Jogos vorazes: A esperança – O final (2015)

Por André Dick

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Os que reclamam que um livro é dividido em filmes de duas partes costumam ser críticos à indústria de querer lucrar várias vezes com a mesma história. O diretor que mais enfrentou esse percalço nos últimos anos foi Peter Jackson, com seu bastante criticado (pelo menos em sua primeira e terceira partes imerecidamente) O hobbit. Embora Jogos vorazes tenha tido apenas seu último livro dividido em duas partes, pode-se dizer que a opção rendeu uma primeira parte muito boa. Quem a viu em Blu-ray, mesmo sem ser fã da série, é capaz de reconhecer a sua qualidade: muito bem montado (os dois primeiros eram excessivos) e se serve apenas para anunciar uma segunda parte que então a série começasse nela.
Embora não seja fã da série, apesar de reconhecer qualidades nos dois primeiros filmes, não foi sem tempo:  Jogos vorazes: A esperança – Parte 1 parecia ser o melhor dos três primeiros, e  não parecia apenas motivo para antecipar a segunda parte do último capítulo. Falavam o mesmo de Harry Potter e as relíquias da morte, cuja primeira parte ainda me parece a melhor de toda a série.

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Agora em Jogos vorazes: A esperança – O final, o mesmo diretor Francis Lawrence traz de volta a personagem de Katniss Everdeen, escolhida para enfrentar o vilão Coriolanus Snow (Donald Sutherland) e trazer a paz, sob a liderança de Alma Coin (Julianne Moore), assessorada por Plutarch Heavensbee (Philip Seymour Hoffman). Ela embarca numa missão com seus amigos Gale (Liam Hemsworth), Finnick (Sam Claflin), Cressida (Natalie Dormer), Pollux (Elden Henson) e a companhia de um instável Peeta (Josh Hutcherson) – que no episódio anterior (e isso passa a ser um spoiler para quem não viu) já havia se tornado numa espécie de ameaça para a segurança – sob a liderança de Boggs (Marhersala Ali) e a tenente Jackson (Michelle Forbes). Esse grupo parte para tentar salvar os cidadãos de Panem. A história de Jogos vorazes, baseada nos romances de Suzanne Collins, parece à primeira vista apenas uma composição de ideias que mesclam a dúvida diante de uma promessa de liberdade em um novo sistema política por meio de um grupo de jovens que idealizam um futuro diferente. No entanto, é apenas uma impressão ligeira, uma vez que Jogos vorazes é realmente uma série que, com virtudes e falhas, ainda diz algo que foge ao que poderia ser mais raso, diferente de outras séries que iniciam agora com promessa de longa duração, a exemplo de Maze Runner.

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Mais uma vez, Jennifer Lawrence entrega um grande desempenho como Katniss, assim como Julianne Moore e Philip Seymour Hoffman. Woody Harrelson é o toque divertido, e continua assim, apesar de aparecer pouco. E Donald Sutherland, como o presidente Snow, é terrível: ele sabe como lançar um vilão. O filme, além disso, tem uma qualidade acima de média de design de produção: visualmente é muito atraente. Com uma dose de ação e apelo emocional em medidas iguais, a série justifica sua existência por esses dois filmes finais, especialmente esta quarta parte, sem sobrecarregar a parte expositiva (um problema do segundo, por exemplo, talvez uma réplica do primeiro). Nada parece forçado como costumam ser os blockbusters, há um tom sombrio e assustador em algumas passagens (que cercam um hospital, no segundo, ou a segunda parte toda deste, por exemplo). Em razão de uma quase ausência de Stanley Tucci, a série passa a ter muito menos um foco no divertimento do que na tensão. Se a primeira parte parecia fazer, em alguns momentos, uma homenagem a A hora mais escura, nesta segunda são claras novamente as referências: Batman – O cavaleiro das trevas ressurge, principalmente nos cenários urbanos, quando a equipe precisa atravessar uma cidade com centenas de armadilhas, na composição das naves e nos cenários invernais, e Aliens – O resgate, de James Cameron, com sua colocação de personagens em túneis. É especialmente bem feita a composição de cenários e a fotografia de Jo Willems para que os personagens se cruzem em cenas de ação muito bem filmadas e com alta vibração sonora e interativa.

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Por meio de uma direção eficiente de Francis Lawrence, os  núcleos dramáticos funcionam devido à presença de Lawrence e até a Josh Hutcherson. Embora os personagens não sejam tão desenvolvidos – e as presenças de Haymitch Abernathy (Woody Harrelson) e Effie Trinket (Elizabeth Banks) sejam menores, além daquela, infelizmente pelo pior motivo, de Seymour Hoffman –, Jogos vorazes se sustenta como poucas séries de ação, muito por causa do roteiro bem estruturado de Peter Craig e Danny Strong. Apesar de sua indefinição inicial, quando os personagens parecem se ajustar ainda ao que aconteceu na primeira parte, quase fazendo uma recapitulação dos acontecimentos, trata-se de um roteiro bastante efetivo no momento em que encadeia sua ação. Não há exageros dramáticos nem um torneio de vozes para que cada personagem chame atenção para si, e sim tudo é disposto de maneira a ser um desenrolar efetivo.
E há o que mais instiga na série: seus conflitos políticos. Os personagens são bons ou manipuladores? Há uma real vontade de liberdade ou apenas de escolher outro modo de dominação? A líder feita por Julianne Moore é boa ou está interessada apenas em se aproveitar da imagem de Katniss? Será que todas as histórias servem apenas para ser sintetizadas, imediatamente, pelo primeiro programa de notícias a ir para o ar? A última cena do primeiro filme deste capítulo final já parecia dizer muito: no reflexo pode estar o inesperado de cada indivíduo.

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Impressiona como esta segunda parte do capítulo final de Jogos vorazes ainda flerta com passagens temporais mais do que os outros da série e do que outros filmes ditos mais complexos e profundos. Se a sua primeira parte mostra uma obscuridade capaz de remeter à Revolução Industrial, com fumaça, tempo cinza e cenários apresentados como espaços de fábricas, sua segunda parte é acometida por uma urbanidade opressiva, enquanto o palácio de Snow lembra mais o século XVIII e um casamento apresenta uma trilha sonora que remete a O portal do paraíso, assim como a sua dança. Não à toa, a personagem de Katniss, a partir de determinado momento (e já transparecia no primeiro filme), parece habitar uma arena romana, para delírio do público, e avance mais tarde para espaços bucólicos capazes de dialogar com Barry Lindon, de Kubrick, na composição de imagens antigas, contra qualquer presença de um ambiente futurista e opressivo. Em determinado momento, é preciso dar luz ao que antes era nublado e escuro, mas Lawrence não vê isso de maneira idealizada: há sempre uma espécie de ameaça e melancolia nas imagens desses personagens buscando a sua mudança pessoal. Isso torna esse desfecho da série uma realização no mínimo original e de grande impacto.

The hunger games: Mockingjay – Part 2, EUA, 2015 Diretor: Francis Lawrence Elenco: Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Liam Hemsworth, Woody Harrelson, Elizabeth Banks, Julianne Moore, Donald Sutherland, Philip Seymour Hoffman, Jeffrey Wright, Jena Malone, Sam Claflin, Stanley Tucci Roteiro: Danny Strong, Peter Craig Fotografia: Jo Willems Trilha Sonora: James Newton Howard Produção: Jon Kilik, Nina Jacobson Duração: 137 min. Distribuidora: Paris Filmes Estúdio: Color Force / Lionsgate

Cotação 4 estrelas

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