Mommy (2014)

Por André Dick

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O diretor canadense Xavier Dolan tem se tornado desde 2009, quando lançou Eu matei minha mãe, na principal referência entre os poucos cineastas até 25 anos de idade, capaz de dialogar com o público e a crítica, assim como participar de festivais importantes. Seu filme mais recente, Mommy, recebeu o Prêmio do Júri em Cannes, junto com Adeus à linguagem, de Jean-Luc Godard, e logo se tornou aquele de recepção mais exitosa, com sua temática abertamente difícil e mesmo complexa, sobretudo quando o olhar é direcionado, como na trajetória de Dolan, para a melancolia.
O início de Mommy revela todo o estilo do cineasta, alternando o realismo de alguns cenários com o jogo de luzes próprio das produções dos anos 80. Desta vez, temos uma mãe, Diane “Die” Després (Anne Dorval), que precisa tirar seu filho, Steve (Antoine-Olivier Pilon), com TDA (Transtorno de Déficit de Atenção), de uma clínica psiquiátrica, porque ninguém consegue lidar com ele. Arranjando brigas e sintetizando sua linguagem por meio de palavrões, Steve é um jovem que não se mostra interessado em dialogar; sua presença é incômoda para as pessoas, principalmente quando encontra alguém que divide a atenção de sua mãe. Pior ainda, em seu caso, porque Dolan decide avaliar que haverá uma determinada lei para casos como o dele vigorando no Canadá a partir de 2015. Indo para a casa, ele não está disposto a ver sua mãe dialogar com um vizinho. E é nessa volta à casa que vemos como ele está terrivelmente inserido numa mudança de comportamento constante. Sua violência só começa a ser atenuada quando ele e sua mãe conhecem a vizinha da casa em frente, Kyla (Suzanne Clément), que sofre com sua gagueira.
Dolan é um diretor que produz seus filmes baseado numa meia estação entre os anos 80 e os 90. Em Amores imaginários, sua peça mais opaca em termos de roteiro, embora tenha um visual acertado, embora pouco original, baseado em Corra, Lola, Corra e na filmografia de Wong Kar-Wai, havia um clima dessas décadas e uma atmosfera europeia. O mesmo pode-se dizer em relação a Laurence sempre. Também dedicado a selecionar uma trilha sonora que possa não apenas dialogar com as cenas, como também às vezes trazer uma substância que elas não têm, Dolan pode colocar “Wonderwall”, do Oasis, quando quer mostrar os personagens em clima de felicidade e passagem de tempo.

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E é de passagens do tempo musicais que vive este filme. Com uma história cristalina, e em linha reta, Mommy, porém, se ressente de algo desde o início: embora tenha a excepcional Anne Dorval como a mãe de Steve, assim como ela fazia a mãe na estreia de Dolan, o ator Antoine-Olivier Pilon não se sente à altura do personagem e Suzanne Clément, que na estreia de Dolan fazia a sua professora, não parece não estar exatamente enquadrada no filme, sendo apenas uma extensão para conflitos posteriores e o símbolo de que a gagueira pode desaparecer ao lado de pessoas que proporcionam uma ideia de liberdade. O que mais salta à atenção ao ver Mommy é como Dolan, ao mesmo tempo que sabe lidar com a fotografia de maneira sensível, mostrando o bairro entre o sol de um verão e as folhas de um outono, não deixando de mostrar a mudança dos personagens – também comportamental –, não leva, em nenhum momento, o espectador a reencontrar a densidade que se via em Eu matei minha mãe, muito comovente ao mostrar um adolescente revoltado – com traços de Steve  – feito pelo próprio Dolan, talvez mais ator (excepcional) do que diretor. E, sem se deter na idade, detalhe que se tornará mais irrelevante à medida que ele fizer mais filmes, impressiona realmente que ele tenha feito esse com 19 anos. Mesmo que Dolan tenha alguns maneirismos incômodos, porque pouco acrescentam, ele se sente realmente autêntico, e não, às vezes, como Mommy, com sua seleção de sequências dispostas a evocar hits de sua preferência, apesar de, quando coloca seus personagens sem evocar um estilo de linguagem, conseguir atingir momentos até comoventes. Que esses não consigam cobrir a narrativa é algo a se lamentar, pois Dolan sempre acaba levando seus personagens para um espaço em que pode lidar com eles como se fossem artifícios de linguagem.
Nisso, mesmo o comportamento do personagem central, certamente problemático, se torna forçoso, como no momento em que roda um carrinho no pátio do supermercado e a câmera dá voltas, mostrando o céu azul acima; do ponto de vista estético pode ser uma cena até bela, mas, e Dolan não consegue evitar, nunca se sente parte do todo: ela parece um intervalo antes da manifestação do próximo problema de Steve. E este nunca é completamente plausível, em razão da presença de Pilon, que alterna momentos de alegria com de nervosismo sem uma dosagem que não incomode. Ainda assim, em nenhum momento o filme deixa claro seu verdadeiro incômodo para a sociedade e ele não se sente alguém individual, e sim um artifício que Dolan coloca para a mãe nunca se sentir livre.

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A própria tela em formato 1:1 – que traz estranheza – é apenas uma meia justificativa para poucos momentos em que Dolan a amplia; os personagens ficam ligados demais a uma estética, seja visual, seja musical, e dificilmente conseguem falar por eles mesmos. A mãe de Steve não se torna uma exceção: enquanto no primeiro filme de Dolan a figura materna tinha camadas de conflito com o filho, esta se sente apenas situada em seu próprio mundo, que não permite aberturas ao diálogo, sendo Mommy, principalmente, uma história sobre o egoísmo de não querer o melhor para o filho, e de mostrar a inveja quando ele pode melhorar, com a desculpa de que esta também é uma forma de amar. Bem, Diane assina como “Die” (morte) e seu sobrenome é Després, quase “depressão”. Para Dolan, Steve busca a abertura do mundo que a mãe não deseja, e é simplesmente cortante uma das sequências finais, em que ela imagina o futuro do filho. Essas relações mostradas em seus filmes parecem em parte dever algo a uma das melhores obras (e esquecidas) de Martin Scorsese, Alice não mora mais aqui, sobre uma mãe que precisa criar seu filho sozinha – no entanto, onde Scorsese era discreto, Dolan extravasa. As modulações da narrativa, no entanto, se renderiam uma análise quase psiquiátrica, são entregues de maneira muito descompassada, reunindo tudo numa seleção de gritos de parte a parte, para que o espectador tenha a certeza de que as sensações que Dolan quer atingir estão aflorando por toda a parte – quando, na verdade, elas se escondem cada vez que ele toma este caminho. Mesmo onde ele poderia ter discreto, logo se perde ao entregar a linguagem: num momento difícil para o personagem central, a chuva escorrendo na janela do carro representa a sua tristeza, e Dolan se autossatisfaz considerando que isso seria suficientemente artístico, quando parece mais melancolia via Instagram.
Com isso, Mommy possivelmente seja o filme mais disperso de Dolan, que ainda procura fugir da linguagem comovente da sua estreia: pressionado a ser pop pela expectativa que sua trajetória desperta, ele se mostra mais seguro quando eleva a estética do seu filme a explosões sonoras e de discussões que possam ser audíveis para todo o bairro. Nesse sentido, como em Amores imaginários, quando sugere um clipe de MTV a cada passo dos personagens, ele parece, às vezes, não ter certeza do material que tem à mão, preferindo expandi-lo em catarse sonora do que casar esta com uma harmonia densa. O filho que Dolan interpretava em Eu matei minha mãe talvez fosse ainda mais difícil do que Steve; víamos, no fundo, de qualquer modo, um elemento de comicidade em sua relação com a mãe e de verdadeiro sentimento, quando aqui Dolan se entrega a ser quase um DJ de imagens. E, embora pareça não dominar a estrutura, fica claro que Mommy tem um resultado disperso porque excede em quase uma hora a síntese de Eu matei minha mãe: Dolan tem uma especial atenção para captar um material que pode despertar emoção; ele só precisa, aparentemente, se emocionar menos com suas próprias ideias e deixar a recepção a cargo do espectador.

Mommy, CAN, 2014 Diretor: Xavier Dolan Elenco: Anne Dorval, Antoine-Olivier Pilon, Suzanne Clément, Patrick Huard, Alexandre Goyette Roteiro: Xavier Dolan Fotografia: André Turpin Trilha Sonora: Noia Produção: Nancy Grant, Xavier Dolan Duração: 138 min. Distribuidora: Europa Filmes Estúdio: Metafilms

Cotação 2 estrelas e meia

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