Tomorrowland – Um lugar onde nada é impossível (2015)

Por André Dick

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Lançado durante o verão dos Estados Unidos, Tomorrowland – Um lugar onde nada é impossível se mostra mais uma tentativa de Brad Bird em dirigir filmes com humanos. Precedido por desenhos animados importantes, como O gigante de ferro, Os incríveis e Ratatouille, Bird estreou em Missão fantasma – Protocolo fantasma à frente de um elenco. Se o episódio que fez de Ethan Hunt não possui a mesma vibração da terceira parte, de J.J. Abrams, pode-se dizer que ele conseguiu acertar nas sequências de movimento incessante. Com grande divulgação da Walt Disney, aos poucos Tomorrowland foi sendo comparado a John Carter, principalmente pela bilheteria, que equivale, no momento, a pouco mais de seu orçamento e teria provocado, inclusive, o cancelamento das filmagens de um possível terceiro Tron. E, se John Carter foi injustamente menosprezado, a dúvida seria se Tomorrowland possui as mesmas características.
Como no quarto Missão: impossível, há problemas na elaboração de roteiro, que parecem, de certo modo, se repetir neste filme. A cargo de Damon Lindelof, a narrativa se concentra em viagens de tempo ou no espaço, típicas do roteirista e já mostradas em larga escala em Lost, Prometheus, Cowboys e aliens e Além da escuridão – Star Trek, sempre mesclando teorias enigmáticas. Mesmo assim, Tomorrowland se sente ainda como um respiro ao mostrar personagens em lugares diferentes, não exatamente interligados. Inicia com um homem chamado Frank Walker (George Clooney) contando para a câmera sobre uma experiência que teve em 1964 na feira New York World (onde quem vive o personagem é Thomas Robinson). Ele conhece David Nix (Hugh Laurie), para quem mostra sua criação, uma espécie de foguete para usar às costas, e Bird homenageia certamente Rocketeer nas cenas de voo, com o auxílio fundamental da belíssima fotografia de Claudio Miranda, que recebeu o Oscar por As aventuras de Pi.

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Recebendo um pino de metal das mãos de uma menina que está com Nix, Athena (Raffey Cassidy), o menino consegue avançar para um lugar chamado Tomorrowland, uma espécie de mundo futuro, paralelo ao que vivemos, com um design fabuloso. Em seguida, a narrativa, voltando ao presente, mostra uma menina, Casey Newton (Britt Robertson), que tenta ajudar o pai, Eddie (Tim McGraw), a não perder seu emprego na Nasa no Cabo Canaveral, cujo rumo se encontra indefinido. Em determinado instante, ela entra em contato com o mesmo pino entregue a Walker em 1964, e, consequentemente, com Tomorrowland. As cenas do primeiro contato de Casey com esse universo são muito bem pensadas por Bird, sobretudo quando ela se encontra no carro ao lado do pai, ou quando chega em casa e decide ver novamente o funcionamento do pino. A partir de poucos elementos, percebe-se que Bird tem uma compreensão exemplar sobre o cinema infantojuvenil feito a partir da década de 1980, com E.T. – O extraterreste, Os Goonies – o pino é como se fosse o medalhão da caveira, que atrai para um mundo em que as riquezas podem ser descobertas no porão de uma casa à beira-mar – e, sobretudo, Super 8, a revisitação de Abrams para esses anos. Seguida pela mesma menina Athena, Casey chega a uma memorabilia em Houston, onde encontra Hugo (Keegan-Michael Key) e Ursula (Kathryn Hahn), que estão interessados no objeto capaz de efetuar esse deslocamento para um universo paralelo, e Bird desta vez estabelece um diálogo com Matrix, sobretudo por meio dos homens que estão no encalço da personagem, de terno e gravata.
A dúvida, em seguida, é saber como as histórias de Walker e Casey vão se conectar, e Brad Bird aponta sempre para uma sucessão de encontros, fugas e alguma ação muito bem conduzida, como já havia ficado claro em seu Missão: impossível. Enquanto isso há tentativas de divertimento no difícil contato entre Casey e Athena, que se revela uma androide mais otimista.

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Ela representa o avesso do David Bowman, de Prometheus; seu sonho parece ser acreditar na humanidade e sonha fazer parte dela. Não é difícil imaginar por que o nome Athena remete tanto à deusa grega da guerra, da civilização e da sabedoria, quanto ao nome de uma família de foguetes da Nasa. A atuação de Raffey Cassidy concede à personagem uma insuspeita humanidade centrada principalmente que ela conserva dos seres humanos, tentando buscá-los para que Tomorrowland possa sobreviver, não apenas como um universo paralelo. Ela recebe a contrapartida de Britt Robertson na maioria das cenas, uma atriz capaz de lidar de forma intensa com as cenas de ação.
O que Bird mais trabalha é justamente com a tentativa de o ser humano dominar seu futuro sem ter controle efetivo sobre seu passado e seu presente. E o faz de maneira interessante ao justapor o que seria o objetivo do criador da Disney, o Epcot Center, com este universo fantasioso, Tomorrowland, feito por pessoas com capacidade de sonhar. Avança neste terreno a sequência em que os personagens, em determinado momento, conhecem uma sala secreta na Torre Eiffel em Paris, com os manequins de Jules Verne (escritor francês), Nikola Tesla (criador da engenharia mecânica e eletrotécnica), Gustave Eiffel (engenheiro) e Thomas Edison (que, entre outras criações, fez o cinematógrafo), que teriam sido os fundadores da Plus Ultra, um grupo de sonhadores. Neste ponto, Tomorrowland adota uma clara influência de obras como Da terra à lua, de Jules Verne, assim como dialoga com a cinematografia de Meliès (numa associação direta com A invenção de Hugo Cabret). Essa sequência desenhada por Bird através de um gráfico esplendoroso de imagens coloca Paris como fonte de parte da criação humana e do sonho com um futuro ainda distante. É uma clara homenagem de Lindelof, um especialista em fazer essas referências, e Bird a alguns dos descobridores da modernidade. Neste ponto, o filme também dialoga com O gigante de ferro, estreia de Bird, em que o robô se alça ao espaço de maneira incontornável; em Tomorrowland o foguete que irrompe da Torre Eiffel é uma versão fantasiosa espetacular da Nasa.

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Mais do que o roteiro em parte confuso, principalmente depois dos dois primeiros atos bastante trabalhados, para desencadear em um terceiro mais apressado, Tomorrowland tem as características do trabalho de escrita de Lindelof também no que se refere à caracterização dos personagens. As personagens de Walker e são desenhadas com o mínimo de características, e ainda se sustentam, enquanto Walker se mostra um homem ameaçado pelo que pode vir a ser o futuro, em razão da presença de Clooney bastante envelhecido, e Tomorrowland um registro de que seus sonhos podem ser ainda alcançados. Trata-se de um personagem bastante humano, escondido em sua casa diante de monitores de televisão com notícias ruins, e ainda mais: Tomorrowland, que visualiza o futuro, é, na verdade, a lembrança de seu passado e o que marcou sua vida. A personagem de Athena representa tudo aquilo que ele imaginava ser diferente. Por isso, a partir desses personagens distintos dos que encontramos em blockbusters, Tomorrowland se sente como um filme que mistura diversos estilos e não necessariamente é indicado para crianças, jovens ou adultos, pelo menos especificamente. Bird, junto com Lindelof, prefere a estranheza de uma narrativa que parece em movimento e, por outro lado, é apegado a uma visão tão alegre quanto melancólica das coisas que nos cercam. Daí a sua mensagem de pano de fundo se sentir como algo ao mesmo tempo possível e ilusório, pois cada indivíduo necessita de sua imaginação, como também de sua praticidade. Há uma espécie de ambiente onírico ao longo de todo o filme de Bird, e é nisso que se concentra seu maior acerto: cada um desses personagens sugere que seu futuro é um sonho a ser construído.

Tomorrowland, EUA, 2015 Diretor: Brad Bird Elenco: George Clooney, Britt Robertson, Raffey Cassidy, Hugh Laurie, Thomas Robinson, Tim McGraw, Keegan-Michael Key, Kathryn Hahn Roteiro: Damon Lindelof, Jeff Jensen Fotografia: Claudio Miranda Trilha Sonora: Michael Giacchino Produção: Brad Bird, Damon Lindelof, Jeff Jensen Duração: 129 min. Distribuidora: Disney Estúdio: A113 / Walt Disney Pictures

Cotação 3 estrelas e meia

 

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