Jornada nas estrelas – O filme (1979)

Por André Dick

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O primeiro filme para o cinema da série Jornada nas estrelas, baseado nos personagens criados por Gene Roddenberry, despertou certa polêmica à época de seu lançamento, dez anos depois de a série de TV ser interrompida (durou de 1966 a 1969). A impressão geral, tanto para o público em geral quanto para os fãs da série, é de que faltava ação e humor à trama. Mesmo na primeira visualização, essa impressão realmente se mostra em parte correta, devido ao roteiro soar um tanto frio, do mesmo modo como surge Spock, depois de uma temporada em Vulcano. À frente da direção, estava o cineasta Robert Wise, que havia ganho Oscars de melhor filme por Amor, sublime, amor e A noviça rebelde, além de ter dirigido O dia em que a terra parou e O enigma de Andrômeda. O estúdio investiu um grande orçamento, de mais de 40 milhões de dólares, consumidos principalmente pela área de efeitos especiais. Para ela, forma convocados os nomes de Douglas Trumbull e John Dykstra; o primeiro, responsável pelos efeitos de 2001, o segundo de Guerra nas estrelas.
O filme, de certo modo, recebe uma nova oportunidade com sua visualização em HD, em sua cópia de Blu-ray. E, depois das duas parcelas da nova geração filmadas por J.J. Abrams com o apuro de um dos melhores diretores de ação do momento atual, talvez não seja o melhor caminho comparar o ritmo – a série antiga, e sobretudo o primeiro episódio para o cinema, soam próprios de seu período, sem nenhum demérito.

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Com uma etapa inicial marcada pela trilha sonora marcante de Jerry Goldsmith, Wise mostra toda a tripulação do seriado de volta, sob o comando do capitão Kirk (Shatner), que foi promovido a almirante e trabalha em San Francisco como Diretor de Operações da Frota Estelar. Em 2273, ele é convocado depois que uma força estranha composta de energia ameaça se aproximar da terra, depois de se deparar com uma esquadra klingon e detectada pela Frota Estelar estação de monitoramento, Epsilon Nine. No entanto, ele precisa confrontar o atual capitão da nave Enterprise, Willard Decker (Stephen Collins), rebaixando-o de posto. Levado à espaçonave por Scotty (James Doohan), Wise mostra a primeira visão da Enterprise como uma espécie da passagem do osso lançado ao céu para a estação espacial aguardando o ônibus de Floyd em 2001. O tempo longo de execução, por outro lado, se mostra interessante para demarcar este primeiro ingresso cinematográfico dos personagens de Roddenberry. Se as indicações ao Oscar (trilha sonora, direção de arte e efeitos especiais), são justas, parece não ser reduzir este episódio a uma antecipação do que a série ofereceria de melhor, o segundo capítulo, com A ira de Khan, e o sexto, A terra desconhecida, ambos dirigidos por Nicholas Meyer. Kirk se mostra inseguro diante da ameaça de não estar à frente do comando da Enterprise, e para isso ele se cerca dos amigos Dr. McCoy (DeForest Kelley), ou “Bones”, Uhura (Nichelle Nichols), e Sulu (George Takei), o piloto, além de Scotty.
Na ida para a ameaça que vem em direção à Terra, vem a bordo Spock (Leonard Nimoy), a fim de colaborar com a missão. Este reencontro, se não e um dos momentos mais divertidos do filme, é, sem dúvida aquele que melhor demarca a oposição entre Kirk e o vulcano. Spock não se mostra muito interessado em rever os companheiros, ainda mais por causa do curso pelo qual passou Essa linha fina de roteiro, porém, se expande quando uma das passageiras, Ilia (Perris Khambatta), é raptada por V’Ger, a força de energia, e substituída por uma réplica robótica, e regressa afirmando ser mensageira daquilo que se chama V’Ger. O que seria exatamente V’Ger? Para o espectador, fica clara a analogia com o monólito negro de 2001, de Kubrick, e onde este filme parou parece que Wise quer continuar.

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O roteiro, desse modo, passa a se mostrar mais interessado em traçar o real mistério do que seria o V’Ger, perturbando os tripulantes da Enterprise, sobretudo Spock, que diz ser ele um dos motivos para ter vindo a bordo e que poderá ajuda-lo a completar o que não conseguiu entender em Vulcano. É neste ponto que o roteiro de Alan Dean Foster e Harold Livingston se mostra mais interessante, pois este Jornada nas estrelas – O filme tenta mostrar a Spock o que de fato ele, embora não pareça, quer sensações próximas à humanidade. O mistério do que significa o V’Ger levará Spock a reavaliar sua trajetória até ali. Não apenas isso: Ilia, ligada a Decker, guarda, em sua porção já dominada pelo V’Ger, o resquício de amor que nutria anteriormente por ele. Ou seja, se ela passa a ser quase uma mensageira de um enigma que a partir de determinado momento se confunde com uma máquina, o que certamente tem influência no recente Transcendence.
É interessante como num momento em que a ficção científica Guerra nas estrelas, George Lucas, havia se tornado uma referência, com sua mescla fabulosa entre humor e ação, Wise tenha optado em fazer de Jornada nas estrelas – O filme uma resposta, no imaginário popular, ao cerebral 2001 de Kubrick. Ele consegue, de fato, empregar um conceito por meio de V’Ger bastante instigante, e a maneira como descortina esse cenário do espaço sideral é inquietante, originalíssimo. Os gráficos, tanto de V’Ger quanto da viagem de Spock vestido de astronauta, se dialogam com David Bowman depois de sair da espaçonave, em razão de HAL-9000, antecipam, muito mais, as imagens de outros filmes, como O segredo do abismo, 2010 – O ano em que faremos contato, Tron – Uma odisseia eletrônica, Superman 2Blade Runner e A árvore da vida. Não por acaso, pois Trumbull foi o responsável pelos efeitos especiais dos dois últimos, por exemplo. Ele consegue, em Jornada nas estrelas, compor uma harmonia clássica de imagens com efeitos especiais. Os planetas visualizados por Spock, próximos de uma espiral que se abre e fecha como uma planta, além de formas que lembram a origem do homem, a sua genética, compõem um gráfico fabuloso não apenas para o final dos anos 70, como para a história da ficção científica no cinema. Trata-se de um momento impressionante, não uma tentativa de copiar 2001, e sim uma viagem autêntica ao espaço sideral, em termos de ficção científica.

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Se o desenho de podução de Harold Michelson da parte interna da Enterprise parece menos futurista do que Alien, do mesmo ano, é certamente por vontade de Wise dialogar com a série de TV dos anos 60 – e, junto a seus figurinos, parece ser a parte mais datada deste filme. Ainda assim, é natural que um filme como Jornada nas estrelas também dialogue com sua época – e a introdução de Spock é um dos indícios desse caminho.
Uma das críticas feitas aos episódios de J.J. Abrams é sua necessidade de colocar seus personagens em tom de aventura e emoção, muitas vezes ignorado o mistério do espaço; isso é bastante flagrante se comparado com este filme, no qual o enigma vale muito mais do que qualquer emoção. Também é notável como Wise não consegue encontrar humor – que seria visível principalmente no quarto episódio, A volta para terra – nesses personagens: é como se ele realmente quisesse rever Kubrick. E é curioso como se veja este Jornada nas estrelas como maçante, quando, na verdade, seu ritmo é muito mais intenso do que o de 2001. Isso se deve, sobretudo, às atuações tanto de Nimoy, como Spock, quanto, principalmente, de William Shatner, talvez em seu melhor momento como o capitão Kirk, praticamente centralizando toda a comunicação entre os personagens – e Stephen Collins se torna um ator efetivo ao não concordar com as ordens de Kirk. Mas é justamente a composição visual em que esses personagens estão, com a trilha vigorosa de Jerry Goldsmith, que fazem este Jornada nas estrelas um belo prenúncio de novas viagens. Há uma ressonância distinta neste filme, capaz de ser percebida apenas com a distância dos anos – e para melhor.

Star Trek – The motion picture, EUA, 1979 Diretor: Robert Wise Elenco: William Shatner, Leonard Nimoy, George Takei, James Doohan, Walter Koenig, Nichelle Nichols, DeForest Kelley, Majel Barrett, Stephen Collins, Persis Khambatta Roteiro: Alan Dean Foster, Harold Livingston Fotografia: Richard H. Kline Trilha Sonora: Jerry Goldsmith Produção: Gene Roddenberry Duração: 132 min.Estúdio: Century Associates / Paramount Pictures

Cotação 4 estrelas

 

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