A espiã que sabia de menos (2015)

Por André Dick

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Poucas vezes há oportunidade de se deparar com uma comédia interessante nos últimos anos ou que não esteja restrita a um encontro de amigos filmado, com aspecto de terminado às pressas. Um gênero que teve nos anos 80 Jim Abrahams e os irmãos David e Jerry Zucker, com nomes como Apertem os cintos, o piloto assumiu, Top secret! e Corra que polícia vem aí, como um de seus grandes momentos. Nos anos 2000, há duas vertentes de humor no cinema norte-americano, e elas acabam se reunindo de certo modo em A espiã que sabia de menos: é uma sátira e, ao mesmo tempo, um estudo de um personagem com a autoestima abalada pelos acontecimentos. Se esta característica fundou praticamente a trajetória de Steve Carell no humor, não o é com muita diferença com Melissa McCarthy. Revelada sobretudo em Missão madrinha de casamento, pelo qual foi indicada ao Oscar de atriz coadjuvante, ela é uma ótima comediante, das melhores que surgiram na última década e infelizmente rotulada como humor apenas grosseiro.
Este ano Melissa já havia tido uma boa participação no sensível Um santo vizinho, ao lado de Bill Murray e Naomi Watts, destoando um pouco do humor que empregou em Missão madrinha e As bem-armadas – divertida comédia policial com Sandra Bullock, com sua sátira a Máquina mortífera. Em A espiã que sabia de menos, Melissa se reúne novamente com Paul Feig, que realizou esses dois filmes, e fez em parceria com Judd Apatow a saudosa série Freaks and geeks. Tendo como mote uma brincadeira com 007, uma espécie de Agente 86 feminino, tudo indicaria A espiã que sabia de menos como uma comédia memorável.

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A história é mero papel fino. Melissa faz Susan Cooper, que trabalha como auxiliar do agente Bradley Fine (um Jude Law tão deslocado quanto seus risos nervosos, totalmente afastado desse gênero). Em determinada missão, ele acaba sucumbindo a Rayna Boyanov (Rose Byrne) – e isso não chega a ser um spoiler, já que sabemos de antemão que ela se transformará naquela que poderá desvendar o mistério, desta vez com a ajuda da amiga Nancy B. Artingstall (Miranda Hart), depois de dividirem intrigas sobre Karen Walker (Morena Baccarin). Tudo é motivo para ela entrar em conflito com a superior, Elaine Crocker (Allisson Janney), e com um dos agentes, Rick Ford (Jason Statham), que não a aceita na missão, além de mote inicial para uma viagem por paisagens europeias, a começar pela França, onde Susan se hospedará num hotel que lembraria O fabuloso destino de Amélie Poulain não fossem os ratos. E é uma justificativa para a personagem colocar em xeque sua autoestima abalada, pois nunca de fato, apesar da formação, foi colocada em campo, permanecendo nos bastidores. Ela passa a ficar no encalço de Sergio De Luca (Bobby Cannavale), com a ajuda de Aldo (Peter Serafinowicz).
Melissa é uma atriz bastante eficiente, com um humor que se situa entre o ingênuo e o provocador, e se mostra novamente desse modo em A espiã que sabia de menos. No entanto, apesar das ótimas cenas de ação e algumas piadas engraçadas, este filme parece menos interessante do que As bem-armadas, também de Feig e com Melissa – muito em razão da ausência de Sandra Bullock, que consegue servir como escada para Melissa se destacar. É verdade que Jason Statham tem momentos tão bons quanto Melissa aqui, mas ambos são prejudicados por uma lamentavelmente caricata Rose Byrne, uma surpresa, por ser boa atriz, e um clima previsível de sátira a 007, o que já era claramente o problema de Agente 86.

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Melissa não consegue visivelmente improvisar em muitos momentos porque o roteiro está circunscrito sempre a esse clima de sátira, ao contrário de Missão madrinha de casamento, que conseguia, por meio de sua corrosão, mostrar o clima de organização de casamento, em meio a brigas e separações, com a presença de Kristen Wiig, uma atriz notável para o gênero e o roteiro também assinado por ela (não por acaso, indicado ao Oscar). E, ainda, sem espaço suficiente para improvisar em cima de um roteiro que não reconhece a importância de cada personagem, Melissa dispara, numa velocidade igual à cena em que precisa usar uma moto, uma série de palavrões, a fim de que a narrativa não pareça estagnada em determinado ponto; e esta, finalmente, é a derrocada da real comédia que se manifestava até a metade do filme, e que será recuperada apenas por causa de cenas de ação surpreendentemente bem filmadas e a parte final. E isso não acontece exatamente por causa dos coadjuvantes. Como De Luca, Bobby Cannavale não se sai bem. A parceira de Melissa, feita por Miranda Hart, também prejudica; é difícil lembrar de uma coadjuvante que não acrescenta realmente às cenas em que aparece, assim como Serafinowicz. E a muito boa atriz Janney é esquecida depois de um bom início.
Quem consegue gostar, no entanto, das atuações do elenco coadjuvante terá uma sensação de ter visto uma narrativa mais completa – para quem esperava mais, a impressão é de ter se visto uma comédia em parte diluída para um público mais amplo, com uma lamentável característica de humor caricato, quando Melissa, no início, revela o que poderia ser uma base humana. Aos poucos, quando se vê que o filme envereda pelo absurdo, cada vez maior, essa porção humana se perde, e a graça passa a se concentrar apenas em ações desgovernadas e comportamentos exagerados. No fim de tudo, ele funciona mais como ação do que como comédia.

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Como muitas obras do gênero, A espiã que sabia de menos tende a melhorar em uma revisão e se sente valorizada não apenas pela fotografia de Robert D. Yeoman, habitual colaborador de Wes Anderson, com suas locações em Paris, Roma e Budapeste, quanto pelo cuidado nas cenas em que o humor é um complemento para a ação (a sequência passada na cozinha de um restaurante, desse modo, é vital). É lamentável que a montagem não seja de William Kerr e Michael L. Sale, responsáveis pelos trabalhos de Superbad, Missão madrinha de casamento e We’re the Millers, melhores do que os montadores deste filme, que não conseguem calcular exatamente o tempo das gags. Diante de adjetivos como escalandosamente divertido, talvez A espiã que sabia de menos poderia ser mais efetivo. Melissa e Statham tentam – os coadjuvantes e o roteiro é que não acompanham.

Spy, EUA, 2015 Diretor: Paul Feig Elenco: Melissa McCarthy, Jason Statham, Jude Law, Miranda Hart, Rose Byrne, Allison Janney, 50 Cent, Peter Serafinowicz, Bobby Cannavale, Morena Baccarin Roteiro: Paul Feig Fotografia: Robert D. Yeoman Trilha Sonora: Theodore Shapiro Produção: Jenno Topping, Jessie Henderson, Paul Feig, Peter Chernin Duração: 120 min. Distribuidora: Fox Film / Twentieth Century Fox Film Corporation Estúdio: Feigco Entertainment

Cotação 3 estrelas

 

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