Um fim de semana em Paris (2013)

Por André Dick

Um fim de semana em Paris

Há alguns diretores que conseguem se especializar num determinado nicho de produções e acabam fazendo sua trajetória de uma maneira pouco pretensiosa. Este talvez seja o caso de Roger Michell, o diretor de Um fim de semana em Paris, uma espécie de mescla entre a trilogia de Richard Linklater com Julie Delpy e Ethan Hawke com Cópia fiel, a obra de Kiarostami que não deixa de dialogar com a obra do diretor norte-americano. Michell, no final da década de 90, realizou um dos romances mais interessantes (e descompromissados), mas com sensibilidade, que renderam várias imitações, Um lugar chamado Notting Hill. Aproveitando um dos melhores momentos de Julia Roberts e Hugh Grant, ele conseguia transportar o espectador para um universo em que uma atriz de Hollywood se apaixonava por um livreiro do bairro inglês, com bom humor e situações simpáticas. Mais de uma década depois, ele proporcionou um novo filme romântico, desta vez situado nos bastidores da TV, chamado Uma manhã gloriosa, com um trio de atores em grande momento, Rachel McAdams, Harrison Ford e Diane Keaton. Se Uma manhã gloriosa não tem nenhum fã declaradamente assíduo, pode-se dizer que é muito superior a comédias do gênero, guardando algumas proximidades com Notting Hill no formato pop, no entanto sem diluir tudo num simples projeto para bancar a carreira dos integrantes do elenco.
Este seu novo filme traz basicamente dois personagens, um casal, Nick (Jim Broadbent) e Meg Burrows (Lindsay Duncan), de Birmingham. Ambos são professores e, para comemorar o 30º aniversário de casamento, eles vão passar exatamente um fim de semana em Paris. Com o objetivo de aparar as arestas e fazer seu casamento ter alguns dias novamente de tranquilidade, eles acabam encontrando um escritor famoso, Morgan (Jeff Goldblum), que foi colega de Nick em início de trajetória, durante uma caminhada. Michell reserva esse encontro não exatamente como algo ameno, e sim como algo que pode deixar o casamento ainda mais complicado, sobretudo quando Morgan convida Nick e Meg para uma festa que dará em seu apartamento.

Um fim de semana em Paris 18

Um fim de semana em Paris 11

Um fim de semana em Paris 16

O que Michell atesta em seu novo filme – que volta ao gênero que o consagrou, ao contrário do subestimado Fora do controle e do recente Um final de semana em Hyde Park, com Bill Murray – é que tem um domínio sobre a atmosfera. O hotel em que os Burrows ficam transpira Paris, no entanto também uma certa melancolia recolhida, que pode comprovar alguns passeios deslocados por lugares turísticos que não podem reparar o que ambos guardam – e isso se esclarece no hotel – e novamente a proximidade de um filho que costuma perturbá-los. Os Burrows são, até determinado ponto, figuras que remetem ao lugar-comum, no entanto é justamente o movimento que Michell lhes oferece, de humanidade, o ponto mais acertado do roteiro de Hanif Kureishi, parceiro do diretor em dois projetos anteriores, Recomeçar e Venus, e que iniciou a carreira de roteirista de cinema com duas obras bastante comentadas nos anos 80, Minha adorável lavanderia e Sammy e Rosie. Essas características diaologam com o casal da trilogia de Linklater: além disso, como Hawke e Delpy, Broadbent e Linday Duncan oferecem realmente atuações de uma sensibilidade diferenciada; se Broadbent tem feito grandes papéis (como em Cloud Atlas), Duncan apareceu recentemente como a crítica rígida de Birdman e é justamente num projeto dessa natureza, mais intimista, que suas nuances acabam se destacando. Enquanto Broadbent tem um comportamento quase sempre nervoso e deslocado, como convém a seu personagem, o receio de mostrar uma liberdade maior é a qualidade que Duncan extrai de seu personagem.
No entanto, quando eles são colocados diante da realidade – e ela pode se mostrar tanto em uma caminhada pelas ruas de Paris quanto na maneira de lidar com as realizações ou não de sua vida profissional – é que Um fim de semana em Paris atinge seu melhor momento e sua importância. São poucas as obras que mostram com essa autencidade do casal Burrows um casal passando da meia idade e entrando naquele momento da vida em que tudo pode soar definitivo se não avaliado a tempo para uma mudança ou não de direção e de comportamento. Esta avaliação diante da vida tem uma atmosfera quase teatral, o que é uma marca de seu roteirista, um dramaturgo: os diálogos afiados se reproduzem em larga escala, sem que se dê uma atenção demasiada a eles, como se esses personagens tivessem uma vida própria e acompanhássemos realmente sua ida e estadia na cidade das luzes.

Um fim de semana em Paris 19

Um fim de semana em Paris 17

Um fim de semana em Paris 21

Os problemas particulares de Nick se revelam principalmente por uma questão que o prejudicou junto a seus alunos, capaz de conduzi-lo a uma aposentadoria antes do previsto, e na dificuldade especial de se aproximar da mulher que não seja por provocações. Esse casal está no limite da convivência, embora ainda respire uma necessidade de se encantar com pequenos detalhes ou, no caso de Nick, ouvir “Like a Rolling Stone”, de Bob Dylan. Tudo é sugerido por Michell em pequenos lances de humor amargo, reunidos sob a qualidade de uma relação desgastada pelo tempo e não menos complexa.
Nesse sentido, Michell acaba colocando o personagem de Morgan, numa criação bastante destacada de Goldblumm (que já havia feito com o diretor Uma manhã gloriosa), como a figura a ser entendida e combatida pelos Burrows. Em alguns momentos, os caminhos do diretor parecem ressoar uma produção mais simples, sobretudo ao final um pouco abrupto, no entanto não deixam de conferir ao filme uma delicadeza no olhar sobre a transição da vida e os períodos que ela abrange. Talvez haja aí novamente uma influência notável do projeto de Linklater, sobretudo de Antes do pôr do sol, passado nas ruas de Paris, e em que o personagem de Hawke tenta sair de seu universo literário para se voltar de vez ao olhar de Céline (Delpy). Michell, não sem a ajuda fundamental do elenco, como Linklater, lança sobre esses personagens um olhar melancólico e esperançoso no sentido de entender que a relação só pode ser renovada por meio de uma nostalgia correspondente às conquistas do momento.

Le week-end, Reino Unido, 2013 Direção: Roger Michell Elenco: Jim Broadbent, Lindsay Duncan, Jeff Goldblum, Olly Alexander, Xavier de Guillebon, Brice Beaugier Roteiro: Hanif Kureishi Fotografia: Nathalie Durand Trilha Sonora: Jeremy Sams Produção: Kevin Loader Duração: 93 min. Distribuidora: Pandora Filmes Estúdio: Film4 / Free Range Films / Le Bureau

Cotação 3 estrelas e meia

Anúncios
Post seguinte
Deixe um comentário

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: