Enquanto somos jovens (2015)

Por André Dick

Enquanto somos jovens

O olhar do diretor Noah Baumbach sempre esteve voltado para os conflitos marcados pela passagem da juventude para a vida adulta, ou mesmo por adultos tentando se adaptar ao seu presente, sem nunca conseguirem se desligar do passado. Embora as experiências no roteiro com Wes Anderson não tragam exatamente esses temas, em A vida marinha com Steve Zissou e O fantástico sr. Raposo, eles estão presentes em filmes que o próprio Baumbach dirigiu. Depois de uma estreia nos anos 90, com Tempo de decisão, ele dirigiu o ótimo A lula e a baleia, sobre uma família procurando elos de ligação, e em seguida Margot e o casamento, com Nicole Kidman, e certamente seu filme mais subestimado, Greenberg (que recebeu no Brasil o título lamentável O solteirão), com Ben Stiller. Depois das boas críticas com Frances Ha, estrelado por Greta Gerwig, sua namorada, que está no seu próximo filme, Mistress America, a ser lançado também este ano, Baumbach retomou sua parceria com Stiller neste Enquanto somos jovens. A princípio, é compreensível por que este filme não está recebendo a mesma atenção de Frances Ha: ele não tem a mesma estrela ingênua à frente do elenco, e a história é mais amarga, assim como Greenberg e Margot e o casamento.
Josh (Stiller) e Cornelia Svhrebnick (Naomi Watts) formam um casal em Nova York. Enquanto busca equilibrar o desejo inconsciente de ter filhos, Josh tenta completar um documentário sobre o intelectual Ira Mandelstam (Peter Yarrow) e dá aulas na universidade Dois ouvintes, Jamie (Adam Driver) e Darby Massey (Amanda Seyfried), se anunciam e Jamie, especificamente, diz ser admirador do documentário que ele realizou anteriormente, assim como do sogro dele, Leslie Breitbart (Charles Grodin). A relação conflituosa entre Josh e Cornelia se mostra ainda mais forte quando eles estabelecem uma amizade com esse casal. Jamie agrada a Josh não apenas pela juventude, como valorizar, ao mesmo tempo, Cidadão Kane e Rocky III, e se surpreende  quando o objetivo de Darby é trabalhar com o ramo de sorvetes. O que lhe agrada é o aparente descompromisso do casal.

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Há um clima bastante importado de alguns filmes de Woody Allen, não apenas pelo cenário de Nova York, como também pelos diálogos que remetem ao próprio cinema e à literatura. No entanto, onde Allen tenta tornar seus personagens mais agradáveis, não acontece o mesmo com Baumbach. Sua predileção é colocar seus personagens em conflitos às vezes por detalhes insignificantes, e busca não apenas o humor nisso, como também um misto de inveja e de sede de um indivíduo se sobrepor o outro. Em Frances Ha, era interessante como Baumbach mostrava sua protagonista sempre com graves problemas, porém sem aprofundar exatamente essa melancolia. O mesmo acontece em Enquanto somos jovens: os personagens nitidamente não estão felizes, embora queiram estar. Mais do que em Greenberg e Frances Ha, não há um simples encantamento com a possibilidade de se manter jovem: em Enquanto somos jovens, Josh e Cornelia se mostram desamparados, por não conseguirem mais agir como pessoas jovens, tentando pensar no futuro, mesmo com a ligação mantida com o casal Fletcher (Adam Horovitz) e Marina (Maria Dizzia).
Isso leva à citação de Henrik Ibsen, de The Master Builder, que abre o filme e remete à possibilidade de os jovens entrarem na vida de alguém mais velho para, sem outra palavra, bagunçá-la. Baumbach utiliza esta citação de Ibsen para realizar o que Woody Allen realizou em Crimes e pecados. Naquele filme, Allen interpretava um personagem que fazia um documentário sobre o cunhado, interpretado por Alan Alda. Aqui, em determinado ponto, quando Josh se mostra confiante em dividir seus planos e interesses com Jamie, ele passa também a querer participar do documentário imaginado pelo amigo. Isso acaba produzindo um clima de competição, enquanto Darby leva Cornelia a aulas de hip-hop. Há conflitos de geração muito interessantes expostos por Baumbach de forma até discreta, como aqueles que se relacionam com as tecnologias (uso de celulares, por exemplo) e a tentativa de soar como o outro mais jovem (quando Josh resolve usar chapéu como Jamie). Essa tentativa de se adaptar a um novo tempo parece um assunto óbvio, no entanto Baumbach tem talento ao costurá-lo de acordo com as interpretações e diferentes nuances que os personagens vão mostrando. Ele, de certo modo, expande a segunda metade de Frances Ha – a dificuldade de a personagem lidar com a solidão – num retrato de um casal chegando à meia-idade com um certo desespero existencial de não ter conseguido, de maneira completa, o que mais queria.

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Com isso, também há sequências divertidas, como a reunião, em determinado momento, dos casais e a tentativa de provarem Josh e Cornelia provarem que gostam um do outro. O tema da paternidade também dialoga com Distante nós vamos, de Sam Mendes, um filme quase esquecido de 2009, em que o casal viajava à procura de um lugar adequado para se estabelecer – enquanto a mulher está esperando um filho. Assim como lá, há uma sensação permanente de melancolia na reação desses pares, e enquanto Josh e Cornelia vão se afastando do seu casal de amigos com a mesma idade, que já tem um bebê, vai ficando mais claro o que eles realmente querem em suas vidas. Baumbach não trabalha isso distante de elementos evidentes de humor, no entanto enlaça tudo com uma sensação de despedida da juventude.
O que pode diminuir a intensidade de Enquanto somos jovens é justamente a sua tentativa de colocar Adam Driver como um ator capaz de atuar tanto quanto o personagem principal; impressiona como Driver ainda não consegue ser efetivo num papel mais extenso. Enquanto Stiller e Watts formam um casal cujos conflitos são convincentes, Seyfried se sente um pouco deslocada justamente em razão de Driver, ocupando quase todas as cenas em que eles dividem. O ex-Beastie Boys Horovitz tem uma boa interpretação, complementando bem as cenas em que divide com Stiller ou Watts, sempre levando Enquanto somos jovens para essa sensação de compromisso da vida adulta, ou tentativa de se afastar dele. Mas é Grodin que, além da excelência como ator, que faz costurar um pouco melhor a terceira parte da narrativa, um pouco inferior às demais, quando Baumbach pretende investigar a questão do que seria verdade ou não na realização de um documentário. Aqui, é possível sentir um pensamento quase conceitual do diretor; no entanto, isto é evidente no filme que o inspirou, o já referido Crimes e pecados e, mesmo um tanto deslocado da atmosfera geral da narrativa, indica a proposta de Enquanto somos jovens: a ingenuidade e o descompromisso da juventude podem esconder os mesmos dilemas da vida adulta.

While we’re young, EUA, 2015 Diretor: Noah Baumbach Elenco: Ben Stiller, Naomi Watts, Adam Driver, Amanda Seyfried, Charles Grodin, Brady Corbet, Adam Horowitz, Maria Dizzia  Roteiro: Noah Baumbach Fotografia: Sam Levy Trilha Sonora: James Murphy Produção: Eli Bush, Lila Yacoub, Noah Baumbach, Scott Rudin Duração: 97 min. Distribuidora: Mares Filmes Estúdio: Scott Rudin Productions

Cotação 3 estrelas e meia 

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