Kurt Cobain: Montage of Heck (2015)

Por André Dick

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O músico Kurt Cobain possivelmente seja o nome que mais continue despertando novas histórias no cenário musical, desde o surgimento da banda Nirvana no início dos anos 90 e mesmo mais de duas décadas depois de seu suicídio. Tudo o que cerca Cobain sempre teve os dois lados da moeda: para os admiradores, tratou-se, sem dúvida, de um dos maiores compositores; para os detratores, apenas um símbolo de que o rock enaltece demais para depois destruir o que acaba por se definir como mito. Gostando ou não do Nirvana, ela ajudou a modificar a indústria fonográfica. Quem foi adolescente no início dos anos 90 sabe da sua importância para redefinir um cenário que ficou marcado pela cena de Seattle, com outras boas bandas e que Cameron Crowe destacou em seu Vida de solteiro, dando mais espaço ao Pearl Jam, do qual sempre foi mais próximo.
Daí a importância de surgir um documentário como Kurt Cobain: Montage of Heck, realizado por Brett Morgen depois de receber a ajuda de Courtney Love, e com a produção executiva de Frances Bean, a filha de Cobain. Para os admiradores da banda, trata-se de um documentário interessante, na medida em que revela muitas imagens até então inéditas (embora as dos shows sejam quase reprises de outros DVDs da banda, associados à MTV). Ele tem uma linguagem rápida, lidando ainda com imagens dos cadernos de Cobain, que ganham movimento, como animações. Ainda assim, seu tom narrativo faz despertar uma curiosidade: até que ponto o documentarista estaria à vontade para tratar de Cobain sem a presença de sua família? A partir deste ponto, o documentário não perde em momento algum sua validade, no entanto seu impacto acaba atenuado.

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Vemos depoimentos da mãe, da irmã e do pai de Cobain. Os seus pais, em determinado momento da adolescência, se afastaram dele, fazendo com que se tornasse quase um andarilho, mudando de casa continuamente. E há depoimentos de Krist Novoselic, o baixista. Não vemos Dave Grohl, a não ser em vídeos dos anos 90, e justificou-se que ele não pôde gravar  um depoimento dentro do prazo solicitado e, quando gravou, o diretor não o incluiu. Tratar da vida de Cobain sem trazer Grohl e dando apenas breves espaços a Novoselic parece estranho, sobretudo porque, independente de seu relacionamento (e a partir de determinado momento era conflituoso, pois Cobain queria um ganho bem maior do que os outros da banda, conforme sua biografia referencial Mais pesado do que o céu, de Charles Cross), eles formaram uma das maiores bandas da história e lançaram, num espaço de três anos, quatro trabalhos primorosos: Nervermind, Incesticide (B-sides), In utero e o Unplugged MTV.
Se o documentarista trata do início da vida de Cobain de forma interessante, mas até certo ponto apressada, não deixando espaço também para que a ex-namorada de Cobain, Tracy Marander, possa detalhar o cotidiano – e ela parece a figura mais próxima daquilo que se imagina que Cobain seria, apesar de ela ressaltar a separação a partir do ponto em que ele estava crescendo e ela, ficando estagnada –, o filme parece criar uma ausência de humanidade. O diretor considera que as imagens dos cadernos de Cobain possam desvendá-lo (e ele faz as animações com enorme zelo pelo material, destacando, principalmente, suas perturbações orgânicas, tratadas em todos os materiais sobre sua vida, não exatamente ligadas ao uso de drogas) e quem poderia era justamente as pessoas mais próximas dele.
Apesar da característica solitária, Cobain não vivia num vácuo e certamente, pela sua criatividade, era também uma pessoa muito interessada em produzir conjuntamente. Também não se vê o interesse dele em ajudar bandas de amigos, ou sua clara admiração por Mudhoney, Sonic Youth, The Melvins, Pixies, The Breeders e Meat Puppets (que participariam do Acústico) e a amizade com músicos dessas bandas – para o documentarista, é como se Cobain não tivesse ligação com o mundo artístico à sua volta.

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Pelo contrário, ele foi um artista generoso e, quando fazia In utero, ele teria pedido ao produtor Steve Albini que o disco soasse de garagem como muitos trabalhos do Pixies (de quem admirava especialmente Surfer rosa). E Kim Gordon, do Sonic Youth, que recomendou Cobain para a Sub Pop poderia ter recebido um espaço. Nesse sentido, o documentário não captura exatamente o que seria Cobain: ele não era um artista que se considerava a voz de sua geração, mas sim um admirador de todos os trabalhos que o influenciaram de maneira decisiva. Os seus amigos possivelmente teriam ajudado a dar uma impressão mais ampla sobre o que ele foi.
O documentário não apenas evita mostrar seu potencial criativo também em conjunto, como quase restringe sua criatividade ao ambiente doméstico e seu relacionamento com Courtney Love, sobretudo na parte final, quando parece selecionar apenas os momentos em que ele aparenta estar sob efeito de drogas, fingindo responder a questões em entrevistas ou posando de rock star. Mas Cobain não era, e nisso sempre me pareceu seu afastamento do mainstream e a aversão que nutriria se fizesse hoje CDs ao vivo retomando também os antigos clássicos, exatamente um poseur. Nesse sentido, ele não era o que se tornaram outros músicos também talentosos de sua geração. Cobain parecia obcecado inicialmente pelo sucesso do Nirvana, o que fica claro em sua biografia (o documentário é tímido neste sentido), mas, no fim das contas, ele estava mais apegado, afinal, à sua infância em Aberdeen – pelo documentário, o momento em que foi, de certo modo, mais feliz. Por isso, em Montage of heck, quando Novoselic comenta que ele teria casado com Courtney porque gostaria de constituir um lugar, uma família, e o documentário se fixa na presença da vocalista do Hole é que o documentarista deixa claro que sua família não era o Nirvana e sim sua mulher e, em seguida, sua filha. Trata-se de algo que pode ser facilmente colocado em desconfiança, pois Cobain, como artista, tentava essa conciliação, sem, ao que tudo indica, conseguir – tanto que se tornaram públicas sua angústia com a possibilidade de perder outra família e com o universo musical em que estava inserido, o qual, antes do final de sua vida, não apreciava mais.

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Com extrema polidez, Morgen aborda a pressão da imprensa, à época, de que Courtney talvez estivesse usando drogas durante sua gravidez. E revela um telefonema ameaçador que Cobain teria dado a uma jornalista, por ela contar detalhes do casal, o que já consta em sua biografia assinada por Cross. A sensação, aqui, não é de havia apenas uma pressão sobre Kurt, ainda maior devido aos seus problemas com drogas – é muito clara essa tentativa pelas imagens do casal, algumas delas extremamente humanas, outras que trazem a incômoda sensação de rotular Cobain ou mostrar que estaria isolado de todos, apoiado apenas na família e interessado em fazer piadas com o Guns N’Roses. E há uma tentativa clara de situar o casal como uma espécie de John Lennon e Yoko Ono em protesto contra a guerra, isolado, contra o mundo exterior. Praticamente a banda se ausenta da segunda parte, como se ele tivesse parado de atuar como músico depois da explosão de Nevermind, e não realizado mais alguns trabalhos que mereciam uma concentração criativa, principalmente In utero (a MTV tem uma entrevista muito boa sobre esse disco, não colocada no filme, em que Cobain se mostra, no mínimo, diferente do modo restrito como aparece nesse documentário de Morgen). As cenas de bastidores da banda são apenas, salvo engano, as já conhecidas, assim como a de shows, inclusive no Hollywood Rock, no Brasil, em 1992. Ao fim, o que se pode dizer é que o material foi muito bem solucionado em termos de imagens e de montagem, no entanto é tendencioso, restringindo a visão da obra de Cobain e sendo mais uma homenagem ao período em que passou com sua filha e Courtney Love. Montage of heck pode apresentar o músico e a sua banda a quem não o conhece e mesmo agradar aos fãs, porém aqui não há a essência – um misto de alegria, angústia e, afinal, entretenimento – que fez o Nirvana uma das maiores bandas da história.

Kurt Cobain: Montage of Heck Diretor: Brett Morgen Elenco: Kurt Cobain, Courtney Love, Dave Grohl, Krist Novoselic, Tracy Marander, Wendy O’Connor, Kim Cobain, Donald Cobain Roteiro: Brett Morgen Duração: 132 min. Distribuidora: HBO Documentary Films

Cotação 3 estrelas

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