Cake – Uma razão para viver (2014)

Por André Dick

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Não é de hoje que o gênero dramático tem convivido com um espaço maior para as biografias de personalidades do que para personagens do cotidiano, fictícios, sem uma quantidade de ações comparáveis, pelo menos em termos de projeção, aos que se pronunciam em uma vida pública. Neste campo, o drama costuma ser confundido com expressões menos convidativas a assisti-lo: lugar-comum é uma delas. No ano passado Hollywood nos trouxe alguns bons dramas do cotidiano, e talvez o caso principal seja o de Amores inversos, com Kristen Wiig interpretando uma empregada doméstica.
Já ao final do ano, depois de ser exibido no Festival de Toronto, em busca de indicações ao Oscar, surgiu o drama Cake – Uma razão para viver, que traz um desempenho elogiado de Jennifer Aniston. Indicada ao Globo de Ouro, ela quase chegou ao Oscar, mas foi esquecida na reta final. Embora se possa dizer que o filme apresenta um roteiro simples – retratando um drama cotidiano –, ele mostra muito bem a situação de uma mãe, Claire Bennett (Aniston), que depois de perder o filho participa de um grupo de apoio coordenado por Annette (Felicity Huffman). Ele decide ir atrás de informações sobre o suicídio de Nina Collins (Anna Kendrick); ela fazia parte desse grupo e começa a surgir em visões de Claire, ocasionadas sobretudo pelo uso de medicamentos. Andando de carro sempre com o banco reclinado, em razão das dores nas costas, em casa convive com a governanta Silvana (a ótima Adriana Barraza), que a ajuda a cuidar do controle médico, e aos poucos vai se interessando por um vizinho, Roy (Sam Worthington, em desempenho crível).  Além do grupo de apoio – ao qual causa constrangimentos –, Claire também frequenta uma terapia aquática, ajudada por Bonnie (Mamie Gummer). No entanto, ela pretende se manter à distância de Jason (Chris Messina), seu marido, e principalmente de Leonard (William H. Macy).

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Cake

Embora pouco pareça acontecer, Cake – e o título se esclarece quando surge uma personagem chamada Becky (Britt Robertson)  – é muito bem feito ao mostrar este drama pessoal, sem nenhuma espécie de exagero, mas com uma boa dose de humor no relacionamento entre Claire e Silvana, além da atuação comovente de Aniston, do roteiro conciso de Patrick Torbin e da direção de Barnz. A atriz parece muito mais convincente, na passagem do humor para o drama, do que Carell em Foxcatcher, logo depois de explorar sua veia de comediante em We’re the Millers, pois é possível reconhecê-la; por outro lado, ela imprime interesse ao papel, que poderia ser apenas desagradável, como o de Charlize Theron em Jovens adultos. É claro, ao se ver Cake, que, se Aniston não é uma atriz extraordinária, ela não tem escolhido bons papéis em sua carreira de cinema, pelo menos de modo geral: há filmes em que ela consegue retratar bons personagens, como A razão do meu afeto, Por um sentido na vida (seu melhor papel ao lado deste de Cake) e mesmo em Quero ficar com Polly (um prazer culpado). Ao contrário do que diz certa crítica, há mais interesse na atuação de Aniston do que ela parecer depressiva. O roteirista Torbin poderia ter optado pelo caminho da reflexão revestida por autoajuda; o que ele acaba oferecendo em Cake é realmente a visão, pouco idealizada, de uma mulher amarga e que, para não desaparecer dentro de suas próprias lembranças, precisa recorrer ao contato com pessoas capazes de tirá-la da autodestruição.
O roteiro também se situa bem entre os extremos: embora acusado de facilitar a visão sobre alguém que teve uma perda, ele consegue captar a melancolia dessa personagem numa situação na qual se sente presa. A fotografia de Rachel Morrison capta as imagens de sol e das noites pelas quais passa Claire de maneira interessante, assim como as águas das piscinas onde a personagem se trata para dores crônicas. De ponta a ponta, o filme se sente como a personagem: com uma certa exaustão dos acontecimentos ao redor. Ele lida com pequenos objetos, lembranças dispersas dentro de uma casa, como quadros e outros detalhes, sempre levando a personagem de Claire a um espaço em que se confundem realidade e imaginação, ou delírio provocado por uso de substâncias em excesso.

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O espaço físico de sua casa se torna uma espécie de redoma que não consegue ser controlada, nem quando em visita a outras casas, e enquanto ela tenta desaparecer no fundo de uma piscina é justamente Nina que pode ressurgir diante de seus olhos justamente numa piscina (com a água, aqui, desempenhando o símbolo de depuração e reencontro da personagem em meio a uma paisagem de modo em geral bastante árida e cinza). É como se Nina passasse a ser a inconsciência de Claire, e nessa dualidade a narrativa se sustenta até o final. O espectador tende, de certo modo, a simpatizar com o filme se enxerga em Claire uma personagem visivelmente abalada – por outro lado, as atitudes dela podem não ser tão interessantes quando confrontada justamente com o comportamento das outras pessoas.
No entanto, esse caminho também não se torna incômodo à medida que possui, além da atuação de Aniston, a presença de Barraza, como a empregada. Atriz que esteve no ótimo Babel, ela se mostra muito convincente ao ficar entre a defesa e o ataque ao comportamento de Claire, principalmente numa viagem de ambas a Tijuana, no México, que lembra muito uma certa passagem de Clube de compras Dallas – e se naquele McConaughey fazia render, aqui Aniston e Barraza certamente também conseguem, de modo inesperado –, e num drive-in em Riverside. Há algumas linhas narrativas que não se desenvolvem, no entanto o filme se sente como uma peça de um momento da vida de Claire – e nisso tem êxito. Ele, de algum modo, dialoga bastante com um dos longas mais destacados do diretor Daniel Barnz, A menina no país das maravilhas, no qual trouxe a revelação Ellen Fanning como uma criança que inventava um universo à parte no colégio, dialogando com a obra de Lewis Carroll, estudada pela mãe. Se naquele filme era possível ver a solidão dessa menina, com problemas emocionais graves, aqui em Cake Aniston desenha uma mulher encontrando a segunda metade de sua vida e convivendo com a dor da perda de seu filho e o entendimento de sua própria condição por meio da figura de uma jovem que não conheceu. Trata-se de um tema delicado e difícil de ser tratado, porém Barnz consegue ser efetivo ao expor essa emoção de maneira equilibrada, sendo muito melhor e sutil do que vem sendo apontado.

Cake, EUA, 2014 Diretor: Daniel Barnz Elenco: Jennifer Aniston, Adriana Barraza, Sam Worthington, Chris Messina, Anna Kendrick, Felicity Huffman, William H. Macy Roteiro: Patrick Tobin Fotografia: Rachel Morrison Trilha Sonora: Christophe Beck Produção: Ben Barnz, Kristin Hahn, Mark Canton Duração: 98 min. Distribuidora: Califórnia Filmes Estúdio: Cinelou Films / Echo Films / We’re Not Brothers Productions

Cotação 3 estrelas e meia

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