Luz silenciosa (2007)

Por André Dick

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Os diretores mexicanos mais conhecidos atualmente possivelmente sejam Alfonso Cuarón e Alejandro González Inãrritu, por terem recebido o Oscar de melhor direção, e Guillermo del Toro, por sua influência no meio de produções ligadas à fantasia. No entanto, desde o início deste milênio, possivelmente o diretor mexicano com uma obra mais ligada ao cinema com influências de Stanley Kubrick, Tarkovsky e Béla Tarr é outro: Carlos Reygadas. Nascido em 1971, este cineasta estreou em 2002 com Japão, um filme enigmático claramente baseado em Tarkovsky e que hoje pode antecipar um diálogo com Ceylan, principalmente o de Winter sleep, ao tratar de um homem que chega a um limite e deseja modificar o rumo de sua vida, depois de se abrigar no hotel de um topo de montanha. O estilo de filmagem de Reygadas, lento e introspectivo, faz com que os personagens tenham uma ligação diretamente com o ambiente em que estão ou habitam. Essa característica ficaria clara no seu segundo longa, Batalha no céu, obra polêmica sobre o embate entre camadas sociais em seu país por meio das figuras de um motorista envolvida no sequestro de um bebê com sua esposa e da filha de um militar.

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Exibido no Festival de Cannes com uma recepção conturbada, o filme é bastante denso no modo como enfoca esses personagens, com cada sequência elaborada com um cuidado especial. Reygadas é especialista em extrair significados de cenas corriqueiras, e o modo como filma a cidade e o campo, do alto de uma montanha, ou os símbolos que cercam cada personagem amplia a percepção do espectador. Embora pareça, às vezes, bastante ousado, o cineasta não se deixa levar pelas aparências: a história mostra claramente como seu olhar está amargurado diante de uma realidade que aparenta ser incontornável, dependendo da mudança ampla, o que nem sempre pode acontecer. E, ainda assim, ele não se mostra panfletário, assim como Heli, o qual produziu, na medida em que é uma obra que deixa o entendimento a cargo de cada espectador. Trata-se de um dos grandes filmes da década passada, como justamente o terceiro de Reygadas, Luz silenciosa, também lançado no Festival de Cannes, onde recebeu o Prêmio do Júri, junto com Persépolis.
A partir deste, pode-se dizer que Reygadas, além de influenciado por Terrence Malick, sobretudo aquele de Dias de paraíso (ou Cinzas do paraíso, se utilizarmos o título usado no lançamento para cinema), também influenciou o diretor norte-americano: Luz silenciosa possui cenas que certamente caberiam em A árvore da vida e Amor pleno, sem demérito para nenhum dos dois diretores. Ao centralizar sua narrativa numa comunidade Menonita, Reygadas não faz o que Peter Weir mostra em A testemunha, que é de fato usar os símbolos dos Amish para criar um contraste com a violência contemporânea (e que Harrison Ford e Kelly McGillis traduzem tão bem por meio de seus personagens), e sim tenta transformar essa comunidade, cuja língua é o Plautdietsch, próxima do alemão, e localizada em Chihuahua, numa espécie de aparente contraposição ao mundo moderno de maneira ampla, sempre inquieto.

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Depois de acompanharmos um fabuloso nascer do sol, vemos Johan (Cornelio Wall) com sua mulher, Esther (Miriam Towes), e seus seis filhos, na fazenda onde moram, sentados na mesa, rezando – em seguida, todos saem e ele fica, em choro contido. Há certamente uma crise entre o casal. Logo adiante, quando ele conta a um amigo, Zacarias (Jacobo Klassen) um caso que está tendo com Marianne (Maria Pankratz), e sua mulher tem conhecimento, fica explicado não apenas o motivo, como a síntese dessa história. A tradição familiar, no meio bucólico, é abalada pela traição e pela possível dissolução da família. Por isso, seu encontro com a amante no alto de uma montanha e, em seguida, o foco sobre os filhos dele se banhando num rio – precursor certo de imagens de A árvore da vida – possui também o símbolo dessa mudança inesperada. Nada de extraordinário acontece, porém sabemos que existe uma mudança em curso, que Johan tenta compartilhar com o pai (Peter Wall), que promete não contar para a sua mãe (Elizabeth Fahr). As plantações do lugar, nas quais Johan e Esther trabalha,, também revelam esse dia a dia controlado e repetitivo. Segue ao calor do verão um inverno rigoroso – e o caso entre Johan e Marianne continua, desta vez numa casa rigorosamente simétrica. Tudo soa ao mesmo tempo calculado e solto; os atores são integrantes dessa comunidade e Reygadas não está exatamente interessado em suas emoções, devido à tradição. Esse olhar sobre uma determinada comunidade também diz muito do diálogo que tem Luz silenciosa com A palavra, de Dreyer, clássico de 1955, cuja fotografia em preto e branco é tão luminosa quanto a fotografia de Alexis Zabé utilizada aqui.
Reygadas, além de seu talento para compor imagens inesquecíveis, mostra, como em seu filme seguinte, Luz depois das trevas, uma inclinação para uma análise entre o religioso, o místico e o provocador. Enquanto Batalha no céu e Luz depois das trevas se sentem mais voltados ao corpo, não deixa de haver a mesma tentativa de obter uma transcendência que há em Luz silenciosa. A sequência em Johan se encontra com Marianne numa casa, além de belíssima sob o ponto de vista técnico, contempla os símbolos que representam esses seres humanos que se movem com dificuldade durante toda a narrativa: eles parecem procurar a mesma luz do amanhecer do sol ou, antes, das estrelas, mas conseguem apenas entender um ao outro num plano afastado de toda a realidade. Não por acaso, Reygadas filma as estradas do lugar como se elas levassem a esse pôr ou nascer do sol, e o que no início eram um céu completamente límpido se torna mais fechado com o rigor do inverno, para encadear novamente a luminosidade de outra estação.

Stellet Licht/Silent light, MEX/ FRA/HOL, 2007 Diretor: Carlos Reygadas Elenco: Cornelio Wall Fehr, Elisabeth Fehr, Jacobo Klassen, María Pankratz, Miriam Toews, Peter Wall Roteiro: Carlos Reygadas Fotografia: Alexis Zabé Produção: Carlos Reygadas, Jaime Romandía Duração: 127 min.

Cotação 5 estrelas

Chamada.Filmes dos anos 2000

 

 

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