Paixão (2012)

Por André Dick

Paixão

A maior qualidade (ou problema) de Brian De Palma não seria exatamente o amor que tem pelo cinema – característica dos melhores cineastas –, mas amar, sobretudo, o seu cinema. De Palma é capaz de fazer filmes brilhantes (como Os intocáveis, que foge, inclusive, ao gênero em que se especializou, o suspense) e mesmo instigantes sem ser correspondido (como Síndrome de Caim), até comédias antológicas negadas pelo hype contrário (A fogueira das vaidades) e petardos sobre gângsteres (Scarface e O pagamento final), mas não consegue, como no momento derradeiro do superestimado Um tiro na noite e no ineficiente Femme fatale, mostrar uma visão mais apurada daquilo que foge às surpresas da sala de cinema e de uma metalinguagem complicada, que acaba utilizando os personagens para seu ímpeto de dizer que ama fazer filmes. Trata-se, sem dúvida, de um estilo, e De Palma o possui, com suas virtudes e falhas. E um estilo, em grande parte, se confunde com a qualidade.
O seu mais recente filme, Paixão (que sai diretamente em home video depois de ter seu lançamento nos cinemas anunciado e depois descartado), alguns anos depois de sua obra-prima pouco considerada, Dália negra, mostra exatamente este estilo em pleno funcionamento:  com uma fotografia elaborada de Jose Luis Alcaine, desde seu início, guarda os elementos preferidos do cineasta, a duplicidade e uma atração entre pessoas (mulheres e homens) que pode levar à destruição. Estamos, desta vez, diante de Christine (Rachel McAdams), chefe de Isabelle (Noomi Rapace), em uma grande agência de marketing em Berlim, a Koch Imagem Internacional. Ambas tentam chegar à ideia de um conceito de campanha, mas são incapazes de conclui-lo. Quando chega em casa, Isabelle liga para sua assistente, Dani (Karoline Herfurth), e ambas têm o comercial em mãos numa noite, gravado com uma câmera pessoal. O sonho de Christine é ir para a unidade da agência em Nova York.

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O que acontece daí por diante é tipicamente De Palma, e envolve também um homem, Dirk (Paul Anderson), a assistente e alguns desfiles no universo da moda, que o cineasta certamente implica como superficial e com as cores chamativas dos sapatos que essas mulheres querem exibir na festa de uma mansão ou mesmo antes do próximo jogo duplo, cercadas por pinturas de sala que remetem aos prazeres carnais da Roma Antiga e máscaras venezianas. Não sabemos se Christine está, a princípio, fazendo um jogo ou realmente interessada pelo sucesso profissional de Isabelle, porém De Palma leva a trama a lugares em que há fantasias em gavetas (o seu fetiche) e conversas sobre gêmeas que podem não existir. A presença que sempre rondou a sua carreira é a de Alfred Hitchcock, e aqui não é diferente. Ainda assim, em determinado momento, é possível se questionar se Paixão é realmente um filme que fala para as plateias de hoje, mesmo com sua tendência a mostrar a presença midiática (e os computadores da Apple, o YouTube e o e-mail são peças para deflagrar também relações conturbadas). Toda sua composição é de um cinema já feito, enquadrado e sintetizado em diversas obras – inclusive no de De Palma – e a trilha de Pino Donaggio lembra diretamente o estilo de Bernard Herrmann (colaborador de Hitchcock), fazendo com que as cenas sejam pontuadas com a lembrança de outras. Não seria ruim, se tudo não fosse colocado em movimento da maneira mais previsível e com enquadramentos destinados a inclinar o olhar do espectador.
O cineasta exibe algumas ligações pelo roteiro de maneira clara, mas, a partir de determinado ponto, prejudicado por uma montagem apressada – que faz os personagens mudarem de comportamento de forma abrupta – parece se perder em meio a pesadelos noturnos, levando o espectador para dentro deles. Isso acontece de modo que deixa o espectador pensativo, sobretudo porque Noomi Rapace tem uma atuação definidora de seu talento (sua primeira meia hora é particularmente feliz) e Rachel McAdams transforma um personagem que poderia ser uma caricatura numa figura certamente ameaçadora – embora Karoline Herfurth pareça ser a presença feminina mais surpreendente, entre o risco e a vulnerabilidade.

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De Palma acaba por negar a presença efetiva das três, colocando seu cinema em primeiro lugar: e para ele não basta colocar o seu cinema, mas fazer toda uma série de citações deslocadas – mesmo “A tarde de um fauno”, de Debussy, surge em determinado momento para compor uma sequência que certamente estaria, em outra época, em Dublê de corpo ou Vestida para matar, com a obsessão do cineasta pela tela dividida e pelo vídeo gravado, que pode apresentar a solução de um crime ou mesmo alguma relação sexual que pode modificar a condução da narrativa. A psicologia tão bem trabalhada em outros momentos por ele, que acabaram resultando em outras obras definitivas, acaba encolhida e dando espaço a uma sequência de diálogos que suscitam a seguinte pergunta: seria este o melhor momento de De Palma em muitos anos? Seria complicado comparar Paixão à sua trajetória de recepção respeitosa desde os anos 70; parece mais um filme de transição para uma fase em que as citações que antes fazia a outros filmes de outros cineastas acabam sendo ao seu próprio cinema. Num cinema em que a reviravolta é importante, De Palma acaba se submetendo a seu próprio estilo, e ficando em círculos. Sua presença na direção acaba sendo um tanto pesada na busca pelas próprias evidências: elas estão ali, na tela, e já as conhecemos antes de o suspense ser criado.

Passion, EUA/ALE/FRA, 2012 Diretor: Brian De Palma Elenco: Rachel McAdams, Noomi Rapace, Karoline Herfurth, Paul Anderson, Rainer Bock, Benjamin Sadler Roteiro: Alain Corneau, Brian De Palma, Natalie Carter Fotografia: Jose Luis Alcaine Trilha Sonora: Pino Donaggio Produção: Saïd Ben Saïd Duração: 100 min. Distribuidora: PlayArte Estúdio: Integral Films / SBS Films

Cotação 2 estrelas e meia

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