Divertida mente (2015)

Por André Dick

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A nova animação da Pixar Divertida mente tem uma das premissas mais originais já vistas, capaz de agradar a todas as idades. Vemos, desde o nascimento de Riley Andersen (Kaitlyn Dias), as suas emoções representadas por personagens em sua mente. Elas são a Alegria (Amy Poehler), a Tristeza (Phyllis Smith), o Medo (Bill Hader), a Raiva (Lewis Black) e o Nojinho (Mindy Kaling). Esses sentimentos são responsáveis também por suas memórias, que habitam esferas coloridas, como se fossem bolas de gude agrupadas dentro de sua mente, rolando como as de boliche. Ao chegar aos 11 anos de idade, os pais de Riley (Diane Lane e Kyle MacLachlan) se mudam com ela de Minnesota para San Francisco. Insegura e nem um pouco confortável em seu novo ambiente, Riley acaba chorando diante dos novos colegas de aula, o que afeta as emoções em sua mente, colocando em risco sua personalidade, sua maneira de agir, à medida que Tristeza e Alegria dão espaço apenas ao Medo, à Raiva e ao Nojinho, e são eles que passam a dizer como Riley deve se comportar. Esse processo é visualizado em pouco mais de 30 minutos, e neles é possível dizer que os diretores Pete Docter, também responsável por Up e Monstros S/A, além de autor da história de Wall-E e roteirista de Toy Story, e Ronaldo del Carmen mostram uma sensibilidade única, capaz de aliar a narração de A árvore da vida (quando um dos filhos de Brad Pitt e Jessica Chastain está crescendo) com a melancolia de um filme como Ponyo, de Miyazaki. Lá estão todos os sentimentos e conflitos da infância, capazes de dar alívio ou tormento ao próprio comportamento.

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A Pixar tem histórico do que se consideram desenhos inteligentes: Divertida mente entra, para a recepção, no mesmo grupo de Wall-E, Toy Story, Os incríveis, Up etc. Enquanto particularmente não sejam as obras-primas anunciadas, há, sem dúvida, um elemento melancólico nessas histórias, que adaptam um pouco de Miyazaki para o padrão de animações dos Estados Unidos. Dessas animações, especialmente Procurando Nemo e Ratatouille puxam o carro, e mesmo o quase esquecido Universidade monstos. Divertida mente se encaixa num grupo de acertos relativos da Pixar.
Isso porque o diretor não consegue aliar a vida de Riley com as emoções que habitam sua mente, fazendo com que essas ganhem um papel maior. A partir desse momento, não há o mesmo conflito de Riley com quem a cerca ou mesmo com seus pais, fazendo a história, no início ágil, andar em círculos ou, literalmente, dentro de um mesmo sonho. Quando se nota que os roteiristas utilizam a ideia apenas para empregar os mesmos movimentos vistos em animações mais superficiais, percebe-se a qualidade diminuir e as caracterizações dos personagens, apesar de originais, tornam-se frágeis. Em meio a essas caracterizações, o filme cresce e se acentua como conceito quando a Alegria e a Tristeza se deparam com em Bing Bong (Richard Kind), um amigo imaginário de infância de Riley; é ele que costura a ligação sentimental existente no início do filme com o próprio espectador. Mas, enquanto a Alegria é extremamente animadora, a Tristeza, com sua baixa autoestima, se sente incomodamente repetitiva. E nisso, enquanto a trilha de Michael Giacchino é esplêndida, as imagens de Divertida mente não são criativas quanto o tema poderia deixar subentender.

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Filmes como Divertida mente parecem trazer algo substancialmente especial, o que os torna, sem dúvida, importantes. Ainda assim, é de se questionar se o que mais tem Divertida mente não seria exatamente a caracterização de rótulos; como o filme compõe o ser humano como uma série de pensamentos mecanizados, de acordo com seus sentimentos, despertados por personagens dentro da mente, parece, a partir de determinado momento, não existir um roteiro independente do conceito, apenas um motivo para exibir uma possível inteligência artística dos roteiristas (quando se mostra o campo abstrato do cérebro, por exemplo). Se por um lado isso parece fascinante, e os diretores conseguem suscitar a emoção do espectador em diversos momentos, por outro, Divertida mente acaba ficando nos mesmos temas já abordados em outras animações, e de maneira tão previsível quanto: a presença da família e a amizade como ilhas dentro da mente e que se elas estão bem tudo está em paz. É preciso correr contra o tempo para Riley voltar ao normal – e essa ação repete a mesma linearidade de outras narrativas desgastadas.
Talvez ele esteja dizendo para o espectador como é fácil manipular cada uma de suas sensações, de alegria, tristeza e raiva. Embora isso não seja necessariamente importante nem para o público infantil nem para o adulto, ele imagina o comportamento como algo em suma previsível, ao separar os sentimentos como rótulos, como se a tristeza, por exemplo, estivesse ligada apenas a situações desgostosas e a alegria apenas a situações sem conflito, quando o ser humano é mais complexo. Não que Divertida mente não tenha outras singularidades: quando as ilhas de segurança de Riley desabam há uma estranha sensação de vazio, apresentando de maneira impactante os conflitos internos dela e dialogando diretamente com a arquitetura do planeta Krypton do Superman de 1978.

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É claro que o desenho evita essas nuances, no entanto, ao criar camadas de referências artísticas e psicológicas (quando os personagens tentam modificar um sonho de Riley ou tentam acordá-la), Divertida mente se põe como um acesso das crianças ao seu pensamento. Ele realmente acredita que a mente se movimenta por referências extremas, e isso cria uma pré-programação para cada um ser entendido em seu comportamento. O grande feito de Pete Docter é ter selecionado um grande elenco para dar voz a esses personagens. Amy Poehler, como a Alegria, é o ponto que anima o filme e o leva para frente, enquanto Bill Hader (do Saturday Night Live e de Superbad) sabe como fazer a faceta do Medo. Já Diane Lane e Kyle MacLachlan (o agente Cooper de Twin Peaks) oferecem vozes agradáveis aos pais de Riley. E Doctor consegue acertar ao transformar Alegria numa espécie de Sininho de Peter Pan, com sua cor amarela, e Tristeza num tom azul.
Ainda assim, uma ideia extraordinária – e não se tem dúvida de que o início anuncia isso –, que poderia avançar em vários anos da vida de Riley, se o roteiro não quisesse, enfim, oferecer uma lição de moral para crianças, acaba se restringindo a ser um passatempo e uma análise terapêutica de uma determinada situação desse personagem quando poderia abarcar sensações diversas. No final, a impressão é que o diretor está diante de um painel, lidando com os sentimentos também do espectador. Quando se percebe a manipulação, talvez Divertida mente, mesmo tocando o espectador em alguns instantes com emoção verdadeira, não tenha tanto a dizer quanto imagina.

Inside out, EUA, 2015 Diretor: Pete Docter, Ronaldo Del Carmen Elenco: Amy Poehler, Phyllis Smith, Mindy Kaling, Lewis Black, Bill Hader, Kyle MacLachlan, Diane Lane, Richard Kind, Kaitlyn Dias Roteiro: Josh Cooley, Meg LeFauve, Pete Docter Trilha Sonora: Michael Giacchino Produção: Jonas Rivera Duração: 102 min. Distribuidora: Disney Estúdio: Pixar Animation Studios / Walt Disney Pictures

Cotação 3 estrelas

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