória dos aliados na guerra), como com a belíssima atuação da Saoirse Ronan, que soube ser emotiva de um jeito encantador no filme. Mas, por outro lado, não gostei do final do filme achei um pouco apressado e com uma fotografia meio conto de fadas onde o jogo de luz nos faz querer acreditar que a decisão da personagem foi a mais correta, uma espécie de felizes para sempre. Aqui vale louvar a fotografia do filme Carol (também na década de 50 e o seu respectivo final, que foi mais simples e menos presunçoso…. Apesar disso, o filme é muito bom e vale a pena ser assistido…

    Responder
    • André Dick

       /  12 de fevereiro de 2016

      Prezado Paulo,

      agradeço por seu comentário sobre o filme e a crítica. Concordamos com o fato de que realmente a atuação de Saoirse Ronan é o ponto de equilíbrio do filme e que a história retrata esse imaginário dos Estados Unidos, ainda hoje existente. Quanto ao final, eu concordo com você: é quando a fotografia mais inclinada para um conto de fadas se manifesta com mais presença. Ainda assim, acho que tem uma sinceridade emotiva. Não chego a ter a mesma ideia de o final de Carol foi mais simples e menos presunçoso; acho até que ele deixa mais indefinida a situação entre as personagens principais e Haynes tem pretensões que Crowley não exibe. Não chego a achar Brooklyn um grande filme, no entanto vale a sessão, sobretudo pelas atuações de Ronan e Cohen.

      Volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder

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