Força maior (2014)

Por André Dick

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Uma família sorridente posando para uma foto num cenário gelado, com figurino e equipamentos para esquiar é o que inicialmente pode sintetizar a procura pelo estudo de como ela pode ser vista dessa maneira e de outra, nos bastidores. O espectador certamente está num cenário que se mostra atrativo e agradável, no entanto, quando tudo pode escapar ao previsto é que se pode construir uma história a ser vista não apenas por sua paisagem externa, como também pelo que guarda de mais encoberto. Força maior, o indicado para o Oscar pela Suécia, mas que não chegou à lista de finalistas, é um cinema cada vez mais raro de se encontrar: não existe, aqui, um centésimo do movimento que vemos em Relatos selvagens, porém tudo pode ser uma justificativa para algo que está se movimentado de outro modo.
Por isso, embora tenha uma premissa parecida com a de Planeta solitário, Força maior é um filme bastante original. Ele apresenta um casal, Tomas (Johannes Bah Kuhnke) e Ebba (Lisa Loven Kongsli), que passa por uma determinada situação capaz de colocar seu relacionamento em dúvida. Eles estão de férias num hotel dos Alpes franceses com seus filhos, Harry (Vincent Wettergren) e Vera (Clara Wetterngren), à procura de tranquilidade – porém, nada ficará tranquilo. E nenhum deles conseguirá exatamente se esconder, como mostra o zelador (Johannes Moustos). É interessante como esse hotel parece retratar a mesma perfeição que vemos na foto de família, com uma simetria calculada, e todos os encontros parecem divertidos o suficiente para esconder que, na verdade, não são. Quando Tomas e Ebba encontram uma amiga, Charlotte (Karin Myrenberg) disposta a encontrar vários amores e viver um casamento sem limites programados, sente-se a tensão no ar. Tudo o que é vivido por eles se torna uma espécie de corrente de ar que não pode mais ser escondida.

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Se a direção de Ruben Östlund parece, em alguns momentos, com a de Michael Haneke, como já indicaram, parece que em alguns momentos ele opta pela corrosão de Woody Allen (via Bergman) ao mostrar o relacionamento entre Tomas e Ebba. Não é algo fácil: Kongsli não se mostra uma atriz exatamente simpática, de acordo com o papel, enquanto Kuhnke tem um misto de frieza com receio de manifestar de qualquer emoção (e ainda assim, em alguns momentos, engraçado, talvez por sua fisionomia lembrar a de Jason Sudeikis). Ebba, já no início, parece uma personagem insegura, não mais, no entanto, do que Tomas. Esses são personagens cortados por qualquer relação, e a maneira como são filmados sempre traz algum elemento constrangido diante da maneira como se expõem. A mulher adota uma visão do acontecimento (que retrata o que aconteceu), enquanto o homem tenta criar saídas para o comportamento que não pode explicar. Diante disso, Força maior joga com possíveis verdades e o interesse que cada um tem em contar a sua versão para afirmar sua posição diante do casamento.
Isso torna a obra de Östlund provocativa na medida certa: ele não mostra exatamente uma faceta interessante para homens e mulheres, e críticas que apontam o filme com elementos de misoginia não veem, na exatamente, a figura que está sendo exposta do homem. Estamos diante de uma análise devastadora sobre a figura dele como força protetora e cuja masculinidade nunca pode, socialmente, ser contestada, principalmente em termos de coragem, enfrentamento e persuasão. Nesse sentido, Força maior parte de um acontecimento ameaçador da natureza para mostrar o desequilíbrio das relações, e o quanto um determinado instante pode ser acompanhado apenas pelo instinto momentâneo, assim como uma simples conversa entre pessoas pode expor toda uma relação.

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No início, parece haver algo de esquemático na condução dessa história, um tanto irregular, principalmente nos primeiros 25 minutos, mas aos poucos, sobretudo quando o casal recebe o amigo Mats (Kristofer Hivju), acompanhado de uma afiada Fanny (Fanni Metelius), a história é conduzida para um ambiente interno; mesmo o fato de o casal estar entre dois andares (nunca se mostrando nem o piso de cima nem o de baixo) lembra que ele parece comprimido por uma situação que foge a eles, como a própria natureza. Logo em seguida ao encontro deles com Tomas e Ebba, Mats, desta vez, é colocada à prova por Fanny, na sua relação com a ex-mulher e os filhos. As mulheres de Força maior exigem um comportamento que os homens enfocados não estão dispostos a seguir. De forma inútil. Quando Tomas e Mats se sentam em cadeiras ao ar livre, e parecem sofrer um leve assédio, logo Östlund os chama à realidade. Daí para Tomas se perder é um passo.
É difícil encontrar outro filme – e passado quase completamente num hotel – que utilize o cenário de maneira tão simbólica: dentro do espaço de um hotel, é possível lembrar de O iluminado. Os temas ainda são os mesmos da peça de Stephen King adaptada por Kubrick: como os pais podem dar segurança aos filhos se eles não se sentem certos de que poderão fazer isso. Há elementos psicológicos de todos os tipos nas discussões acaloradas de Força maior, e eles são reunidos com um toque que, apesar de ter influência de Bergman e Haneke, sustentam uma visão de mundo talvez mais aberta ao otimismo, apesar do amargo que ronda a maioria das sequências. Östlund está filmando, por meio de um acontecimento, o desaparecimento de uma família e o surgimento de outra, capaz de estabelecer um parâmetro para os relacionamentos.

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A analogia entre o casal no banheiro e as tempestades de gelo parece um pouco preestabelecida pelo roteiro e ainda assim o diretor Östlund desperta uma espécie de humor em razão também da trilha sonora. Força maior, ao contrário do que seu marketing possivelmente indique, discute, acima de tudo, as nebulosas relações, e os simbolismos ao longo da narrativa parecem se fechar com o isso, a exemplo de quando Tomas e Mats estão solitários no alto da montanha falando de terapias passadas ou nunca realizadas. Do elenco, excelente, quem se destaca é Kristofer Hivju, trazendo um humor necessário ao prosseguimento da trama, embora Kuhnke não fique em segundo plano e Kongsli faça uma esposa abalada com a situação bastante verossímil. Esse elenco oferece a sustentação, junto com a fotografia irretocável de Fredrik Wenzel, para a narrativa de Östlund, ao mesmo tempo que confere aos atritos entre homens e mulheres uma interessante perspectiva. Trata-se de uma obra que possui uma etapa final ainda mais memorável, por todo o cuidado que Östlund traça a partir de seus personagens e de como eles podem se encontrar verdadeiramente por meio daquilo que consideram estar perdendo. Além de ser um dos grandes momentos do cinema em 2014, é aí que reside a atratividade de Força maior: ser, de fato, uma obra sobre finalmente reconhecer uma coisa pelo que se é, depois de efetivamente nunca entendê-la.

Force majeure, Suécia/Noruega/Dinamarca, 2014 Diretor: Ruben Östlund Elenco: Johannes Bah Kuhnke, Lisa Loven Kongsli, Vincent Wettergren, Clara Wettergren, Kristofer Hivju, Fanni Metelius, Brady Corbet, Karin Myrenberg  Roteiro: Ruben Östlund Fotografia: Fredrik Wenzel Trilha Sonora: Ola Fløttum Produção: Erik Hemmendorff, Marie Kjellson Duração: 118 min. Distribuidora: Califórnia Filmes Estúdio: Plattform Produktion

Cotação 4 estrelas e meia

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