Watchmen – O filme (2009)

Por André Dick

Watchmen 2

Ter sido escolhido para realizar O homem de aço trouxe a Zack Snyder a responsabilidade de renovar uma franquia que iniciou com um dos melhores filmes já feitos a partir de quadrinhos, o original de Richard Donner. Anos antes ele já havia feito este Watchmen – O filme, uma espécie de prévia para o diretor de seus projetos futuros. Considerando a versão com seu corte (215 minutos, sendo que o original tinha 162), é difícil imaginar outro épico com super-heróis. Adaptado da novela gráfica de Alan Moore e Dave Gibbons, Watchmen é um exemplo de obra que cresce com seu material de origem. Para isso, era importante contar com Snyder, um cineasta que certamente não contém o mesmo trejeito para a mistura entre ação e comicidade de Donner, não o impedindo de ser, por outro lado, um cineasta com um toque autoral delirante, principalmente nesse filme (não em O homem de aço, em parte uma decepção por não utilizar o talento demonstrado aqui). Essa característica, ainda assim, voltaria em sua peça seguinte, o menosprezado Sucker Punch, no sentido de este também mostrar os efeitos da guerra sobre personagens delimitados, embora pareça mais uma mistura de filmes de heróis com Cabaret de Bob Fosse.

Watchmen 7

Watchmen 12

Watchmen 5

Os heróis de Watchmen são Edward Morgan Blake/Comediante (Jeffrey Dean Morgan), Walter Kovacs/Rorschach (Jackie Earle Haley), Laurie Jupiter/Spectre Silk (Malin Akerman), Daniel Dreiberg/Nite Owl (Patrick Wilson), Adrian Veidt/Ozymandias (Matthew Goode) e Jon Osterman/Dr. Manhattan (Billy Crudup). Eles se encontram fora de ação desde que Richard Nixon (Robert Wisden), na Casa Branca ainda em 1985, em meio à Guerra Fria e visto como uma referência por ter conseguido vencer no Vietnã, proibiu heróis mascarados, e se reúnem novamente para investigar o assassinato de um deles, o Comediante. Isso é motivo inicialmente para Snyder empregar, mais do que em 300, um estilo bastante específico, uma espécie de mistura entre filmes de heróis e suspense noir. Os ambientes e a atmosfera histórica, de lugar sem tempo definido, são fascinantes e carregam Watchmen para um outro nível. É interessante como Snyder apresenta os personagens de maneira lenta, recorrendo a flashbacks, e não incorre num caminho afetado por maneirismos, sem excesso de jogos de câmera, por exemplo, em sequências de ação, conservando tudo na dose certa. Não chegam a ser recordações didáticas e sim com o intuito de acrescentar mais densidade a cada figura.
E o elenco é realmente excelente: Wilson é uma surpresa como Nite Owl, assim como Akerman, depois de exibir bons elementos de comediante em Antes só do que mal casado (um dos filmes mais menosprezados dos Irmãos Farrelly), apresenta uma Spectre Silke com traços de dificuldade com a mãe (Carla Gugino), integrante do grupo Minutemen, de quem herdou o título de heroína, e em sua relação com Dr. Manhattan, que teria ajudado Nixon a vencer a guerra do Vietnã. Akerman é o personagem que une todos os heróis e está, ao contrário de algumas críticas à sua atuação, excelente. Temos, ainda, Matthew Goode, numa de suas atuações mais equilibradas, como Ozymandias, que se tornou um multibilionário graças à sua inteligência, e tem uma parceria com Dr. Manhattan.

Watchmen 3

Watchmen

Watchmen 11

Watchmen é, claramente, uma crítica ao governo Nixon e de como um resultado diferente da Guerra do Vietnã não necessariamente acabaria com a Guerra Fria e a a ameaça nuclear, motivo pelo qual o governo depende do Dr. Manhattan, resultado de experimentos secretos. Os Estados Unidos mostrados pelo filme parecem viver numa permanente Segunda Guerra Mundial ou Guerra do Vietnã, sempre amedrontado. Nixon, em seu terceiro mandato, corresponde à ligação entre a década de 70 e os anos 80 de Ronald Reagan.
Do mesmo modo, a liberdade sexual dos anos 60 em Watchmen é conduzida a uma repressão não apenas das ligações afetivas como também da figura dos heróis. Escusado será entender que a sequência do zepelim parece ser a antítese dessa repressão, pairando sobre o céu de Nova York, e numa grande visualização de Snyder, assim como a passagem por Marte. Spectre Silke é o principal elo de ligação entre os heróis e esse intervalo histórico de certa repressão, pois não é dado aos heróis o espaço para imaginá-la que não livre do contexto de culpa e pecado. Por isso, ao mesmo tempo, tanto Dr. Manhattan quanto Nite Owl soam, de certo modo, deslocados e um pouco trágicos ao não conseguirem confessar seu amor. E, se Rorschach vai se escondendo por trás de luzes e sombras (dialogando tanto com The Blank, vilão mascarado de Dick Tracy, quanto com Darkman), o Comediante pode oferecer uma vida pregressa de crimes inclusive de guerra, vistos antes apenas em filmes de Oliver Stone ou Michael Cimino.
Esses caminhos, no entanto, não seriam os mesmos não fosse a qualidade com que Snyder os emprega. Isso talvez seja aquilo que mais chame a atenção nesta adaptação: apesar de ser fiel ao material original, em nenhum momento ele se coloca apenas como uma extensão direta do trabalho original, como vemos em 300, adaptação dos HQs de Frank Miller; em Watchmen o diretor de fato se coloca como um observador tanto da figura mítica do herói quanto do lugar em que ele pretende se inserir.

Watchmen 4

Watchmen 9

Watchmen 14

Ele também poderia ter realizado algo mais próximo ao estilizado, como Sin City, também adaptado dos quadrinhos de Miller, mas escolhe um tom mais próximo do cinema dos anos 40 ou 50, auxiliado pelo design de produção irretocável e a fotografia de Larry Fong (Super 8), sobretudo quando mostra a investigação de Rorschach, com relatos num diário que remetem aos narradores de filmes antigos policiais, e sua ida para a cadeia, assim como a nave de Nite Owl lembre mais um zepelim em tamanho menor noturno e o homem da banca de jornais relembre sempre as notícias diárias envolvendo os acontecimentos referentes a esses heróis. Do mesmo modo, os Tales of the Black Freighter/Contos do cargueiro negro (incluídos na versão estendida) lembram os quadrinhos dessas décadas. A impressão é que Snyder tem muito interesse em conservar essa análise à margem do filme mais do que propriamente a ação dos filmes de super-heróis, que acontecem em momentos pontuais e talvez sem a força conhecida em outras produções do gênero. Mesmo o final, sob este ponto de vista, pode ser fraco e por vezes ineficaz. No entanto, ao contrário do que realizou para O homem de aço, isso realmente parece não importar ao cineasta em Watchmen, uma referência do gênero.

Watchmen, EUA, 2009 Diretor: Zack Snyder Elenco: Patrick Wilson, Malin Akerman, Matthew Goode, Jeffrey Dean Morgan, Jackie Earle Haley, Billy Crudup, Carla Gugino, Robert Wisden Roteiro: Alex Kurtzman, Roberto Orci Fotografia: Larry Fong Trilha Sonora: Tyler Bates Produção: Deborah Snyder, Lawrence Gordon, Lloyd Levin Duração: 163 min. (versão original); 215 min. (versão estendida) Estúdio: Lawrence Gordon Productions

Cotação 4 estrelas e meia

Anúncios
Post seguinte
Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: