Relatos selvagens (2014)

Por André Dick

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Este é o Creepshow (sem a caveirinha falante nem Stephen King) e o Amazing Stories da vida real. Mas se há um parentesco mais próximo do filme de Relatos selvagens não é com Short Cuts, de Altman, em que várias histórias se encontram, e sim com Um toque de pecado, do diretor chinês Jia Zhangke. Enquanto lá era uma amostra da terrível violência, na China, aqui é um retrato da sociedade contemporânea; ainda assim, se em algum ponto as histórias de Zhangke tinham um ponto em comum, no filme de Damián Szifron, que iniciou no ano passado uma carreira exitosa por festivais, desde sua exibição em Cannes, até chegar entre os finalistas ao Oscar de melhor filme estrangeiro, categoria em que havia alguns dos concorrentes mais expressivos dos últimos anos, tudo é montado de forma que se entenda os relatos sem nenhum ponto direto entre seus personagens, a não ser no seu estado de visão.
Reunindo seis histórias ao longo de suas duas horas, com uma organização quase simétrica, já começa com o conto “Pasternak”,  em que vários passageiros de um avião parecem conhecer uma figura em comum, a partir de um questionamento do crítico de música Salgado (Darío Grandinetti) em uma conversa com Isabel (María Marull). Na segunda história, “Las ratas”, a atendente (Julieta Zylberberg) de uma lanchonete de beira de estrada reconhece um homem (César Bordón) ameaçador do passado e desabafa com a cozinheira (Rita Cortese), que sugere uma saída para ela. Na terceira, “”El más fuerte”, um homem, Diego (Leonardo Sbaraglia) provoca outro, Mario (Walter Donado), na estrada, e inicia-se uma perseguição. No quarto, “Bombita”, Simón Fischer (Ricardo Darín) é um homem que trabalha ativando bombas para demolições e se vê numa situação inesperada. No quinto, “La propuesta”, o caseiro (Germán de Silva) de uma mansão é levado por seu patrão, Mauricio Pereyra Hamilton (Oscar Martínez), a assumir o crime do filho deste. E no sexto episódio, “Hasta que la muerte nos separe”, mostra-se o casamento de Romina (Érica Rivas) com Ariel (Diego Gentile).

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Com uma premissa interessante Relatos selvagens, no entanto, é consciente demais para se mostrar fantástico e redutor demais para provocar qualquer discussão além daquilo que mostra. Ele evoca uma série de filmes inacabados que o diretor Szifron, com Pedro Almodóvar na produção, colocou em forma de longa-metragem com um roteiro baseado em one-liners, impedindo qualquer personagem de ser mais do que um símbolo do que o diretor quer mostrar: sabe-se que o filme é uma representação hiperbólica da raiva humana incontida em muitos momentos, no entanto ele se contenta de certo modo em apenas apresentar as situações e rir delas; se o objetivo parece sólido, a apresentação não chega ao mesmo estágio.
Por Relatos selvagens, mais do que qualquer prazer cinematográfico, constata-se o quanto se pode confundir um produto audiovisual bem acabado com o que seria, na verdade, uma sequência real de sketches (determinadas narrativamente) ou notas de rodapé em jornal, notícias que passam despercebidas, mas às quais o diretor quer dar um movimento narrativo. Desde a primeira história, o diretor desenvolve a fórmula que resulta de um nervosismo mútuo entre as pessoas. Nenhum dos personagens apresenta sossego, ou melhor, este, se existe, só vem depois da catarse da violência. Todas as histórias se sentem ao mesmo tempo com um pé na realidade, outro no exagero e outro na mais fina caricatura, a ponto de o último episódio se ressentir de alguma costura que faça crescer a ausência de motivos das duas primeiras partes, a não ser mostrar este ímpeto visível ou implícito da violência desafogada. A emoção de suas partes e a falta de qualquer atraso na montagem só se equivalem à sua tentativa rasa de demonstrar alguma crítica real à sociedade que satiriza.
Ou seja, por mais que pareça, este filme não tem nenhum sinal das primeiras obras de Tarantino e Iñárritu (principalmente Amores brutos), em que a violência era uma espécie de combustível para que personagens fossem de fato desenvolvidos,  mesmo que vivessem de certo modo tranquilos com ela. Relatos selvagens parece mais um talk show sobre situações violentas, cujos intervalos são basicamente recursos para uma catarse. Em alguns momentos, como no encerramento do segundo episódio, existe a sensação de que o diretor perde a narrativa, mas não a piada; se ela funciona no momento, logo mais adiante pouco acrescenta para o todo. As imagens são muito finas para terem algum peso, e a atuação, apesar de excelente, sobretudo de Walter Donado no terceiro episódio, Ricardo Darín no quarto e de Oscar Martínez no quinto, atores particularmente admiráveis, se ressente de um acabamento: toda a violência, para o diretor, não passa, na verdade, de um alívio cômico, e toda interpretação aqui serve apenas como artifício, principalmente as de Cortese e de Rivas.

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Nada que tire a explicação para Relatos selvagens dialogar tanto com certo universo contemporâneo: ele mostra uma certa urgência de situações, e cada história é bem montada (embora não a ponto de adquirir algum significado quando comparada com as outras), sem provocar nenhum cansaço, como se víssemos uma fita secreta de acontecimentos constrangedores. Mas é visível o quanto o quarto episódio renderia uma grande obra, enquanto o segundo talvez não passasse de uma lembrança do terrível Identidade, o terceiro, de Encurralado, o quinto de 3 macacos e o último de O casamento de Rachel e Melancolia (com uma breve homenagem ao confeiteiro de Short Cuts).
Diante disso, este é um retrato da humanidade que procura, da maneira mais solícita, a aceitação do público, apenas levando uma camada de arthouse para se passar por um filme que não é, e decresce sensivelmente em comparação com Ida, Winter sleep e Leviatã, peças distantes de Hollywood que se destacaram no ano passado. Impressiona como diversas obras sofram, por um lado, sofrido críticas por seu roteiro simples, quando o que vemos em Relatos selvagens – visto como uma peça rara – demora a ser mais do que uma reunião de histórias realmente comuns reunidas sob uma montagem que deixa os personagens para trás porque, enfim, é savage, não havendo um roteiro desenvolvido, mas apenas pontos altos de conflitos extraídos de filmes diferentes.O que é de se lamentar: a estética absolutamente limpa e nítida de Szifron tem um olhar para o cenário muito forte, captando cada ambientação de maneira irretocável, com o auxílio da fotografia de Javier Julia, possivelmente uma qualidade incontestável do filme. Neste ponto, o cinema argentino consegue abandonar os filtros da fotografia e obter rimas visuais, com um tom de película que remete ao cinema iraniano recente, pós-Kiarostami, certamente sua maior influência, e do turco Ceylan. É certamente uma qualidade que o aproxima da fase de Almodóvar adotada sobretudo a partir de Fale com ela, abandonando um pouco a “poluição visual” dos anos 80 e 90 – e não por acaso Almodóvar está entre os produtores. Mas isso não leva o filme a se equivaler com a qualidade de peças do cinema argentino, como Las acacias, de alguns anos atrás, nem parece conduzi-lo a um status de referência.

Relatos salvajes, ARG/ESP, 2014 Diretor: Damián Szifron Elenco: Ricardo Darín, Óscar Martínez, Leonardo Sbaraglia, Érica Rivas, Rita Cortese, Julieta Zylberberg, Darío Grandinetti, María Onetto, Nancy Dupláa, Osmar Núñez, César Bordón, Diego Gentile, María Marull, Germán de Silva, Diego Velázquez, Walter Donado, Mónica Villa Roteiro: Damián Szifron Fotografia: Javier Julia Trilha Sonora: Gustavo Santaolalla Produção: Agustín Almodóvar, Esther García, Hugo Sigman, Matías Mosteirín, Pedro Almodóvar Duração: 122 min. Estúdio: El Deseo S.A. / Kramer

Cotação 2 estrelas e meia

 

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