Winter sleep (2014)

Por André Dick

Winter sleep 21

Há alguns anos o cineasta turco Nuri Bilge Ceylan coleciona participações e prêmios no Festival de Cannes. Seu terceiro filme, Distante, recebeu o prêmio de melhor ator, dividido entre Muzaffer Özdemir e Emin Toprak; Climas, o prêmio Fipresci, 3 macacos o de melhor diretor, e Era uma vez na Anatólia, o Grand Prix. Com Winter sleep (de forma incomum, o título em inglês é mantido no Brasil, ou talvez Sono de inverno soasse como um conselho para quem não aprecia peças com mais de 3 horas), ele finalmente conquistou a Palma de Ouro de melhor filme. Este é, no entanto, um detalhe para quem, há alguns anos, entregou o ótimo Era uma vez na Anatólia, um exemplo raro de criador que alterna a dificuldade e a complexidade de suas narrativas.
Haluk Bilginer interpreta Aydin, um ex-ator que administra um hotel na região da Capadócia, nas montanhas rochosas da Anatólia, um de cenários prediletos de Ceylan, convivendo tanto com a irmã Necla (Demet Akbag) quanto com a esposa Nihal (Melisa Sözen). Aydin é uma espécie de personagem-síntese da trajetória de Ceylan: como em Distante era o caso do fotógrafo que recebia um primo que procura emprego em seu apartamento; ou o do professor universitário que se mantém afastado de qualquer relacionamento amoroso em Climas, ou mesmo em Era uma vez na Anatólia com detetives querendo viver uma vida cinematográfica (em um certo ponto, um deles evoca Clark Gable), os personagens centrais do cinema desse diretor turco são intelectuais que desejam se afastar da realidade e nunca conseguem, de fato, enfrentá-la.

Winter sleep 3

Winter sleep 4

Winter sleep 10

Em Winter seleep, Aydin, à frente de seu computador, com a tentativa de escrever um livro sobre o teatro turco, Aydin também tenta reiterar suas reflexões e dominar a retórica das palavras em relação a Necla e a Nihal. O fato de ele ser ex-ator esclarece naturalmente que seu comportamento é de alguém que deseja ser outro: afastado de holofotes, ele pretende ser visto como um guia cultural pelas pessoas. Se Ceylan coloca nisso uma crítica, não o é exatamente por ser um ideólogo, à medida que seu cinema prefere sempre aquilo que ele sugere contestar; nenhum dos seus personagens se movimentaria a não ser num filme com peso cultural notável. E mostra como Ceylan, além de grande autor, é certamente um dos maiores cineastas do mundo.
O registro desse personagem, desencadeado após o vidro de sua camionete, dirigida por Hidayet (Ayberk Pekcan), seu assistente, ser atingido por uma pedra lançada por um menino, Ilyas (Emirhan Doruktutan), vai se revelando aos poucos, ao situar seu domínio sobre os habitantes da região em que mora. Ilyas é filho de Ismail (Nejat Isler) que tem dívidas com Aydin, e Hamdi (Serhat Kılıç), seu irmão, tenta fazer uma aproximação do menino com o ex-ator e dono de hotel, o que confere ao filme a tentativa de fugir a um conflito iminente. Enquanto isso, Nihal tenta fazer reuniões para obter fundos para a caridade, entrando em conflito com Aydin, que gostaria de ter a sua oposição, sempre procurando uma encenação para que possa se enxergar de maneira diferente. Impressiona como Haluk Bilginer interpreta Aydin com um talento extraordinário, desenhando suas nuances não apenas pela velocidade dos diálogos de Ceylan, menos disposto neste filme aos silêncios habituais de suas peças anteriores, principalmente Distante – injustamente visto como uma tentativa de copiar Tarkovsky – e sempre com grande funcionalidade na maneira como recebemos essas conversas.

Winter sleep 6

Winter sleep 14

Winter sleep 9

É quase um diálogo aberto com o russo Leviatã, deste ano: aqui, no entanto, os poderes se confundem com a figura de um intelectual que tenta encenar todo o tempo, como em sua carreira anterior à de dono de um hotel. Sua esposa Nihal, no entanto, ou sua irmã Necla não se encontram numa contraposição: elas, de fato, utilizam seu discurso, como Aymdi, a fim de aparentar apenas não serão o que de fato são. Todas sobrevivem à sua sombra, e é justamente isso que Ceylan parece apontar quando coloca essas figuras à beira de lareiras ou de lampiões fugazes – elas se projetam mais à sombra do que na luminosidade, e em nenhum momento deixam de ser complexas.
Aqui, o discurso de cada um é sempre feito com a previsão de que tudo continue exatamente igual, como no momento em que Necla tenta convencer seu irmão de que aquilo que escreve não tem a validade imaginada por ele. Trata-se de uma longa conversa, uma das mais extensas de um filme em que os diálogos, escritos pelo diretor com sua esposa Ebru (que aparece em Distante e Climas), costuram a narrativa, repleta de traços interessantes de parte a parte, na maneira como cada um tenta dominar o outro por meio de conselhos e divagações. É nisso que se localiza boa parte da filmografia de Ceylan: como os personagens da literatura em que se baseia, de Tchekhov a Dostoiévski, nada em Winter sleep, assim como as estações, é permanente, pois se trata de determinado comportamento visto num plano universal, sem apregoar meros conflitos entre classes que só servem a um determinado discurso previsível. Ainda mais interessante é como Ceylan mostra esse ser intelectual: ele habita um lugar cavernoso, mais parecido com as habitações de uma era antiga do que com a contemporaneidade.

Winter sleep 5

Winter sleep

Winter sleep 11

Este é um personagem também dominado pela insegurança e pelas mudanças de tempo da região – quando ele quer se isolar, não consegue abandonar sua faceta de melancolia. E que se reflete nos outros, como no hóspede Timur (Mehmet Ali Nuroglu), que deseja ver o cavalo prometido pelo site de divulgação do hotel.  Dividido entre uma coluna que escreve para o jornal da cidade, Voz das estepes, e a cobrança a inquilinos, o atendimento a hóspedes e a relação com a irmã e a esposa, Aydin procura atingir a naturalidade de uma atuação.
O mais surpreendente no filme de Ceylan é que os seus núcleos dramáticos alcançam uma fluidez rara e as mais de três horas, se o espectador consegue se interessar pelos diálogos, transcorrem rapidamente. Desse modo, Winter sleep, com o auxílio ainda da fotografia de Gökhan Tiryaki, o mesmo de Climas e Era uma vez na Anatólia, é grande cinema. Ceylan tem um talento especial – e nisso talvez Distante continue sendo sua principal obra – para enquadrar as imagens como se fossem realmente pinturas, não apenas pela lentidão da sua narrativa, como pelo cuidado em expor cada um de seus personagens em cena. Por isso, embora não seja fácil o interesse perdurar por 196 minutos de Winter sleep, e tamanha dificuldade é recompensada com uma sequência de cenas com elaboração minuciosa e um elenco irretocável, este é um exemplo de épico do cotidiano, de gestos aparentemente menores e notavelmente grandioso em sua proposta.

Kis Uykusu, Turquia/França/Alemanha, 2014 Diretor: Nuri Bilge Ceylan Elenco: Haluk Bilginer, Melisa Sözen, Demet Akbag, Ayberk Pekcan, Serhat Mustafa Kiliç, Nejat Isler, Emirhan Doruktutan Roteiro: Ebru Ceylan, Nuri Bilge Ceylan Fotografia: Gökhan Tiryaki Produção: Zeynep Ozbatur Atakan Duração: 196 min. Distribuidora: Pandora Filmes Estúdio: Bredok Filmproduction / Memento Films Production / Zeynofilm

Cotação 5 estrelas

 

Anúncios
Post anterior
Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: