Que horas ela volta? (2015)

Por André Dick

Que horas ela volta

Uma das questões fundamentais para a retomada do cinema brasileiro em larga escala é estabelecer parâmetros. Enquanto os filmes lançados no país forem comparados a comédias recorrentes nas salas de cinema, haverá sempre um círculo de volta para tempos atrás. É impressionante como depois de um início de década passada tão forte, com obras como Cidade de Deus, Abril despedaçado e Bicho de sete cabeças, o cinema brasileiro tem se voltado basicamente a comédias um tanto repetitivas, pelo menos no circuito de distribuição em massa, deixando à margem filmes que poderiam ser melhor reconhecidos e acabam muitas vezes restritos a festivais.
Que horas ela volta?, selecionado para representar o Brasil no Oscar, mas sem chegar à reta final, traz de volta a diretora Anna Muylaert, que fez em 2009 um dos melhores filmes sobre o cotidiano da cidade de São Paulo, em É proibido fumar, com determinadas sutilezas ausentes aqui – ou mesmo em Durval Discos. Com um grande talento em filmar e competência para enquadrar imagens como se fossem símbolos, ela lida com o elenco da melhor maneira possível; aqui é Regina Casé que tem um grande momento como atriz, o melhor talvez desde A marvada carne. Ela interpreta Val, uma empregada de uma mansão de São Paulo. Porém, ela trabalha com um roteiro que retrata um certo rumo de coisas que representariam, no caso, o Brasil.

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No filme de Muylaert, vem primeiro à mente a ideia de que todos que têm condições dominam e os que não têm são explorados. Os que dominam são representados pela família de Carlos (Lourenço Mutarelli), Bárbara (Karine Teles) e o filho Fabinho (Michel Joelsas), que trata Val como sua verdadeira mãe. Mas o que não se percebe, muitas vezes, é o seguinte: Que horas ela volta? é o registro específico de uma empregada que se vê às voltas com a filha, Jéssica (Camila Márdila), que nunca mais havia encontrado e vem aguardar o vestibular como hóspede na casa onde há patrões no mínimo estranhos e pertence não apenas a outra geração, como tem um comportamento totalmente diferente. E o filme, diante desse atrito entre mãe e filha, que é a base da história, e não seu traço social, é também no mínimo engraçado.
Para Muylaert, à primeira vista, esta família parece culpada por querer deixar seus empregados com o mesmo modo de vida. Quando a filha de Val chega à cidade para prestar vestibular, ela logo se torna uma ameaça para a mãe de Fabinho, além de provocar um certo interesse amoroso. Parece ser o mesmo discurso visto em O som ao redor, mas Kleber Mendonça Filho consegue tornar as nuances mais sutis. Ainda assim, não é esse o ponto: Que horas ela volta? subverte o que poderia ser um drama numa espécie de comédia involuntária também sobre o comportamento e a relação entre patrões e empregados. E por causa de Regina Casé, Márdila e o excepcional Mutarelli, o filme escapa do pieguismo com uma sátira corrosiva ao modo de recepção do brasileiro diante do que considera à margem.

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Segundo a diretora, essas pessoas que estudaram e frequentaram a faculdade querem, aparentemente, impedir pessoas de classes menos abastadas a fazer o mesmo – no entanto, isso é negado, por exemplo, pela figura de Carlos, que dá as cartas na família mesmo ficando o dia inteiro em seu ateliê de pintura. Elas parecem querer, em síntese, que tudo permaneça igual para que possam tomar sossegadas seu café da manhã – porém, há a vontade individual do lado que se vê como oposto. E, mais importante, há, principalmente na relação entre Val e Jéssica, um embate entre o comportamento que pode ser visto como antigo e o novo, de não se contentar apenas com a tradição. Quando um filme como Que horas ela volta? é tomado como exemplo de cinema brasileiro, imagine-se que ele desenha um retrato do Brasil. Ele pode tirar um retrato momentâneo, mas ele é extremamente sensível e simples.
Faltam talvez nuances à obra de Muylaert porque o espectador sabe que ela está tratando de determinadas questões e deseja destacá-las em primeira mão. Ele toma as pessoas às vezes como ponto para que seu discurso ecoe. Nisso, constata-se a maior decepção de Que horas ela volta? para quem espera um desenho dramático: ao contrário do que mostra Muylaert, as saídas sempre são mais complexas e não se realizam num passe de mágica. E não dependem especificamente nem da família de Carlos nem apenas de Val e Jéssica, nem de uma piscina, ou seja, o contexto é sempre mais difícil. No entanto, Que horas ela volta? tem uma narrativa que nunca menospreza a sensibilidade de sua protagonista, e Regina Casé consegue realmente transformar uma interpretação que poderia ser apenas engraçada num traço de emoção e agridoce, na despedida de fases e do reencontro com uma nova geração, a da sua filha, e com outra ainda sendo descoberta. Desse modo, Muylaert, quando aparenta transitar entre a análise sociológica e a crítica às classes sociais, quer apenas contar a história de uma mãe que consegue crescer no mesmo passo que sua filha tenta crescer: a fuga do lugar de origem pode ser um risco, mas Muylaert entende que é ela que movimenta não classes e sim indivíduos. Para a diretora, só há mudanças porque há vontades individuais, sem que ninguém necessariamente movimente as peças. E esse é o grande acerto do filme.

Que horas ela volta?, BRA, 2014 Diretora: Anna Muylaert Elenco: Regina Casé, Camila Márdila, Karine Teles, Lourenço Mutarelli, Michel Joelsas, Theo Werneck Roteiro: Anna Muylaert Fotografia: Bárbara Álvarez Trilha Sonora: Fábio Trummer Produção: Anna Muylaert, Débora Ivanov, Fabiano Gullane, Gabriel Lacerda Duração: 114 min. Distribuidora: Pandora Filmes Estúdio: África Filmes / Globo Filmes / Gullane Filmes

Cotação 4 estrelas

 

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