Casa Grande (2015)

Por André Dick

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O cinema brasileiro tem trabalhado com uma temática social desde sempre e parece que, nos últimos anos, ela tem se acentuado. Em O som ao redor, de Kleber Mendonça Filho, tínhamos uma história muito interessante situada num bairro de Recife, preenchida por conflitos entre moradores que alguns quiseram sintetizar como um exemplo claro de uma dita nova sociedade brasileira. Tanto O som ao redor não é sobre isso, o que seria reduzir seu escopo, como filmes que surgiram no mesmo caminho e apesar de localizados com o mesmo discurso, a exemplo também deste Casa Grande, do diretor Fellipe Barbosa. Além de ser um cineasta de uma nova geração (ele nasceu em 1980), há, em sua obra, um discurso que pode soar apenas fundamentado no social.
O diálogo mais aberto, a partir do título, é com uma determinada análise sociológica, mais especificamente com a obra Casa-Grande & Senzala, de Gilberto Freyre, no entanto Fellipe parece interessado mais em expor uma determinada situação e trazer à cena algumas discussões que hoje estão presentes na conversa de rotina à tela do cinema. Se em alguns momentos a conversa é excessivamente didática, Fellipe está mais interessado no que o panorama brasileiro repercute em seus personagens.

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O personagem principal, seu alter ego, Jean (Thales Cavalcanti), estuda no Colégio de São Bento, no Rio de Janeiro, onde se prepara para os vestibulares e, consequentemente, para a faculdade. Filho de Sônia (Suzana Pires) e Hugo (Marcello Novaes), ele mora numa mansão também com a irmã, Nathalie (Alice Melo). Nela, trabalham Rita (Clarissa Pinheiro), com quem possui uma estreita ligação, o motorista Severino (Gentil Cordeiro) e a cozinheira Noêmia (Marília Coelho). Trata-se de um universo delimitado, a partir do qual o diretor emprega uma série de questionamentos. A impressão, quando se fala em cinema brasileiro, é que em outros países também não houvesse classes sociais. Parece-me que, no Brasil, ao se retratar alguma família de classe alta, já um discurso histórico e sociológico que a define por trás, sem mesmo haver questionamento do espectador. Não parece diferente em Casa Grande. Ainda assim, Fellipe parece trabalhar mais num plano metafórico com essa questão da Casa Grande, principalmente em seu plano inicial, muito bem conduzido e que já sintetiza a narrativa, com as luzes apagando como começa a acontecer com as finanças dessa família. Essa casa também abarca, além da família propriamente dita, uma segunda camada de referência para o personagem central – principalmente nas figuras de Severino e Rita. É visível como o diretor não quer contrapor personagens num plano de conflito, e sim como eles dependem uns dos outros para existir. Isto se estabelece principalmente na maneira como Jean conversa com Severino e Rita, abrindo o leque para conversas que não têm com a mãe.

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É como se o destino da família oficial não tivesse a mesma importância sem estar associado a essa família paralela. Quando Jean conhece Luiza (Bruna Amaya) em suas primeiras peregrinações de ônibus, fica visível ainda mais o quanto este interesse do personagem se estabelece num plano de densidade emocional e não exatamente de classe social. É um evidente engano considerar que o personagem cresce apenas com os que convive fora de sua família – o que Casa Grande deixa mais claro é de que se há um crescimento ele só pode ser realizado de forma solitária, sem que haja a intromissão direta de uma discussão já previamente realizada e concluída.
O diretor, por fazer um filme, pelos comentários no lançamento, autobiográfico, não coloca também as figuras de quem seriam seus pais como vilanias personificadas, o que não interessa. O que se entende é que Sônia e Hugo, acostumados a um determinado padrão de vida, começam a ter de enfrentar uma situação inesperada, que começará a mexer diretamente na vida de seus filhos. Particularmente, o personagem de Hugo, vivido com uma grande intensidade, excepcional, por Marcello Novaes, tem a indefinição como componente a partir daí em seu comportamento, tanto no que se refere ao pagamento que envolve as aulas de francês da esposa quanto ao fato de tornar uma vaga no trânsito como última chance de obter o espaço que faltará mais adiante.  O relacionamento de Jean com ele se mostra muito interessante, na medida que se trata de um jovem que foge a algumas escolhas paternas e não sabe que, com suas opiniões já previamente formadas pelas dos outros, está construindo, de determinado modo, um novo discurso, não sociológico, mas existencial. Isso parece se esclarecer numa simples cena em que o pai pede para que o filho abra a porta e este lhe responde também com batidas nela, com um personagem não querendo ouvir o outro e fugindo a um simples conflito entre pai e filho.

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E isso é mais profundo do que aparenta ser quando se conclui que Casa Grande é apenas um retrato limitado de conflitos entre classes. Como O som ao redor, esses conflitos são apenas aparentes e filmados com uma intensidade interessante. É difícil ver, no Brasil, uma composição de filmagem como a de Fellipe, com enquadramentos capazes de compor quase uma pintura (não apenas na sequência de abertura, que remete também a uma cena de Bling Ring); vejamos, por exemplo, a cena em que o pai está desbastando uma vegetação numa escada, ao lado da piscina e o que acontece com ele pode ser interpretado também como um símbolo de sua situação. Ou as tomadas que mostram a ligação entre o bairro onde Jean mora e o Colégio de São Bento, primeiramente em linha quase reta, depois com paradas bruscas, como se levasse o personagem a ver exatamente o que acontece à sua volta.
Tudo isso é filmado com uma competência inusual e um trabalho de fotografia notável de Pedro Sotero. Todas as cenas em que há mais personagens com Jean, como os jantares em família, são revelados com uma naturalidade muito grande, e pode-se dizer que o elenco todo é de grande excelência ao demonstrar a emoção. Mesmo quando o roteiro não soluciona os diálogos da melhor forma, ainda assim percebemos que as cenas são construídas e dramaticamente interessantes. Quando surgem alguns materiais expositivos sobre a situação econômica e financeira, Casa Grande talvez perca um pouco de sua intensidade, no entanto não me parecem exatamente redutores, pois representam um certo discurso com o qual se pode concordar ou não. O roteiro, de qualquer modo, não leva o público a se certificar de que suas ideias estão sendo colocadas em prática. Se há uma questão também histórica em cena, Casa Grande não tenta solucioná-la, e esta é uma de suas maiores virtudes.

Casa Grande, BRA, 2015 Diretor: Fellipe Barbosa Elenco: Thales Cavalcanti, Marcello Novaes, Suzana Pires, Clarissa Pinheiro, Bruna Amaya, Alice Melo, Gentil Cordeiro, Marília Coelho Roteiro: Fellipe Barbosa Fotografia: Pedro Sotero Trilha Sonora: Victor Camelo e Patrick Laplan Produção: Clara Linhart, Iafa Britz Duração: 115 min. Distribuidora: Imovision Estúdio: Migdal Filmes

Cotação 4 estrelas e meia

 

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