Frank (2014)

Por André Dick

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O Festival de Sundance é uma referência para o cinema independente e, a cada ano, lança obras que acabam se destacando. Frank foi uma das revelações do festival de 2014, não apenas pelas características que apresenta, de filme independente, como pela utilização de um elenco até conhecido envolvido numa história menos previstas em produções com grande orçamento. Sua história é quase um motivo para despertar uma ligação com o movimento indie, que despertou no cinema dos Estados Unidos especialmente com Hal Hartley e Wes Anderson, nos anos 90. O diretor irlandês Lenny Abrahamson utiliza alguns elementos desses diretores, e Frank também poderia fazer uma parceria com Calvary, também do ano passado e ainda inédito, na condução de suas imagens e da textura narrativa.
Sua história traz Jon (Domhnall Gleeson, filho do grande ator Brendan Gleeson, que fez justamente Calvary), que sonha em ser compositor e se dedicar ao mundo da música. Com um início que parece dialogar com Control, a cinebiografia de Ian Curtis, do Joy Division, ele acaba substuindo o tecladista de uma banda chamada Soronprfbs, cujo produtor é Don (Scoot McNairy). O líder da banda é o excêntrico Frank (Michael Fassbender), que usa uma cabeça de boneco feita com papel machê como máscara, e tem como principal parceira Clara (Maggie Gyllenhaal), à frente de um theremin, além da baterista Nana (Carla Azar) e do guitarrista Baraque (François Civil). Feliz com a presença de Jon, Frank o convida para excursionar com a banda, mas antes, ainda, gravar um disco juntos, isolados numa cabana afastada na Irlanda.
Frank pretende que o seu disco seja experimental e se torna amigo de Jon, o qual tem receio de mostrar suas composições, entretanto acredita que a banda pode ser o motivo para seu talento finalmente vir à tona, ao contrário do que acontece com Don, já ciente de que não o possui. No entanto, o maior problema é que todos os tecladistas da banda passaram por problemas, e Jon está prestes a se tornar mais um deles, ao mesmo tempo que disponibiliza apresentações gravadas da banda na internet, o que pode provocar novos convites de excursão. No entanto, esta banda, assim como o nome hermético, está mais interessada na névoa que cerca a cabana nas manhãs de ensaio do que no burburinho dos pubs espalhados pelo mundo: tudo que soa como uma promessa de encontrar um público se torna imediatamente ameaçador.

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O que o diretor Lenny Abrahamson faz em Frank é bastante claro: baseado na vida do músico e comediante inglês chamado Chris Sievey, que inventou a persona Frank Sidebottom, ele sintetiza a história de diversas bandas experimentais, com delírios de grandeza ou de fato talentosas e com o sonho de gravar o grande disco, com a figura de um líder melancólico. Não são poucas as vezes em que Frank se mostra um indivíduo com problemas emocionais, e é justamente aí que Abrahamson focaliza sua melancolia. Com uma atuação muito boa de Michael Fassbender por trás da máscara, o líder da Soronprfbs está dividido entre os anos 70, 80 e 90, tentando soar triste como o próprio vocalista do Joy Division, mas com a violência e necessidade de quebrar guitarras e instrumentos como Kurt Cobain e a tentativa de, nisso tudo, ser alegre e tocar composições ao teclado. Nesse sentido, Frank é não apenas um filme sobre a composição de uma banda, a partir da figura de seu vocalista, como do receio de um grupo que pretende ser artístico diante do universo on-line.
A solidão dos personagens de Frank, além de sua excentricidade, é iluminada por uma fotografia irretocável do desconhecido James Mather, que mescla a figura de Jon solitário pelas ruas de sua cidade, imaginando possíveis canções a partir de situações corriqueiras (como os personagens de Mesmo se nada der certo, com Mark Ruffalo e Keira Knightley), com o possível tumulto de estar numa banda de rock. No entanto, este tumulto, no caso de Frank e dos integrantes de sua banda, é sempre interno, nos bastidores, diante do receio que ele tem não apenas de exibir seu rosto, como de mostrar às pessoas o seu trabalho musical. É sempre um contraste interessante, nesta obra de Abrahamson, ver, por um lado, a tentativa de Jon em tornar a banda reconhecida por todos, por meio de tweets e do YouTube, e a necessidade de Frank, com o apoio zeloso de Clara, em se afastar de tudo e de todos, sobretudo da realidade.

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É como se Frank capturasse as idas e vindas de uma banda de fato, mesmo que excêntrica, por meio de seu isolamento para gravar um disco, até ingressar na estrada e ter sua expectativa correspondida ou não pelo público que a aguarda. De certo modo, o personagem vivido por Fassbender tem como referência várias histórias de pop stars, e, por meio de uma história devidamente ágil e sem grandes reviravoltas, pois desnecessárias, se traduzisse como representação de um certo tipo de artista que não consegue sustentar sua figura pública quando confrontado com seu passado. Embora haja humor e um tratamento levemente descompromissado em grande parte de Frank, é interessante como ele, quando se volta para esses conflitos humanos, consegue se distinguir de outras obras que utilizam o universo musical apenas para mostrar um lado devidamente alegre.
Não apenas Fassbender consegue ser plausível, mas igualmente Maggie Gyllenhaal e, sobretudo, Domhnall Gleeson, que teve antes ótimas participações em Harry Potter e as Relíquias da Morte: Parte 2, Anna Karenina e Invencível. Ele é um ator que parece ter uma interpretação até por vezes previsível, mas em determinados momentos, quando a intensidade dramática cresce, adquire um tom incisivo, principalmente por poucos gestos ou olhares. Sua parceria com um Fassbender encoberto é a grande qualidade de Frank: como dois atores conseguem com um material que poderia ser limitador desenvolver, realmente, uma narrativa  sensível. Quando Frank precisa explicar seus sentimentos de alegria ou tristeza por trás da máscara é quando o diretor Lenny Abrahamson melhor reconhece esse personagem voltado sempre para os bastidores, nunca para o palco ou para o público que se perfila diante dele.
Frank, com esses atores e esta narrativa costurada por um deslocamento criativo, voltado para a estranheza das relações humanas por meio de um elemento comum a todos – a música –, desenha com rara desenvoltura um espelho da vida contemporânea, mesmo sem necessariamente ter este objetivo. É o que ressoa desde o seu início: há certas pessoas que conseguem fazer uma arte importante o bastante sem que algumas vezes sejam ouvidas, e isso também pode ser o ponto inicial para a autodescoberta e para a saída pessoal.

Frank, Irlanda/Reino Unido, 2014 Direção: Lenny Abrahamson Elenco: Domhnall Gleeson, Michael Fassbender, Maggie Gyllenhaal, Scoot McNairy, Carla Azar, Tess Harper, Francois Civil Roteiro: Jon Ronson, Peter Straughan Fotografia: James Mather Trilha Sonora: Stephen Rennicks Produção: Andrew Lowe, David Barron, Ed Guiney, Stevie Lee Duração: 95 min. Distribuidora: Mares Filmes Estúdio: Element Pictures / Film4 / Indieproduction / Runaway Fridge Productions

Cotação 4 estrelas

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2 Comentários

  1. Anônimo

     /  8 de julho de 2015

    Finalmente uma critica com profundidade. Estou ansioso para assistir esse filme!

    Responder
    • André Dick

       /  9 de julho de 2015

      Prezado,

      agradeço pelo comentário sobre a crítica e espero que também aprecie este filme!

      Obrigado pela visita e volte sempre.

      Um abraço,
      André

      Responder

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