Palo Alto (2013)

Por André Dick

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A realização de filmes baseados no universo jovem teve um decréscimo muito grande depois de John Hughes, nos anos 80, ocasionando apenas alguns títulos esparsos, embora a visualização sobre esse mundo não tenha sido interrompida em produções de Hollywood feitas apenas como passagem para mostrar confusões em festas de universidade. Não surpreende, portanto, que um filme como Palo Alto, com sua temática discreta, não tenha conseguido obter um lançamento nos cinemas brasileiros, saindo diretamente em home video.
Baseado num livro de contos do ator James Franco, que interpreta um professor de educação física, Palo Alto traz possivelmente o retrato mais sugestivo e entre o otimismo e o pessimismo da juventude depois de Paranoid park – e avaliar que se trata apenas de cenário específico, da cidade de Palo Alto, ou restringir a classes, não parece o mais adequado. Embora haja elementos de imagens que já vimos em Bling Ring e antes em As vantagens de ser invisível, Gia consegue, com a colaboração de um elenco jovem de grande qualidade, obter notas ao mesmo tempo de esperança e tristes, na medida em que a trama cresce. April (Emma Roberts), integrante do time de futebol de sua escola, gosta de Teddy (Jack Kilmer, filho de Val, que faz uma pequena participação como padastro de April), mas vive uma admiração especial pelo professor Sr. B (Franco), envolvendo-se em uma questão delicada quando aceita cuidar do filho dele como babá.

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Mergulhado numa espécie de vazio existencial, Teddy se envolve em problemas, também com a ajuda do amigo Fred (Nat Wolff), que normalmente se mostra agressivo por motivos desconhecidos e passa a sair com Emily (Zoe Levin). Basicamente, são essas histórias que sustentam a narrativa, principalmente a partir de uma festa, quando Teddy e April saem pela noite procurando desenhar gravuras em árvores e Emily tentará envolver todos com sua necessidade de afeto um tanto impensado.
Embora, como em Paranoid park, nada pareça acontecer de relevante, Gia dispõe nas entrelinhas um retrato do jovem e seu apego tanto à infância quanto ao fato de estar em um processo de análise diante dos acontecimentos. Esta estreia de Gia Coppola parece ser aquilo que a sua tia Sofia buscou, sem o mesmo êxito, a meu ver, em Bling Ring e As virgens suicidas. Isso porque Sofia está mais interessado, às vezes, em compor suas figuras como representações de algo que deseja dizer nas entrelinhas, enquanto Gia busca um caminho de conflitos iminentes. Neste caminho, destacam-se tanto April quanto Teddy, não apenas porque seus personagens obtêm algo além da superfície, mas porque Emma Roberts e Jack Kilmer se revelam intérpretes excelentes, assim como Nat Wolff (que se tornaria conhecido por A culpa é das estrelas e Cidades de papel) e Levin. Em 2013, Roberts já havia participado do risivelmente contestado Vida de adulto, um retrato bem-humorado dessa mesma juventude focada no filme de Gia, e ela consegue, em ambos os filmes, contrastar a passagem da adolescência para uma vida com compromissos mais estabelecidos.

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Por mais que pareça, não há, nessa leva recente de filmes, nenhum que lembre exatamente Palo Alto. Mesmo que haja uma influência na cenografia e na fotografia do cinema considerado indie e, consequentemente, de Sofia Coppola, uma referência, o filme de Gia navega muito mais num terreno de tristeza juvenil sem o alívio da estranheza ou do onirismo que há, por exemplo, que há em As virgens suicidas ou em Bling Ring. Também não há a exploração do universo juvenil com o intuito de apenas impactar como Harmony Korine, um estilo que dialoga com uma certa atmosfera de impacto premeditado, na tentativa de levar o espectador a um universo em que se sintará inadaptado por antecipação.
No mesmo caminho, seguem os momentos em que Teddy precisa prestar serviços comunitários, que revelam, além de tudo, esse caminho não para uma mudança, mas para a avaliação do que parece mais certo diante das advertências do universo adulto. Seu gosto pelas artes, principalmente pelo desenho, se contrapõe, de certo modo, no entanto, ao mesmo tempo, é um complemento de um universo com franca dificuldade de crescer para fora de seus perímetros. Não apenas a biblioteca representa isso, como também os quartos de April e Emily. Os personagens de Palo Alto se mostram sempre indefinidos entre seguir o vazio já programado em suas vidas ou modificar tudo num lance de simplesmente fugir ao descartável. Notório como Gia consegue, principalmente por meio dessas relações entre Teddy e April e entre Fred e Emily, definir uma passagem para o universo de afastamento, sem abrir uma condescendência capaz de apagar esses personagens em prol de alguma mensagem em tom edificante. Ao contrário do que aparenta, Palo Alto se mostra um filme muito mais complexo e talvez isso explique por que arrecadou menos de 1 milhão de dólares (o seu custo). Todos os temas que ele revela por trás da ideia de um filme sobre a adolescência são mais difíceis de lidar do que Hollywood insiste em dizer.

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Franco também se revela uma presença interessante, ainda sob o impacto de sua participação em Spring breakers, sob uma direção talentosa de Gia, que se apoia na fotografia de Autumn Durald para capturar cenários que servem de diálogo com os personagens, como os playgrounds quase vazios, assim como um sereno noturno e o amarelo das tardes e manhãs desse lugar na Califórnia. Gia desenha um ambiente de contrastes: os personagens se situam entre o dia e a noite, numa espécie de representação daquilo que atravessam, de suas próprias inseguranças. Trata-se, possivelmente, do projeto mais acertado de James Franco, ator que costuma considerar os riscos de sua carreira – em projetos como Sprink breakers ou É o fim – mais importantes do que aquelas obras nas quais pode mostrar realmente seu talento. Em certos momentos, o estilo de fotografia lembra o de Temporário 12, mas há em Palo Alto uma sensação mais definida de melancolia e ela acompanha o espectador à medida que vai descobrindo os personagens. Os Coppola têm se especializado em fazer o retrato de uma juventude (Francis em Vidas sem rumo e O selvagem da motocicleta; Sofia nos filmes mencionados; Roman em CQ) e pode-se dizer que, com virtudes e falhas, são obras referenciais para o gênero, ao qual Palo Alto, o mais melancólico de todos, se junta com bastante merecimento.

Palo Alto, EUA, 2013 Diretora: Gia Coppola Elenco: Jack Kilmer, Nat Wolff, Emma Roberts, Olivia Crocicchia, James Franco, Val Kilmer, Zoe Levin Roteiro: Gia Coppola Fotografia: Autumn Durald Trilha Sonora: Devonté Hynes, Robert Schwartzman Produção:  Vince Jolivette, Miles Levy Duração: 100 min. Distribuidora: Tribeca Film

Cotação 5 estrelas

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4 Comentários

  1. Palo Alto me lembrou Ken Park, também um filme sobre adolescência, acredito que foi lançado mais ou menos perto de paranoid park. Não gostei muito do desenrolar do filme, mas sem dúvidas Gia conseguiu passar o que a maioria dos filmes sobre adolescentes não passam. A fotografia é impecável, assim como as atuações.

    Responder
    • André Dick

       /  13 de setembro de 2015

      Prezada Bruna,

      agradeço por seu comentário e pela sua indicação de filme, pois ainda não vi Ken Park. Gosto muito de Paranoid Park e sua influência na obra de Gia contribui, me parece, para lidar com esses temas. Vejo que, apesar de você não ter gostado tanto da narrativa, também considerou a fotografia e as atuações excelentes. Talvez porque eu não esperasse muito do filme ele me surpreendeu mais do que imaginava, e achei realmente a visão dela original, apesar das semelhanças com a filmografia de Sofia, dialogando com o cinema europeu.

      Obrigado pela visita e volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder
      • Gosto muito do blog, mantenho ele no reader e sempre busco as críticas! Eu gosto de todo estilo de fotografia, todo cuidado com as tomadas, trilha sonora, atuações e temas dos filmes da Sofia Coppola e do Lars von Trier (não sei se eu estou confundindo, mas sempre penso que paranoid park é dele), mas por incrível que pareça esses dois diretores nunca conseguem me cativar tanto e causar aquele “caught my attention” que outros cineastas conseguem. Não sei bem o porquê disso. Talvez seja só birra minha. De qualquer modo eu de fato iniciei Palo Alto com expectativas muito altas, admiro o trabalho do James Franco desde o blockbuster frustrado Tristão e Isolda (sinceramente acho uma pena ele não ter “vingado”) e esperava algo a mais. Um bom filme, no entanto. Obrigada por responder!

      • André Dick

         /  17 de setembro de 2015

        Prezada Bruna,

        Agradeço por suas palavras generosas sobre o blog e por sua leitura! Em relação aos filmes de Sofia Coppola e Von Trier, eu costumo ser apreciador – embora a primeira tenha feito recentemente Bling ring e Von Trier, Os idiotas. São realizadores a meu ver bastante talentosos, mas eles parecem possuir, mais do que outros, um estilo específico que costuma ser tedioso para quem não ingressa na proposta (entendo perfeitamente que considerem Maria Antonieta e Um lugar qualquer filmes cansativos, embora eu costume achar ambos excelentes, e que Von Trier seja muitas vezes uma grande peça de marketing). Sobre James Franco, do qual você lembra o subestimado Tristão e Isolda, é um talento que muitas vezes dá a impressão, a meu ver, de escolher gêneros em que não se sai tão bem (realmente não aprecio suas tentativas mais dedicadas de humor, ao lado de Seth Rogen, com exceção de Freeks and geeks). Em Palo Alto, ele mostra sensibilidade, na atuação e na escrita. É um nome de talento.

        Obrigado novamente pela visita e volte sempre!

        Um abraço,
        André

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