Síndromes e um século (2006)

Por André Dick

Síndromes e um século

O diretor de origem tailandesa Apichatpong Weerasethakul, que permitiu ao público que o chamasse de “Joe”, tornou-se uma referência cinematográfica a partir do início da década de 2000, com Objeto misterioso ao meio-dia, uma mescla entre documentário e ficção. A ele seguiram-se Eternamente sua e Mal dos trópicos, filmes extremamente voltados a uma tentativa de renovar a linguagem, entregando narrativas compassadas e lentas. Não apenas Eternamente sua possui uma história enigmática, como Mal dos trópicos é dividido em duas partes. São filmes considerados primorosos – e despertaram um culto de certo público e crítica. No entanto, apesar de suas qualidades, ambos são evidentemente difíceis, não apenas pela tentativa de renovação de linguagem (o que não significa qualidade) como também pelo elenco estranhamente amador. Essas são características que Weerasethakul, de certo modo, exibe em Síndromes e um século, cuja estreia se deu no Festival de Veneza, no entanto com um grande atrativo a mais: desta vez, ele consegue utilizar a simetria de imagens como recompensa para não um mero estranhamento e sim uma viagem por ambientes reconhecíveis e notavelmente perturbadores.

Síndromes e um século 9

Síndromes e um século 10

Síndromes e um século 3

Se em Eternamente sua tudo se iniciava em uma consulta médica, aqui acontece o mesmo, com Dra. Toey (Nantarat Sawadikkul) entrevistando militares para trabalhar numa ala hospitalar, a começar por Dr. Nohng (Jaruchai Iamaram). A doutora, ao mesmo tempo, tem flashbacks de um caso que teve com um especialista em orquídeas, Noom (Sophon Pukanok). Ela também recebe proposta de casamento e recomenda que um monge não coma muito frango para que não acumule líquido. Em suma, são diálogos semelhantes aos que vemos no início de Eternamente sua. Temos ainda o dentista Ple (Arkanae Cherkam), que trabalha nas horas vagas como cantor e tem amizade com o monge (Sakda Kaewbuadee), um de seus pacientes, para o qual canta algumas canções.
Essa primeira parte, passada no interior da Tailândia, cujo início abre espaço para um campo esverdeado com a sensação de infinito, é uma contraposição à segunda parte, que se parte em Bangcock, e na qual temos o Dr. Nohng com uma noiva. Enquanto na primeira parte o hospital é cercado por vegetação, principalmente palmeiras, e não parece haver grande separação entre os humanos e esse cenário natural, na segunda o hospital lembra mais os corredores da nave Discovery, de 2001, com um branco asséptico.

Síndromes e um século 11

Síndromes e um século 2

Síndromes e um século 14

Do lado de fora, estátuas de Buda contrastam com os pacientes que estão se tratando nesse hospital, em meio a evidentes rastros de nanotecnologias, com próteses para doentes. O diretor Weerasethakul é filho de médicos e essa experiência se mostra em todos os seus filmes, mas principalmente neste e no seu filme seguinte, Tio Boonmee, que pode recordar de suas vidas passadas, vencedor no Festival de Cannes de 2010. É um artista no conceito mais exato da palavra e isso por um lado o torna especial e, por outro, por suas obsessões, um pouco limitador: não por acaso, Weerasethakul parece filmar às vezes as mesmas sequências, ou mostrar a amplitude de uma volta no bairro que pertence apenas a grandes cineastas e compreendem o melhor momento, por exemplo, de Eternamente sua.
Em contrapartida, é um cinema altamente intelectual e aberto aos sentidos do espectador que não consegue, em parte, compreender os personagens de modo que se possa expandi-los: nos filmes de Weerasethakul, os personagens estão sempre à solta, ofuscados por uma inebriante luz solar realista que os tornam sempre parte da paisagem, que não tem falas. De qualquer modo, este ainda é um filme especial, mesmo com suas falhas e obsessões de criar paralelismos dentro de sua obra, em razão, principalmente, da maneira como essas imagens apresentadas por Weerasethakul são hipnóticas, graças ao trabalho de fotografia de Sayombhu Mukdeeprom.
É revelador como o tema da medicina se mostra complexo pela abordagem e pelas imagens selecionadas: há um vínculo entre o que se considera parte do passado (o uso de uma medicina caseira, de um chá medicinal) e mais tecnológica e profissional (em corredores sem nenhuma abertura para o sol e para o vento das palmeiras). Há uma ênfase entre a distância do verde do campo e os edifícios da cidade grande, entre crianças brincando num parque e centenas de pessoas fazendo ginástica numa praça aberta. Nisso, o relacionamento entre as pessoas se mostra tanto distante quanto próximo, em busca de uma razão de ser.

Síndromes e um século 7

Síndromes e um século 5

Síndromes e um século 4

Este é um dos filmes, também pelo paralelismo que adota em sua divisão, que melhor trabalha analogias dentro de um discurso cinematográfico, e isso se esclarece tanto pelo eclipse solar em determinado momento, contrapondo-se a uma espécie de tubo pendurado no teto, para o qual a câmera se dirige como se ele fosse um eclipse de um ambiente interno, quanto pelas magníficas sequências em que os pacientes esperam atendimento no hospital, primeiro num espaço natural e íntimo, e outro num ambiente mais opressivo, em razão da tecnologia avançada, deixando pouco espaço para a emoção humana (e neste quesito o filme influenciou o subestimado Transcendence).
E ainda assim há humor, um humor delicado e afetivo como vemos no início de Eternamente sua. Enquanto nesse o humor vai se ausentando, em Síndromes e um século ele cresce, seja no monge que gostaria de ter sido um DJ, seja nos médicos que se entregam aos prazeres etílicos para esquecer os corredores claros e as nanotecnologias. É interessante como todo o cinema de Weerasethakul parece baseado numa claridade próxima de nossa rotina, sem abdicar de sua porção enigmática. Os personagens estão em busca de um autoconhecimento necessário, no entanto parecem não entender que fazem parte do mesmo enigma da natureza em que estão inseridos e que os move.

S̄æng ṣ̄atawǎat, Tailândia, 2006 Diretor: Apichatpong Weerasethakul Elenco: Nantarat Sawaddikul, Jaruchai Iamaram, Nu Nimsomboon, Sophon Pukanok, Jenjira Pongpas, Arkanae Cherkam, Sakda Kaewbuadee, Sin Kaewpakpin, Apirak Mitrpracha, Manasanant Porndispong, Wanna Wattanajinda, Nitipong Tintupthai, Putthithorn Kammak, Jarunee Saengtupthim Roteiro: Apichatpong Weerasethakul Fotografia: Sayombhu Mukdeeprom Trilha Sonora: Kantee Anantagant Produção: Wouter Barendrecht, Simon Field, Michael J. Werner, Keith Griffiths, Charles de Meaux, Pantham Thongsangl, Apichatpong Weerasethakul Duração: 105 min. Distribuidora: Fortissimo Films e Strand Releasing

Cotação 5 estrelas

 

Chamada.Filmes dos anos 2000

Anúncios
Post anterior
Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: