Um pombo pousou num galho refletindo sobre a existência (2014)

Por André Dick

Um pombo pousou.Filme 3Depois de receber o prêmio de melhor filme em Veneza, Um pombo pousou num galho refletindo sobre a existência passou a ter maior destaque. Com direção do sueco Roy Andersson, trata-se de uma das peças mais surrealistas já feitas depois dos filmes de Buñuel, uma espécie de A árvore da vida com quadros estáticos e tentando reunir características que sintetizem a existência humana. A inspiração original seria o quadro Os caçadores na neve, de Pieter Bruegel.
Pelo trailer, parecia que este complemento da trilogia iniciada com Canções do segundo andar, seguida por Eles, os vivos, era composto apenas por uma sequência de passagens estranhas; elas estão lá, mas de modo notavelmente humano. De maneira inesperada, o diretor coloca o espectador já diretamente dentro de um museu, observando um casal diante de animais empalhados. É esta espécie de configuração que irá permear toda a narrativa, que prossegue com três retratos da morte. Tudo é feito de maneira pausada, teatral, como nos dois primeiros filmes, com uma fotografia capaz de capturar o cenário como se fosse um quadro realmente, no qual se movem os seres humanos, mas sem muita vitalidade. Ele dialoga em alguns pontos com o extraordinário Amour fou, no qual a diretor Jessica Hausner retrata a tentativa de um poeta encontrar uma mulher interessada em seguir por um caminho extremo em nome do amor. A diferença é que Andersson realmente não está interessado em algum discurso, como ainda acontece na peça intermediária da trilogia, Eles, os vivos, e sim apenas nos gestos dos personagens enfocados.

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Filmes conceituais podem ser rigorosamente insuportáveis quando apenas parecem encaminhar uma sucessão de imagens pretensamente reflexivas; o caso de Um pássaro pousou… parece estar mais ligado a uma nova visão sobre pequenas ações que nos cercam e não possuem a devida importância (embora não deixará de ser insuportável para muitos espectadores que não ingressarem na proposta). E extremamente corrosivo ao apresentar a recepção da morte: numa das cenas, um homem cai ao chão depois de servir seu almoço e pesar a bandeja. As pessoas o olham a distância, e a moça do caixa pergunta se alguém quer o prato com a refeição pois já está paga. Estamos num cenário, como em todo o filme, quase surrealista, e as janelas lembram cabines. O ambiente, com a mesma cor em tom bege e uma claridade por vezes de uma luz quase teatral, é tão espantosamente estranha quanto a própria situação que se coloca, assim como a música “Battle Hymm of The Republic” soar como um anexo a alguns momentos.
Dois homens, Jonathan (Holger Andersson) e Sam (Nils Westblom), tentam vender bugigangas pelas ruas de Gotemburgo, inclusive dentes de vampiro. Eles querem oferecer diversão para as pessoas e discutem sobre os rumos das vendas. Enquanto isso, vemos imagens de uma professora de dança (Lotti Törnros) tentando conquistar um aluno (Oscar Salmomonsson), de um casal na praia acompanhado de um cão, de uma moça com um carrinho de bebê, de um homem que não para de vir à frente de um restaurante, a fim de observar as pessoas que estão dentro, independente da hora do dia. De repente, surge uma cavalaria com o rei Carlos XII ((Viktor Gyllenberg), a caminho da Rússia, adentrando num bar do qual as mulheres precisam sair para a entrada do homem em seu cavalo imponente. Seu interesse passa a ser não chegar ao campo de batalha, mas demonstrar interesse por uma pessoa que está no bar. Tudo isso pode ser patético, enfocando temas como a solidão, a tentativa de dominar o outro, de conquistar o afeto, e homens vão e voltam da guerra sem necessariamente transformar o mundo, ou mostrar seu poder, mas em sua estrutura Andersson conta parte da história de cada um de nós, ou seja, tudo parece disperso e, ao mesmo tempo, é coeso.

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Não por acaso,o diretor filma algumas imagens como se estivéssemos vendo o mesmo museu apresentado no início da narrativa – repare-se todos os cenários ao fundo, como se fizessem parte de uma grande maquete na qual os humanos apenas são bonecos colocados em posições estratégicas. A fotografia extraordinária de Gergely Pálos e István Borbás, de qualquer modo, acaba acrescentando um tom de comédia à situação – um humor patético – e o espectador vê os personagens como se estivessem se movimentando dentro de uma pintura, principalmente pela utilização de pontos referenciais no enquadramento (as mesas, cadeiras, portas, o chão, e o que aparece ao fundo de tudo e quase não pode ser notado). E, ao contrário de Eles, os vivos, Um pombo pousou… possui muito mais uma atmosfera concretamente de filme – no outro, Andersson dá a impressão de jogar com sua experiência em publicidade para tentar tornar pop a arthouse: neste, sentimos realmente a narrativa com densidade, com o que aparenta ser um fio quase transparente. A impressão de que sejam iguais não apenas visualmente pode conferir, no entanto me parece que o filme mais recente é muito melhor resolvido. Esta não é uma simples obra de scketches, e sim um panorama existencial.
A partir de determinados pontos, também não chegaria a julgar o roteiro de Andersson uma metáfora das crises sociais, o que redunda não raramente nos mesmos rótulos e imprecisões, para não dizer no maniqueísmo, que não tem relação com uma obra de arte. Um pombo pousou… se sente mais como uma espécie de pedido de atenção desses personagens. Para um deles, o simples fato de alguém tirar uma pedra do sapato pode ser o acontecimento do dia. Ele pergunta: “Você viu ela tirando a pedra do sapato”? O outro, ao lado, não vê nem tem interesse como ele. O espectador se sente com vontade de sorrir, no entanto ao mesmo tempo há um clima melancólico. Estamos inseridos dentro da repetição cotidiana e de momentos que não podem ser vistos apenas na superfície: para quem concorda com a proposta, Um pombo pousou num galho refletindo sobre a existência é, literalmente, uma grande peça.

En Duva Satt på en Gren och Funderade på Tillvaron/A pigeon sat on a branch reflecting on existence, Alemanha / França / Noruega / Suécia, 2014 Diretor: Roy Andersson Elenco: Holger Andersson, Jonas Gerholm, Lotti Törnros, Nils Westblom, Ola Stensson, Oscar Salomonsson, Roger Olsen Likvern, Viktor Gyllenberg Roteiro: Roy Andersson Fotografia: Gergely Pálos, István Borbás Trilha Sonora: Gorm Sundberg, Hani Jazzar Produção: Pernilla Sandström Duração: 101 min. Distribuidora: Mares Filmes Estúdio: Roy Andersson Filmproduktion AB

Cotação 5 estrelas

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