Jauja (2014)

Por André Dick

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Nos últimos anos, tem sido raro encontrar filmes com uma atmosfera capaz de dialogar com as atuações, procurando mais características desapegadas de uma narrativa linear do que uma necessidade de estabelecer um contato estreito com o público. Muitas vezes, é preciso selecionar essas obras, que costumam passar quase escondidas pelas salas de cinema. Não necessariamente são boas, como podem provar muitas peças de arthouse que se apegam a uma proteção do cinema meramente intelectual e dificilmente conseguem dizer algo mais do que estão expondo.
Dirigido pelo argentino Lisandro Alonso, Jauja, muito em razão da fotografia de Timo Salminen, parece, mais do que cinema, uma coleção de pinturas. Lançado no Festival de Cannes em 2014, na mostra “Um certo olhar”, na qual também foi exibido Lost river, o filme fascinante de Ryan Gosling. Os enquadramentos são exatos e o trabalho de cores esplendoroso, dialogando com o El Topo de Jodorowsky, destacando cada elemento na tela, para mostrar a trajetória do capitão e engenheiro Gunnar Dinesen, da Dinamarca, pela Patagônia, em 1882, incorporado ao exército argentino na busca pela ocupação antecipada de novo espaço e perseguição aos nativos (embora o filme não se concentre nisso). Ele está atrás de sua filha desaparecida, Dinesen Ingeborg (Viilbjork Mallin Agge), de 15 anos de idade, que fugiu com um dos soldados do acampamento, Corto (Misael Saavedra).

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Depois disso, ele sai pelo pampa tentando encontrá-la – e nisso reside a história do filme. Se no clássico El Topo, Jodorowsky fazia uma contra-homenagem ao faroeste, não é diferente com Lisandro Alonso: ele mostra o verde do pampa, o céu azul e as águas do oceano como se fossem um lugar paradisíaco, no entanto desgastado pelo afastamento da filha. A princípio, só vemos calmaria, nenhuma presença ríspida de conflito. E Jauja, do título, se refere não a uma cidade real, e sim a uma espécie de paraíso mítico, uma espécie de Éden prometido para um europeu; o interesse do personagem parece estar focado na dominação desse espaço.
Também há uma impressionante qualidade no modo como Lisandro filma as imagens de dia e à noite, no acampamento, com o vento batendo nas barracas, com uma força muito grande, mas sempre atraindo o espectador e combina as cores dos uniformes com os elementos da natureza (o vermelho da calça de um soldado contrasta com as rochas cinzas; o uniforme de Dinesen e o vestido de sua filha dialogam com o azul celeste do céu). Há uma profusão de rimas visuais, numa narrativa em que o engenheiro olha o horizonte com uma luneta, enquanto um soldado tenta imaginar algo com parte do corpo submerso na água. Há certamente influência de O atalho, de Kelly Richardt, e diálogo com Slow West (apesar de serem do mesmo ano), o faroeste recente com Michael Fassbender com suas paisagens transpondo o espaço do Velho Oeste norte-americano. A obra de Lisandro foi rodada em película de 35mm na proporção 4:3, tendo seus cantos da tela arredondados, como antigamente; a impressão que temos é a de folhearmos um álbum com fotografias antigas. Como Slow West, o espectador se depara uma atmosfera não dos faroestes de Clint Eastwood, mas de Dead man, de Jim Jarmusch, uma espécie de coda do Velho Oeste.

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Ainda assim, Jauja não se sente como um filme de arthouse ou baseado apenas em sua beleza fotográfica: Lisandro Alonso consegue transformar Dinesen em uma figura notavelmente humana, no apelo e busca pelo paradeiro da filha num lugar inóspito. Sob certo ponto de vista, Jauja parece recordar uma espécie de análise do colonialismo muito em voga no plano teórico e esquecido na prática; suas paisagens e seus personagens estão adequados a esta visão, sendo quase uma versão de cinema mudo para a poesia empregada por Malick em forma de imagens em O novo mundo: aqui a descoberta de um novo continente não traz reflexões e sim uma procura quase esvaziada, e ela se mantém ao longo de toda a história, como se esses personagens estivessem deslocados no tempo e no espaço, vivendo à parte, a sós consigo mesmos. E quando precisam utilizar sua arma é como se fosse um duelo mais com sua angústia e natureza do que contra outro homem.
Não apenas Dinesen é um personagem interessante em sua busca como Viggo Mortensen, também um dos produtores e autor da trilha sonora, oferece uma atuação gratificante, revelando mais uma vez, depois dos experimentos com Cronenberg, ser um ator aberto a riscos – e mostrando sua fidelidade à Argentina, onde de fato passou sua infância. A maneira como ele se mostra ao longo da narrativa, sem nenhum traço de astro de Hollywood, oferece um plano consistente do qual Jauja parte para se transformar não apenas em cinema reflexivo, mas também capaz de colocar o espectador inserido em seu roteiro. E é ele, afinal, quem fornece a porção trágica e humana deste filme sintético, mas sujeito a inúmeras interpretações, sobretudo em razão de sua meia hora final enigmática.

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Todos os simbolismos parecem acertados, como a analogia entre os rochedos e o mar, a vegetação e o céu, lembrando, a partir de determinado momento, um pouco Walkabout, de Nicolas Roeg, desta vez com a presença do europeu na América Latina. Na parte final, o diálogo parece extensivo com Tarkovsky, no plano do cinema, e com a literatura de Borges, e novamente a fotografia de Salminen registra uma época sem tempo definido, como a própria sensação que traz o filme ao longo de sua narrativa. Capaz, como o cinema de Tarkovsky, tanto de encantar quando provocar bocejos no espectador mais desavisado, Jauja é capaz, a seu fim, de remeter a outra obra-prima, Piquenique na montanha misteriosa, de Peter Weir: nesse espaço, a natureza parece finalmente confrontar Dinesen e sua saída, distanciando-se da loucura de perder a filha, pode ser a observação das estrelas. Alonso filma essas cenas, em que Dinesen adentra uma gruta também, de maneira sensível e repleta de significados. Para o espectador, a impressão é que o personagem encontra esse lugar mítico – Jauja – quando, enfim, se encontra consigo mesmo.

Jauja, Argentina/Dinamarca/França/México,Estados Unidos/Holanda/Brasil, 2014 Diretor: Lisandro Alonso Elenco: Viggo Mortensen, Diego Roman, Ghita Nørby, Mariano Arce, Viilbjørk Malling Agger, Misael Saavedra, Adrián Fondari Roteiro: Fabian Casas, Lisandro Alonso Fotografia: Timo Salminen Trilha Sonora: Viggo Mortensen Produção: Andy Kleinman, Helle Ulsteen, Ilse Hughan, Jaime Romandía, Sylvie Pialat, Viggo Mortensen Duração: 109 min.Distribuidora: Vitrine Filmes Estúdio: Bananeira Filmes

Cotação 4 estrelas e meia

 

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1 comentário

  1. André Dick

     /  8 de agosto de 2015

    Se você está cansado de ver seu número de page views do seu blog baixo, não se desloque para outros a fim de desmerecê-los. Apenas uma dica: tente fazer melhor. Você é medíocre, mas nada está perdido. Com um pouco de leitura, talvez consiga sair dessa.

    Responder

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