O regresso (2015)

Por André Dick

O regresso 18

Logo depois de receber o Oscar por Birdman, Alejandro G. Iñárritu retoma sua filmografia com O regresso, baseado num livro de Michael Punke. É interessante como o diretor mexicano partiu de Amores brutos, uma espécie de releitura da violência de Tarantino, principalmente de Cães de aluguel e Pulp Fiction, com suas histórias cruzadas, para um messianismo de culpa em 21 gramas e um épico intimista em Babel. Logo em seguida, parece que Iñárritu buscou suas fontes originais e fez Biutiful, uma obra em que Javier Bardem tinha uma grande atuação, mas era prejudicada por certos problemas de narrativa, apesar da bela fotografia.
Em O regresso, Iñárritu resolve se voltar para a formação dos Estados Unidos, mostrando o contato do homem branco com os índios, e a maneira como isso se deu, de ambos os lados. Leonardo DiCaprio interpreta com grande eficácia o explorador e caçador de peles Hugh Glass, que em 1823, depois de uma fuga a indígenas, é atacado por um urso (esta é uma das cenas, sem exagero, mais impressionantes já feitas) e fica com o corpo completamente ferido. Sua equipe, tendo à frente Andrew Henry (Domhnall Gleeson), hesita em deixá-lo para trás. Henry ordena que dois de seus homens, John Fitzgerald (Tom Hardy) e Jim Bridger (Will Poulter), possam cuidar dele até que se busque ajuda. Além disso, Glass tem um filho de origem também indígena, meio Pawnee, Hawk (Forrest Goodluck). Em meio a isso, o líder da tribo Arikara, Cão Elk (Duane Howard), procura sua filha sequestrada, Powaqa (MelawNakehk’o). Este fio de narrativa é explorado até o limite por Iñárritu e o corroteirista Mark L. Smith. Já em Birdman, o diretor mexicano conseguia expandir uma ideia a princípio simples para um longa substancialmente potente.

O regresso 14

O regresso.Filme 10

O regresso.Filme 7

Claro que tudo poderia ser diferente se não fosse a fotografia de Emmanuel Lubezki, repetindo a parceria com o diretor que lhe deu o Oscar também da área em Birdman. Lubezki retoma aqui algumas projeções já vistas em O novo mundo, de outro parceiro seu, Malick, mas desta vez evocando um Oeste selvagem e gelado (as paisagens são do Canadá, da Argentina e dos Estados Unidos), com uma caçada imprevisível e contínua, evocando outros faroestes, como Quando os homens são homens, de Robert Altman, Dança com lobos, de Kevin Costner, e principalmente, pela grandiosidade das paisagens e pelo panorama dado a elas, O portal do paraíso, de Michael Cimino. Nem por isso, como é devido em época de premiações, ele deixa de ser visto como um filme visualmente belo com roteiro oco, além de pretensioso no sentido de que seu diretor o promove. Em termos cinematográficos, essa pretensão é necessária e atinge todos os pontos: O regresso se mostra como uma obra capaz de atrair o olhar como poucas. Num cinema moderno que pouco experimenta, o diretor de Birdman, com marketing ou não, ousa.
Impressiona, mais do que tudo, inclusive do que a atuação extremamente física e sofrida de DiCaprio, a maneira como o diretor transporta o espectador para os cenários, uma extensão da realidade. Lembro-me pessoalmente de ter visto, ainda jovem, levado pelo meu pai ao cinema, o filme A missão, e a tela grandiosa mostrando a escalada de Robert De Niro cachoeira acima arrastando uma longa carga como punição por ter matado um familiar. Não sei até que ponto aquelas cenas tinham efeitos especiais, mas tanto elas quanto os índios na mata de A missão eram próximos da realidade, e Iñárritu é o primeiro cineasta que recuperou essa sensação de filmar numa localidade, em lugares realmente perdidos ou afastados, onde o homem pouco pisou – existente nos últimos anos em raros filmes, como Essential killing, com Vincent Gallo.

O regresso 20

O regresso 17

O regresso.Filme 5

Isso é uma grande solução para o filme, pois ele possui uma atmosfera que ajuda a contar a histórias daqueles personagens e da vingança do personagem depois de suas cenas desesperadas de sobrevivência. Mesmo a maneira como o personagem de Glass, um colecionador de peles, precisa trocar a própria vida em busca de sobrevivência diz mais do filme do que muitas imagens de Lubezki: estamos diante de alguém que precisa trocar a própria vida e recomeçá-la do zero para se vingar. A carne humana sofre, no entanto é preciso da carne animal para mantê-la. Embora DiCaprio não se apresente aqui melhor do que já aparecia em filmes como Gilbert Grape, Django livre, O grande Gatsby e O lobo de Wall Street, é um tour de force notável principalmente do ponto de vista físico e durante toda a narrativa ele consegue tornar seu personagem plausível. Quando ele fica imóvel, o espectador consegue realmente sentir aquilo pelo qual o personagem passa, acentuado pelo cenário desolador e aparentemente infinito. Enquanto Glass se perde e não tem um ponto de referência claro, o espectador tem a mesma sensação.
Além disso, não apenas as cenas são violentas, como o diretor parece ter construído uma maneira de lançar o espectador em meio a ela (como nas cenas de tiros e flechas dos índios). Todos os movimentos de câmera de Lubezki apanham os personagens em movimento, como se eles estivessem próximos, uma qualidade que já era vislumbrada em Birdman. Tudo é amplificado pela atuação dos atores, desde DiCaprio, passando por Hardy (redimindo-se de sua passagem quase em branco por Mad Max), até Gleemson, que está em vários filmes neste ano (Star Wars, Ex Machina, Brooklyn), mas aqui tem seu momento mais contundente. E Will Pouter também tem uma presença muito boa, já constatada em outros momentos.

O regresso 19

O regresso 15

O regresso 16

Se às vezes a narrativa diminui de intensidade, Iñárritu mostra uma perícia insuspeita e um traço eclético, com um filme totalmente diferente, no seu tom e metragem, de Birdman e mesmo de seus projetos anteriores, como Babel e 21 gramas. Com um olhar muito poético, ele consegue transformar o sofrimento de um homem na natureza como se ele fosse parte dela, dependente para dormir e comer (significativa a passagem em que ele precisa evocar Han Solo em O império contra-ataca). É um filme essencialmente sobre sobreviver e poder refazer a trajetória pessoal e, nesse sentido, O regresso é poderoso mesmo quando não consegue aliar as ideias concretas com algumas mais abstratas. Há uma presença religiosa nessa tentativa de Glass confrontar seus próprios limites, e as imagens que remetem a sinos e pirâmides se intensificam em suas lembranças. Não apenas pela fotografia de Lubezki, como pelas imagens, há um interesse em dialogar com A árvore da vida. Iñárritu ecoa Malick, porém não o dilui nem exatamente o imita; ele transforma, aqui, a violência numa espécie de ponto de referência da cultura dos Estados Unidos, quando se dizimaram tribos em uma escala imensa. Essa violência tem um enorme contraste com a beleza das imagens do espectador. Como podem essas paisagens esconder tanta violência? Veja-se a pilha de ossos, remetendo a imagens do Holocausto, ou as cenas de avalanche da neve, que remetem a O grande búfalo branco, dos anos 70, com Charles Bronson, numa perspectiva mais épica. É visível também a presença, em alguns quadros, de Herzog, sobretudo aquele de Fitzcarraldo e O sobrevivente. A água se mostra como uma espécie de salvação, ao mesmo tempo que leva o ser humano a lugares ainda inabitados. Com ela, o fogo mostra não apenas o que pode iluminar florestas, com homens segurando tochas, ou esquentar à margem de um rio; também é aquilo que não sobrevive ao vento e ao gelo. Junto a isso, é um filme com um punhado de cenas executadas com perfeição e que cresce na lembrança, principalmente quando alterna os motivos existenciais que perduram na narrativa. Mesmo o final, habitualmente criticado, é de uma beleza notável: Iñárritu leva o espectador a uma espécie de retomada de um passado e a necessidade, ao mesmo tempo, de abandoná-lo e seguir adiante.

The revenant, EUA, 2015 Direção: Alejandro González Iñárritu Elenco: Leonardo DiCaprio, Tom Hardy, Domhnall Gleeson, Will Poulter, Forrest Goodluck, Lukas Haas, Dave Burchill, Melaw Nakehk’o Roteiro: Alejandro González Iñárritu, Mark L. Smith Fotografia: Emmanuel Lubezki Trilha Sonora: Bryce Dessner, Carsten Nicolai, Ryûichi Sakamoto Produção: Alejandro González Iñárritu, Arnon Milchan, David Kanter, James W. Skotchdopole, Keith Redmon, Mary Parent, Steve Golin Duração: 156 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Anonymous Content / New Regency Pictures / RatPac Entertainment

Cotação 5 estrelas

 

Anúncios
Post seguinte
Deixe um comentário

16 Comentários

  1. Ótima Crítica!

    No youtube tem um vídeo mostrando semelhanças entre cenas de The Revenant e cenas de filmes do Tarkovsky(que por sinal vc não mencionou na resenha).

    Bem interessante: https://www.youtube.com/watch?v=yvkiG3lGuUQ

    Responder
    • André Dick

       /  4 de fevereiro de 2016

      Prezado Kiko,

      Agradeço por seu comentário generoso sobre a crítica e agradeço por ter enviado este vídeo mostrando imagens de O regresso que lembram filmes de Tarkovsky, inclusive daqueles que aprecio tanto, como O espelho e O sacrifício. Ótima edição, mesmo que eu considere que a contemplação existente na obra do cineasta russo tenha influenciado mais outro mexicano, Carlos Reygadas. Mas certamente, como Malick, Iñárritu teve esta influência e agradeço por lembrá-la por meio deste vídeo.

      Volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder
  2. André,

    Parabéns pela crítica. Estou procurando escritores para meu site, o Movier. Tentamos dar espaço lá para gente que ama cinema falar profundamento sobre o assunto. Sei que você já tem o blog aqui, que é muito bom por sinal, mas caso tiver interesse em participar do projeto, deixo o convite: https://movier.com.br

    O meu email é maaartins@gmail.com, caso queira conversar mais. Um abração e parabéns! 🙂

    Responder
    • André Dick

       /  5 de fevereiro de 2016

      Prezado Felipe,

      agradeço por seu comentário generoso sobre a crítica e o blog e pelo convite para participar de seu site. Responderei a você pelo e-mail que me envia de contato.

      Grande abraço!
      André

      Responder
  3. Daniel Almeida

     /  9 de fevereiro de 2016

    Excelente crítica. Sempre venho ao seu site como prato principal das críticas.
    Leio Omelete e outros, e assisto vídeos ou ouço podcast sobre os filmes. Quando termino, venho aqui e sempre encontro uma crítica sóbria. Continue assim. Imparcialidade não se vê muito por aí.
    Grande Abraço.

    Responder
    • André Dick

       /  10 de fevereiro de 2016

      Daniel,

      agradeço por seu comentário generoso sobre o blog e pela honra de ter sua leitura!

      Volte sempre!

      Grande abraço,
      André

      Responder
  4. Isso sim é uma crítica! Top!

    Responder
  5. Glauber

     /  11 de fevereiro de 2016

    Excelente!
    Tenho o hábito de somente ler as críticas, após assistir o filme. Infelizmente, me deparei com diversas críticas bem desfavoráveis ao filme, muitas delas, um tanto rasas. Cheguei a essa, através dos comentários do Omelete e, finalmente, encontrei um texto coerente e uma crítica muito bem feita.

    Parabéns, acabou de ganhar mais um leitor!

    Responder
    • André Dick

       /  11 de fevereiro de 2016

      Prezado Glauber,

      agradeço por seu comentário generoso sobre a crítica! De modo geral, as críticas negativas que tenho lido são exclusivamente às pretensões do diretor Iñárritu e não sobre o filme em si, de uma beleza ímpar, independente de se gostar dele ou não. Todos os diretores hoje, pelo que me parece, podem ter influências, menos Iñárritu.

      Obrigado de antemão por sua leitura e volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder
  6. Marcelo

     /  16 de fevereiro de 2016

    Também acessei esta crítica pelo Omelete e achei ótima. Finalmente encontrei uma que analisa o filme como merece (a cena do urso é real e incrível). Virei fã do diretor desde Birdman.

    Responder
    • André Dick

       /  16 de fevereiro de 2016

      Prezado Marcelo,

      agradeço pelo comentário generoso sobre a crítica. Também gosto muito da obra desse diretor; difícil escolher seu melhor filme, mas a meu ver é este.

      Volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder
  7. A melhor crítica que já li deste filme, parabéns. Virei fã do site. Espero conseguir acompanhar todas os textos futuros. Parabéns.

    Responder
    • André Dick

       /  18 de fevereiro de 2016

      Prezado Eloisio,

      agradeço por seu comentário generoso sobre a crítica e o site. E, de antemão, por sua leitura!

      Um abraço,
      André

      Responder
  8. Paula Rocha

     /  24 de novembro de 2016

    Este, pra mim, é um dos melhores filmes que assisti nestes últimos. São tantos adjetivos que se pode dar, mas o que mais me fascina é a perfeita simetria com a parte técnica e artística da película, que nos leva às mais belas e inóspitas imagens da natureza à selvageria da mesma. Assisti hoje pela segunda vez e fico fascinada da mesma forma.
    Queria só tirar uma dúvida a respeito do que você diz sobre a passagem em que o filme evoca Han Solo em O império contra-ataca, pois não me recordo.

    Excelente análise!!!

    Responder
    • André Dick

       /  24 de novembro de 2016

      Prezada Paula,

      agradeço mais uma vez por seu comentário e generosidade. O regresso também é para mim uma das peças mais notáveis já feitas, uma verdadeira obra-prima do cinema contemporâneo. Utilizando sua ótima observação, ele traz “a perfeita simetria com a parte técnica e artística da película, que nos leva às mais belas e inóspitas imagens da natureza à selvageria da mesma”. Em relação à passagem que evoca Han Solo (spoiler a seguir) é quando Hugh Glass precisa se proteger do frio se “abrigando” na parte interna do cavalo que morre depois da queda. Em O império contra-ataca, Han Solo usa a criatura Tauntaun, do planeta gelado Dagobah, para conseguir se abrigar dentro dela com Luke Skywalker. É uma analogia um pouco forçada, pois são gêneros bastante diferentes, mas me lembrou bastante.

      Obrigado novamente e volte sempre!

      Grande abraço,
      André

      Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: