Os oito odiados (2015)

Por André Dick

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Depois de Django livre, Tarantino volta ao gênero do faroeste em que desenhava um panorama da escravidão nos Estados Unidos, ao mesmo tempo que oferecia uma vingança a seu personagem principal, interpretado por Jamie Foxx. Em Os oito odiados, novamente com uma fotografia excepcional de seu habitual parceiro, Robert Richardson, Tarantino volta a mostrar não exatamente surpresas na estrutura do roteiro (dividido em capítulos como os seus melhores filmes, a começar por Bastardos inglórios), mas na maneira de captar a ação. É como se ele tivesse vendo a estrutura de alguns filmes europeus (vide O gebo e a sombra), com uma caracterização quase teatral. Enquanto Django livre era um faroeste inteligente e plástico, sua sustentação se dava principalmente pelas cenas de tiroteio com a característica mais pop de Tarantino.
Em Os oito odiados, John Ruth (Kurt Russell) leva uma prisioneira algemada a seu braço, Daisy Domergue (Jennifer Jason Leigh), numa diligência conduzida por OB Jackson (James Parks), quando se depara com a figura do Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson) e, em seguida, com aquele que se diz novo xerife de Red Rock, Chris Mannix (Walton Goggins). Numa nevasca complicada, eles acabam parando na hospedaria acolhedora de Minnie, antes de onde deveriam ficar, exatamente a cidade de Mannix. Na hospedaria, encontram o General Sandy Smithers (Bruce Dern), Oswaldo Mobray (Tim Roth, pouco mais de vinte anos depois de fazer o assaltante nervoso de Pulp Fiction), Bob (Demian Bichir) e Joe Gage (Michael Madsen).

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Interessante como cada personagem parece ter uma característica que parece defini-lo, a começar com Mannix, visto como um covarde por John Ruth e Major Marquis. Oswaldo Mobray é uma espécie de inglês elegante apegado às vítimas que ainda fará, Bob se mostra como o mexicano solícito, Joe Gage (talvez uma brincadeira com John Cage, o músico de vanguarda) como aquele interessado em visitar a sua mãe e escrever em seu diário, e o General Sandy Smithers não pretende sair de seu silêncio numa poltrona acomodada longe da porta.
Todos esses personagens ganham um espaço e a demora que leva para cada um entrar ou sair do estabelecimento de Minnie concedem suspense para a narrativa, justificando a montagem de Fred Raskin, colaborador de Tarantino desde Django livre e substituto de Sally Menken, a montadora dos clássicos do diretor. Há uma base nítida não apenas em filmes europeus (o já citado O gebo e a sombra e O cavalo de Turim); Tarantino leva para o cinema a mesma peça que encenou inicialmente quando ainda decidia se faria o filme ou não. A colocação de estacas pelos personagens para encontrar o banheiro na nevasca é um exemplo claro de que se dá importância aqui a uma lentidão que não havia na narrativa apressada de Django livre. Ou quando Ruth adentra a hospedaria e procura por comida ou café, sem considerar quem se encontra no lugar.
Ao mesmo tempo, o design de produção deste filme parece mais rico e dialogar mais com o Velho Oeste do que o de Django livre. Todos os detalhes (da paisagem invernal à concepção rústica da hospedaria) recebem um cuidado por parte de Tarantino, inclusive alguns que não são comuns em sua trajetória. Outro exemplo: a trilha sonora de Ennio Morricone (cujas notas lembram aquelas de Os intocáveis) supera a escolha de canções dos últimos filmes de Tarantino que mais usavam esse elemento (Kill Bill – Vol 1 e Django livre). Ou seja, nesses filmes, em algum momento, o diretor parecia não mesclar música e imagens, senão simplesmente colocar a imagem como pano de fundo para a música que transcorria – a longa cavalgada de Django até a fazenda do vilão feito por DiCaprio é um exemplo clássico dessa tendência de Tarantino.

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Além disso, a trilha de Morricone parece soar estranha no conjunto, pois lembra mais os acordes empregados num filme de terror ou de suspense, mais especificamente com outro filme em que homens ficam presos num lugar, numa determinada estação do Ártico, em O enigma de outro mundo. Tarantino imagina, mais do que John Carpenter, de qualquer modo um Sam Peckinpah. Ao contrário de discussões sobre quem pode carregar um alien, há referências à escravidão, à aversão aos mexicanos, ao racismo, à rivalidade entre o sul e o norte dos Estados Unidos e nenhum dos personagens se coloca como isento de culpa.
Em termos plásticos, mesmo pela fotografia cuidadosa de Richardson, não se pode deixar de ver algumas semelhanças do filme, como O regresso, diante da obra O portal do paraíso, de Cimino, sobretudo porque a ação se passa no Wyoming, e com a obra estrelada por Warren Beatty nos anos 70, Quando os homens são homens, tanto pelas paisagens gélidas quanto pelo inesperado comportamento dos personagens. Esta plasticidade, no entanto, só é realmente destacada por causa do elenco, sobretudo Samuel L. Jackson, que consegue suas melhores atuações justamente com Tarantino. Assim como em Pulp Ficition, ele é aquele que tece o elo entre os personagens, entre a justificativa de vingança e a necessidade de estabelecer acordos, entre a intranquilidade e o sossego diante das piores situações. É um personagem bastante ambíguo, como todos os outros, ao qual Tarantino dá especial atenção porque sabe que sua obra depende dele para render.
E Tarantino sempre cresce, com seus personagens, em lugares delimitados, e por isso suas obras Kill Bill – Vol. 1 e Django livre se sentem um pouco mais dispersas exceto nas sequências de confrontos pessoais.

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Assim, ele parece conduzir melhor seus filmes quando coloca os personagens em situações no limite em lugares demarcados. A interação do personagem de Jackson com os demais é sustentada pelo confronto de olhares, uma especialidade do ator e também de seu companheiro de cena, Bruce Dern, logo depois de Nebraska e numa situação mais delicada, enquanto Russell e Jason Leigh compõem uma dupla inquieta e implacável – e quando surge um momento de alívio, e é dada à personagem dela o direito de cantar uma música, Tarantino lembra de que seu filme trata de outro tema. A aparenta passividade dos personagens contrasta com a violência que carregam, principalmente de Ruth e sua prisioneira. O sangue, no filme, respinga sobre o gelo e não há fogo que possa aquecer esses personagens, em razão da frieza que carregam. Nesse sentido, Tarantino compõe um faroeste que tem as características do gênero apenas em sua superfície – quando esconde, mais ao chão, sua verdadeira subversão e seus diálogos que rumam a uma situação indefinida.
Daí, talvez, ser Os oito odiados o filme mais violento de Tarantino, com cenas realmente de desviar o olhar, numa espécie de diálogo com o mais recente Refn, de Drive e Apenas Deus perdoa. E talvez por isso ele coloque em cena imagens religiosas que possam tentar salvar esse universo e os homens e mulheres que habitam esse universo – sendo a mulher o símbolo da solidão e uma espécie de figura associada às bruxas, como era vista em uma determinada época. A violência contra a mulher em Os oito odiados é perturbadora, mais do que em qualquer obra de Tarantino, mas cria uma correspondência com a imagem de Jesus Cristo crucificado logo no início do filme, quando surge, ao fundo, a diligência que dá início à história. E a narrativa centra também suas expectativas em discussões políticas, sobre a Guerra Civil dos EUA e sobre uma determinada carta de Abraham Lincoln a um de seus personagens, podendo ser verdadeira ou não. O encontro entre esses personagens não é motivo apenas para uma sequência ininterrupta de diálogos, alguns deles extensos, e num contato direto com outras obras de Tarantino, e sim com uma teatralidade conduzida com esmero impressionante. A maneira como o cineasta leva seu elenco, principalmente Russell, Samuel L. Jackson e Goggins, é notável, e Leigh rouba a cena sempre que é chamada à aparição. Visto como uma peça quase política pelo tom de suas ideias – e muitas têm a ver diretamente com o sistema norte-americano –, Os oito odiados é um dos grandes filmes da trajetória de Tarantino e uma referência para quem gosta de cinema ousado.

The hateful eight, EUA, 2015 Diretor: Quentin Tarantino Elenco: Samuel L. Jackson, Kurt Russell, Walton Goggins, Jennifer Jason Leigh, Tim Roth, Demian Bichir, Bruce Dern, Michael Madsen, James Parks Roteiro: Quentin Tarantino Fotografia: Robert Richardson Trilha Sonora: Ennio Morricone Produção: Richard N. Gladstein, Shannon McIntosh, Stacey Sher Duração: 182 min. Distribuidora: Diamond Filmes Estúdio: Columbia Pictures / The Weinstein Company

Cotação 5 estrelas

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6 Comentários

  1. Spoilers abaixo

    André,

    É muito bom filme mesmo. Início arrastado, propositalmente, para apresentar os personagens e um clima claustrofóbico que gera tensão entre os habitantes da cabana.

    Agora, o roteiro tem um furo relativamente gigante. O personagem de Samuel mata Bob com a justificativa de que Minnie detestava mexicanos (a placa foi retirada por causa de cachorros), mas no flashback, vemos Minnie tratando todos muito bem os visitantes e não demonstrando em nenhum momento que não gosta de mexicano.

    Além disso, há um off desnecessário em um dos capítulos, mas isso não tira o brilho do filme que, no mínimo, mostra que ainda se faz cinema de autor nos EUA.

    Abraços!

    Carlos Lira

    Responder
    • André Dick

       /  7 de janeiro de 2016

      Spoilers abaixo

      Prezado Carlos,

      Não chegou a me chamar a atenção deste detalhe entre Minnie e Bob, mas creio que a questão está no fato de que, para o Major, Minnie não deixaria sua hospedaria aos cuidados de um mexicano, pois, pelo que se entende, ela também nunca abandona o lugar, em época alguma. Ou seja, se Minnie tivesse algum preconceito em hospedar qualquer um, naquelas paragens ela estaria muito antes em apuros.
      Quanto ao off, também não me incomodou. Há dois offs em Bastardos inglórios (salvo engano, a introdução a Hugo Stiglitz e sobre o fato de a película pegar fogo facilmente). O “off” em Os oito odiados é para introduzir um suspense, já que não poderia se mostrar o que Daisy viu; talvez pudesse ser feito de outro modo, mas não acho que seja prejudicial à narrativa.

      Abraços,
      André

      Responder
      • Como o filme foi originalmente feito pra passar naquelas sessões especiais em 70mm, o Tarantino preparou uma introdução especial e um intervalo no meio do filme, que não tem na versão digital.
        Me pareceu que aquela narração deve ocorrer logo na volta do intervalo, o que faria mais sentido.

      • André Dick

         /  7 de janeiro de 2016

        Vinícius,

        boa observação: talvez o sentido dado ao “off” seja este mesmo, pois a passagem está na metade do filme. Aliás, lamentável que no Brasil o filme não possa ser exibido do mesmo modo, inclusive com intervalo, pois a narrativa tem duas partes completamente distintas.

        Volte sempre.

        Um abraço,
        André

  2. Não conhecia esta página, descobri dentro do site Omelete e ja li várias reviews, inclusive a incrível lista ano ano dos filmes dos ano 90. vc é muito bom, parabéns André.
    Quanto ao hateful 8 achei um dos melhores do Tarantino, bem melhor que seu antecessor Django , que achei um filme destoante da obra do cineasta.Une todos os grandes elementos “Tarantinescos” , e mesmo elevando a violência a uma potência absurda até para os padrões do diretor, ela não é gratuita ou desnecessária, pelo contrário. Prá mim foi uma grande falha no Oscar este filme ter sido ignorado. Um abraço, seu site já está favoritado.

    Responder
    • André Dick

       /  7 de abril de 2016

      Prezado Leonardo,

      agradeço por seu comentário sobre o site! São palavras que dão muito ânimo para continuar o trabalho.

      Quanto ao Os oito odiados, quando lembro que Spotlight recebeu o Oscar de melhor filme e Ponte dos espiões e Mad Max foram indicados ao prêmio maior, dá a dimensão do que é a ausência dele nas categorias de maior destaque. Trata-se de um dos maiores equívocos cometidos pela Academia nos últimos anos, apesar do prêmio merecido dado à trilha sonora de Morricone. Também considero este filme muito melhor do que Django livre, que tinha ótimos momentos, mas uma montagem um pouco confusa e dando espaço demais às trilhas do diretor. Como você comenta, Os oito odiados entrega uma violência de acordo com a situação mostrada. É um dos grandes filmes dos últimos 10 anos.

      Agradeço novamente por sua leitura e volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder

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