Carol (2015)

Por André Dick

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O diretor Todd Haynes é um dos nomes mais respeitados em Hollywood, um dos poucos vistos com características autorais, já demonstradas em larga escala, seja em Veneno, seja no estranhíssimo Velvet Goldmine ou na homenagem a Bob Dylan em Não estou lá. No entanto, seu grande filme até agora continua sendo Longe do paraíso, em que Dennis Haysbert interpreta Raymond Deagan, um jardineiro afroamericano que se torna próximo de Cathy Whitaker (Julianne Moore), o que causa um escândalo na sociedade conservadora dos Estados Unidos dos anos 1950. Casada com Frank (Dennis Quaid), o qual considera que precisa tratar sua homossexualidade com um psiquiatra, ela apresenta a Raymond a arte moderna por meio de pinturas. Lançado em 2002, Longe do paraíso possui uma maravilhosa atmosfera com a contribuição da fotografia de Edward Lachman.
É justamente ele que regressa para fotografar o novo filme de Haynes, Carol, baseado em livro de Patricia Highsmith, mais uma vez apostando no relacionamento proibido para a sociedade dos anos 50. Desta vez, é Carol Aird (Cate Blanchett), em processo de separação de Harge (Kyle Chandler, quase sempre fazendo personagens desajustados pela bebida), que se interessa por uma balconista de loja, Therese Belivet (Rooney Mara).

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O primeiro encontro se dá às vésperas do Natal, em Manhattan, quando as lojas estão repletas, mas Haynes já distribui seu olhar para o que deseja mostrar: uma jovem que não se decidiu ainda se irá se casar com o namorado, Richard Semco (Jack Lacy), o qual pretende levá-la para França, ou tentará vivenciar um amor com Carol. Estamos longe, claro, de qualquer tratamento mais moderno sobre a relação entre mulheres, nos moldes de Azul é a cor mais quente.
Carol é muitas vezes calculado e preciosista, como Longe do paraíso, se não fosse também bastante distanciado em termos de personagens e de como eles chegam ao espectador. As primeiras aproximações entre Carol e Therese se dão de tal maneira clássica que ficamos confusos à primeira vista se Haynes está querendo compor um painel meio neutro, colocando os personagens distantes uns dos outros para representar esse mundo em que poucos, afinal, conseguem se encontrar. O primeiro encontro que entre as duas acontece na loja em que Therese trabalha: ela observa Carol na vitrine, que parece também observá-la a distância; Carol se aproxima e finge esquecer uma luva para que Therese possa procurá-la. Nesse meio tempo, o espectador já tem informações de que ela tem severos desentendimentos com o marido. É Longe do paraíso visto sob o ponto de vista estritamente feminino, mas sem a mesma ênfase e o mesmo brilho de Haynes, apesar da belíssima parte técnica, uma reconstituição de época esforçada. Este é o Inside Lewyn Davis ou o Era uma vez em Nova York de Haynes.
Aos poucos, percebe-se que também não teremos muitas informações, a não ser o fato de que Therese deseja ser fotógrafa, e para isso estabelece contato com Dannie McElroy (John Magaro), que trabalha no The New York Times, e Carol quer brigar pela guarda de sua filha na justiça, Rindy (Kk Heim), com seu marido. São personagens deslocadas do seu período e de suas respectivas posições, e Haynes tem um talento, como em Longe do paraíso, a fornecer imagens que tratam desse deslocamento.

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Quando o filme passa a ser uma espécie de road movie clássico, parece que o filme tem um verdadeiro encanto em mostrar as paisagens de uma América perdida em beiras de estrada e de hotel, além de um personagem misterioso da vida de Carol se antecipar a alguns fatos, Abby Gerhard (Sarah Paulson, muito bem). Os personagens estão sempre querendo dizer algo, mas pouco o fazem, a não ser por olhares misteriosos e toques a distância, preenchidos pela trilha sonora agradável de Carter Burwell e a câmera da Canon levada por Therese é o ponto de aproximação mais direto de Carol: por meio de uma fotografia que tira dela escolhendo uma árvore de Natal, está o núcleo dramático do filme.
Haynes tem uma tendência em filmar rostos atrás de vidros, principalmente embaçados, confundido o espectador, e o máximo que essas pessoas trocam são toques querendo atrair algum tipo de afeto perdido. Nesse meio termo, as duas encontrarão um homem chamado Tommy Tucker (Cory Michael Smith) e percebe-se o quanto Rooney Mara ainda tem dificuldades de repetir o êxito interpretativo de Millennium (em Terapia de risco já não havia conseguido, embora em Peter Pan esteja bem): dificilmente ela funciona, e ter sido premiada como atriz principal em Cannes é um mistério (embora eu não tenha visto todas as atuações), sempre salva, nas cenas, por uma Blanchett impressionantemente contida e só não melhor do que em Cavaleiro de copas, o filme mais recente de Malick.

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Blanchett começa com uma determinada lentidão, quase sem roteiro, e ao final se vê uma implosão dramática difícil de ser alcançada, apesar dos classicismos de Haynes na maneira de filmar, imprimindo uma sutileza que extrai da carga dramática apenas lances de olhar. É Blanchett que, afinal, faz valer a sessão de Carol, um filme particularmente com uma emoção tão distanciada que não permite ao espectador se aproximar de qualquer um de seus personagens – principalmente com os arroubos, delicados para um drama dessa espécie, de Chandler.
É de se perguntar por que Haynes tem uma perícia muito grande em montar personagens femininos e fazer dos personagens masculinos apenas tolos em movimento. Um dos motivos de Carol ser tão pouco efetivo em sua parte dramática é justamente colocar quase todos os personagens masculinos com uma tendência apenas à incompreensão diante da mulher, afinal elas também estão enfrentando o posicionamento deles. Quando mais ao final Haynes coloca tudo num movimento mais interessante, e o receio da solidão como tema fundamental, o filme parece crescer. Torna mais claro o seu foco: a impossibilidade de duas pessoas terem uma relação numa época em que essa aproximação era ainda mais dificultosa e impedida por tudo ao redor.

Carol, EUA, 2015 Diretor: Todd Haynes Elenco: Cate Blanchett, Rooney Mara, Jake Lacy, Kyle Chandler, Sarah Paulson, John Magaro, Greg Violand, Kk Heim, Sadie Heim, Trent Rowland, Nik Pajic, Cory Michael Smith, Carrie Brownstein Roteiro: Phyllis Nagy Fotografia: Edward Lachman Trilha Sonora: Carter Burwell Produção: Christine Vachon, Elizabeth Karlsen, Stephen Woolley, Tessa Ross Duração: 118 min. Distribuidora: Mares Filmes Estúdio: Film4 / Killer Films / Number 9 Films

Cotação 2 estrelas e meia

 

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