Quarteto fantástico (2015)

Por André Dick

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Se este ano a Marvel já lançou dois filmes de heróis muito interessantes, Vingadores – Era de Ultron e Homem-Formiga, talvez aquele que mais despertasse curiosidade seria a nova tentativa de trabalhar com Quarteto fantástico. Não deixa de ser uma grande dificuldade o filme ter estreado no mesmo ano de duas das melhores produções já efetuadas pela Marvel, principalmente aquela que revela o Homem-Formiga. Já havia sido feita uma adaptação com esses personagens em 2005, com Jessica Biel e Chris Evans, e em 2007 uma sequência, no entanto ambas redundaram numa grande decepção. Este novo Quarteto fantástico ainda conta com alguns nomes em ascensão, como os de Miles Teller, de Whiplash e O maravilhoso agora, Michael B. Jordan, de Fruitvale Station, acompanhados de Jamie Bell, já conhecido desde Billy Elliott, e Kate Mara.
A história se inicia com Reed Richards (Owen Judge) e Ben Grimm (Evan Hannemann) ainda crianças, quando se conhecem no colégio. Eles passam a fazer uma experiência no porão da casa de Ben, onde funciona um ferro-velho, com um teletransportador. O resultado é um estouro e as luzes da cidade se apagando. Isto, no entanto, é o ponto de surgimento de uma parceria que chegará à feira de ciências do colégio, quando os amigos, já crescidos (e interpretados por Miles Teller e Jamie Bell, respectivamente), são visitados por Franklin Storm (Reg E. Cathey), da Fundação Baxter, que cuida de jovens gênios, e sua filha adotiva Sue (Kate Mara). A eles se juntam Victor von Doom (Toby Kebbell), um técnico brilhante de computação, e Johnny Storm (Michael B. Jordan), filho de Franklin – todos agora em busca da passagem para outra dimensão.

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O experimento, segundo Dr. Allen (Tim Blake Nelson), será usado para enviar um grupo da Nasa para a dimensão paralela, a que se dá o nome de Planeta Zero – sem a presença dos jovens que a desenvolveram, o que cria um desapontamento. A partir daí, o grupo procura um meio de superar este afastamento da possibilidade de fazer a jornada – o que poderá resultar em algo que definirá suas vidas e suas formas humanas para sempre, e para quem acompanha o Quarteto Fantástico sabe que essas formas podem tanto remeter ao fogo e à terra quanto à elasticidade e à invisibilidade.
Todos os elementos de Quarteto fantástico indicariam uma narrativa apegada aos filmes de herói, e isso naturalmente acontece com a tentativa de aproximação dos personagens. Porém, e já anunciavam as declarações do diretor Josh Trank, a Fox não se interessou por sua versão original e decidiu fazer uma montagem sem sua autorização. Além disso, Trank teria tido dificuldades em finalizar o filme, ou seja, é difícil lidar com uma obra que poderia ser muito melhor e se mostra com dificuldades por claros problemas de filmagem.
O que o espectador vê parece apenas parte de um roteiro maior: as histórias algumas vezes não se estendem o necessário, prejudicando o inter-relacionamento entre os personagens, e a agilidade da montagem lembra mais a de um trailer. Ainda assim, Quarteto fantástico não é tão decepcionante quanto o foi Godzilla no ano passado ou Jurassic World este ano. Alguns efeitos de Quarteto fantástico parecem inacabados, não tendo passado suficientemente pela pós-produção, no entanto há a preservação de um design de produção por vezes notável e uma trilha sonora muito boa de Beltrami e Phillip Glass.

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E Josh Trank tem uma visão bastante inspirada em outros filmes, principalmente Super 8 (a amizade de Reed e Ben no colégio), A mosca, de David Cronenberg (a concepção da máquina que transporta os personagens), assim como Hulk (a solidão de Grimm a partir de determinado momento), O homem sem sombra, de Paul Verhoeven (quando mostra os personagens presos à cama depois de se transformarem), Fogo no céu (o desespero de Reed diante de sua condição, observado por cientistas ameaçadores), com lembranças ainda de Prometheus e O planeta dos macacos. Trata-se de um diretor com conhecimento da história dos filmes de ficção científica. Ele consegue oferecer a esses personagens um lado mais soturno, principalmente quando Grimm passa a ser explorado pelo exército em áreas de guerra. Não há diversão em ser herói a princípio, e nisso reside o principal afastamento de Quarteto fantástico do seu público-alvo. Particularmente, apesar das versões anteriores, é a primeira vez que olhei com curiosidade para a história do quarteto.
Trank sintetiza a narrativa por meio de uma escuridão em que os personagens pouco se revelam – para todos eles, ingressar na Fundação Baxter pode ter tirado a juventude que pareciam percorrer por meio de certa ingenuidade. Em termos de elenco, é interessante como Teller consegue dar uma boa caracterização a seu personagem, enquanto Mara opta pela gravidade e B. Jordan por certa desconcentração. Rejuvenescer o elenco é uma boa saída para ligar esses jovens a um ambiente de computação desenfreada e a pesquisas científicas que misturam melhorias para o planeta ou administração de um poderio militar.

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Pelo potencial de direção, roteiro e elenco em Quarteto fantástico haveria mais história a ser explorada, como a de Reed, que a partir de determinado momento precisa ver seu amigo transformado num monstro de pedras e a cobrança por tê-lo abandonado quando havia prometido salvá-lo – e há em algumas tomadas do filme de Trank um clima de pesadelo inabitual para este tipo de produção. Mas essa sequência já faz parte de um momento em que a trama é, em parte, desmantelada por uma explicação de passagem no tempo, talvez necessária para impedir novas indagações, sem impedir, ainda assim, que o espectador acompanhe a história até o final. E, ao mesmo tempo que o drama da família Storm também poderia ser melhor desenvolvido, parece que este primeiro episódio da nova franquia ainda tem espaço para um clímax que lembra outros filmes da Marvel. Quarteto fantástico parece estar muito longe de ser um grande filme, mas, dentro de suas limitações, consegue apontar um reinício para esses personagens com propriedades realmente interessantes.

Fantastic Four, EUA, 2015 Direção: Josh Trank Elenco: Miles Teller, Michael B. Jordan, Kate Mara, Jamie Bell, Toby Kebbell, Reg E. Cathey, Tim Blake Nelson, Joshua Montes, Dan Castellaneta, Owen Judge, Kylen Davis, Evan Hannemann, Chet Hanks, Mary-Pat Green, Tim Heidecker, Mary Rachel Dudley  Roteiro: Simon Kinberg, Jeremy Slater, Josh Trank Fotografia: Matthew Jensen Trilha Sonora: Marco Beltrami, Philip Glass Produção: Gregory Goodman, Hutch Parker, Matthew Vaughn, Simon Kinberg Duração: 106 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: Genre Films / Twentieth Century Fox Film Corporation

Cotação 3 estrelas

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6 Comentários

  1. luizsiqueiraneto

     /  27 de agosto de 2015

    Muita gente tem falado mal deste filme, no entanto eu não acho ele tão ruim assim. Este filme tinha um enorme potencial, é um verdadeiro exemplo de uma obra que foi destruída pelo estúdio.

    Responder
    • André Dick

       /  27 de agosto de 2015

      Prezado Luiz,

      agradeço novamente por seu comentário. Particularmente, não acho que o filme foi destruído, mas certamente foi prejudicado. É visível que editaram a obra de Trank para torná-la mais rápida. No entanto, ainda assim, teve para mim certas qualidades importantes, como trato acima.

      Obrigado pela visita e volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder
      • luizsiqueiraneto

         /  27 de agosto de 2015

        Parece que o final seria bem diferente do que foi o final. Mais da metade do filme eu acho que foi bem, gostei do estilo e do drama carregado. Disse que o estúdio teria destruído, talvez inconsequência de minha parte, baseando-me em vários sites especializados que dizem, inclusive mostram imagens, que o final seria bem mais completo, além do corte no orçamento do filme.

      • André Dick

         /  27 de agosto de 2015

        Prezado Luiz,

        Agradeço novamente por seu comentário. Foi lamentável a interferência tão decisiva do estúdio na obra de Trank. Possivelmente, consideraram, pelas filmagens, que o filme mesmo como foi planejado não renderia público. E a Fox não é a Disney no campo das franquias, em que um John Carter e um Tomorrowland podem ser salvos depois por filmes de super-heróis. O corte no orçamento, lembrado por você, esclarece isso: não quiseram investir temendo não haver retorno mesmo. Também gostei do drama dos personagens e lamentei o final apressadíssimo.

        Um abraço,
        André

  2. Paula Rocha

     /  2 de setembro de 2015

    Gostei bastante dessa nova história do Quarteto, embora também concorde com você acerca dos cortes e da pressa em contar a história. Que pena terem interferido tanto no roteiro. Como a história foi contada de forma apressada, também acho que não deu muito tempo para os outros personagens do quarteto se mostrarem, principalmente o Ben.
    Não podemos comparar aos quartetos anteriores, pois este é bem superior. O que mais me surpreendeu foi a base científica à qual a história se baseia. Dos filmes que assisti da Marvel acho que esse é o que mais explica bem o contexto histórico e científico dos experimentos.

    Responder
    • André Dick

       /  3 de setembro de 2015

      Prezada Paula,

      agradeço por seu comentário a respeito deste filme notavelmente menosprezado. Concordo com você sobre o fato de este filme trabalhar bem a parte científica, assim como o recente “Homem-Formiga”. O problema é realmente a pressa do roteiro e os cortes excessivos, próprios de uma interferência do estúdio, dando pouco espaço, como você assinala, a personagens como Ben. Uma pena que neste caso não veremos nem uma versão do diretor, devido ao atrito de Trank com a Fox. Também não há comparação com os anteriores: o primeiro, particularmente, é lamentável. Com este elenco, resta torcer para que haja uma continuação com menos problemas de filmagem.

      Obrigado novamente pela visita e volte sempre!

      Grande abraço,
      André

      Responder

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