Homem irracional (2015)

Por André Dick

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O diretor Woody Allen sempre teve uma trajetória voltada à mescla entre humor e drama, o que pode se constatar mais uma vez em Homem irracional, tendo à frente Joaquin Phoenix e Emma Stone. Se os seus projetos anteriores já mostravam um roteiro se adaptando a essa mistura, em Homem irracional é possível dizer que Allen incorre numa tentativa de repetir dois filmes que já lhe trouxeram grandes críticas: Crimes e pecados, dos anos 80, com Alan Alda, e Match Point, do início dos anos 2000, em seu início de turnê de filmagens pela Inglaterra. De ambos, Allen extrai algumas características marcantes: de Crimes e pecados, Homem irracional possui um certo humor negro mesclado a aspectos trágicos, enquanto de Match Point ele conserva uma certa dúvida sobre quais são as pretensões do ser humano ao procurar uma reviravolta em sua vida.
Phoenix interpreta Abe Lucas, um professor com problemas etílicos que chega para dar aula de Filosofia numa pequena cidade de Rhode Island, na faculdade do campus de Braylin, onde imediatamente conhece uma de suas alunas, Jill Pollard (Emma Stone). Namorada de Roy (Jamie Blackley), ela passa a se encantar pelas histórias do professor, sempre preocupado em satisfazer aos outros com suas idiossincrasias, sendo perseguido por uma professora casada, Rita (Parker Posey), interessada em ter casos extraconjugais. O ambiente universitário não alegra mais ao professor, até o dia em que Abe e Jill estão numa lanchonete e ouvem uma mulher contar a amigos que será prejudicada por um juiz a princípio amigo de seu marido para obter a custódia de seus filhos. Abe passa a se interessar pela solução deste caso, o que pode implicar fazer algo com este juiz.

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Um dos comentários mais conturbados, mas não desprezível, que li sobre Homem irracional é de que ele poderia representar a vontade de Woody Allen em relação ao que fazer com a justiça, sobretudo em razão dos problemas familiares em que volta e meia é envolvido. Isso pode ser, por um lado, reducionista, pois é evidente que Allen sempre teve uma postura em relação a personagens frustrados – e muitas vezes incorre no limite da solução para desvendá-los, seja por meio de uma loucura pessoal, seja por meio da aceitação de que não há outra saída a não ser essa loucura. Trata-se de um personagem que, em outro nível, dialoga com aquele da esposa solitária vista em Blue Jasmine – e as atuações de Phoenix e Blanchett se equivalem na sua extrema facilidade em mostrar um estranhamento.
Também há, como lembra minha esposa, mais leitora do que eu desse universo, uma influência notável da literatura russa, sobretudo de Crime e castigo, de Dostoiévski – a qual eu, pessoalmente, não poderia oferecer em mais detalhes, mesmo para evitar spoilers. Essa influência literária, acompanhada pelos conflitos da filosofia que Lucas ensina na faculdade, que vai de Kant a Hegel, passando por Schopenhauer, é certamente o convite que Allen faz para ver tudo com olhos de um literato. Há uma grande recorrência de Allen em relação a esse universo que cerca a literatura e a filosofia. Para ele, os personagens sofredores na verdade estão jogando com os outros, sem dó ou piedade, e o mesmo acontece com Lucas. O seu estilo melancólico, e sempre acompanhado por uma dose etílica, proporciona momentos de humor com os personagens femininos, principalmente porque não consegue ver mais razão na vida que não seja conta-la para os outros, sempre aumentando suas histórias ou se mostrando cada vez com tendências a dar cabo de sua vida mesmo em ambientes nos quais os jovens parecem querer cada vez mais se divertir.

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Nesse sentido, Jill se torna a maquinação perfeita para que ele possa introduzir uma compreensão para suas loucuras. Emma Stone consegue ser muito agradável no papel, numa nova parceria com Allen logo depois de Magia ao luar, em que dividia a cena com Colin Firth. É justamente Stone que estabelece uma ligação com um plano de entendimento mais agradável – e deve-se imaginar que Allen a selecionou a partir de três filmes em que ela se mostra com a melhor verve, A mentira, Zumbilândia e Amor a toda prova. Talvez seja neste ponto que o roteiro de Allen acabe destoando um pouco do restante, pois Joaquin Phoenix ingressa numa espécie de obsessão pessoal por se modificar de acordo com os planos que passa a traçar a fim de que haja mais sentido em sua vida, enquanto Emma se encontra mais num filme que retrata uma fuga do primeiro amor para uma relação arriscada com o professor de filosofia que tanto admira.
Fazendo o equilíbrio entre os dois, Parker Posey é nunca menos do que excelente, principalmente depois de uma determinada situação amorosa, extraindo a parte mais divertida de Homem irracional e rendendo os melhores momentos para Phoenix. Mais uma vez, no entanto, em relação a possíveis problemas de narrativa – e o roteiro nunca estabelece adequadamente a comédia e o thriller –, Allen trabalha minuciosamente com as imagens de seu habitual colaborador Darius Khondji, iluminando as manhãs e tardes e especialmente um parque com iluminação que remete a uma das cenas em night club de New York, New York, de Scorsese, como algo que foge à realidade mais imediata evitada por Abe Lucas e sua tentativa de se desligar dos relacionamentos que insistem em se fazer e se manter à sua volta. É inegável, de qualquer modo, como Allen, mesmo em filmes não tão grandes, consegue manter a qualidade que dizem ter perdido a partir do início do século, quando entregou desde então obras realmente divertidas e menosprezadas, como Igual a tudo na vida, O escorpião de Jade, Dirigindo no escuro e outras elogiadas, como Vicky Cristina Barcelona, Melinda e Melinda, Tudo pode dar certo e Meia-noite em Paris. Homem irracional fica num meio-termo, mas nunca soa dispensável como obra; pelo contrário, é atrevido e original.

Irrational man, EUA, 2015 Diretor: Woody Allen Elenco: Joaquin Phoenix, Emma Stone, Parker Posey, Jamie Blackley, Betsy Aidem, Ethan Phillips Roteiro: Woody Allen Fotografia: Darius Khondji Trilha Sonora: William Barrett Produção: Edward Walson, Letty Aronson, Stephen Tenenbaum Duração: 96 min. Distribuidora: Imagem Filmes Estúdio: Gravier Productions  

Cotação 3 estrelas e meia

 

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