O duplo (2013)

Por André Dick

O duplo 9A questão dos duplos no cinema, assim como na literatura, é utilizada por algumas obras, não apenas fisicamente (como víamos, ano passado, em O homem duplicado, com Jake Gyllenhaal, embora haja outras teorias para ele) como psicologicamente: o vencedor do Oscar de melhor filme deste ano apresenta Riggan Thomson, artista de Hollywood que tenta adaptar peça teatral na Broadway e ouve vozes do super-herói que havia interpretado décadas antes, Birdman. Em Cisne negro, que inspirou Birdman, uma dançarina vê surgir uma dupla personalidade a partir dos reflexos e ensaios noturnos, além de serem destacados seus conflitos com a mãe e sua colega de ensaio. É uma questão que abre para a interpretação extrema dos conflitos do sujeito, que, de algum modo, nunca parece único.
O cineasta Richard Ayoade, depois de Submarine, uma versão inglesa da adolescência com ambientação certamente amargurada, parte para a adaptação livre da obra O duplo, de Dostoiévski. Trata-se de um passo arriscado em sua trajetória, do qual poderia se sair com certa dificuldade. Primeiro porque a obra original é, sem dúvida, uma referência psicanalítica. O filme apresenta um dos melhores atores jovens, Jesse Eisenberg, no papel de Simon James, que trabalha num escritório semelhante ao de Brazil – O filme, de Terry Gilliam. É uma repartição com homens trabalhando em salas apertadas e uma constante cor amarela. Ao chegar ao trabalho, ele sempre precisa mostrar sua identificação, a fim de que possa ingressar numa espécie de sistema repetitivo. Mas, se Brazil ainda era um filme repleto de humor e nervosismo estridente, características de Gilliam, o mesmo não se pode falar de O duplo, mais próximo de uma melancolia gélida em alguns pontos. Os gracejos que Ayoade apresenta em Submarine e constituem um elemento para que o filme não cumpra todo seu potencial são bastante atenuados em razão de uma busca de Simon por sua verdadeira personalidade – ou apenas outra, dependendo do olhar. Isso não traz apenas um sentido de descoberta, mas, sobretudo, de incômodo e de explicação para suas camadas individuais.

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O personagem de Simon, ao visualizar de seu apartamento, por um telecóspio, sua vizinha do prédio em frente, vê também uma pessoa pendurada no parapeito e tudo se torna, a partir daí, tão estilizado quanto interessante, pois o espectador realmente não sabe se a narrativa se situa num plano minimante em diálogo com a realidade ou um universo à parte. Nem mesmo quando, em seu local de trabalho, Simon se interessa por uma colega de trabalho, Hannah (Mia Wasikowska), exatamente a mesma vizinha que observa do seu apartamento e que convidará para sair, o espectador se permite a achar que ele não se encontra em algum plano de idealização, uma fuga desse ambiente opressor de trabalho – que mais parece lembrar uma sala de máquinas – para um café da cidade cuja luz externa parece reservar mais uma vez um clima subterrâneo. Mais preocupante é o modo como Simon nunca é reconhecido pelos colegas de trabalho que vê todo o dia e tem na figura do gerente maníaco gerente, o Sr. Papadopoulos (Wallace Shawn, excelente), um possível apoio para seu crescimento na empresa.
A fotografia de Erik Wilson é primorosa, assim como a ambientação. Há influências de um clima noir, com referências a Janela indiscreta, Batman de Tim Burton, à literatura também de Kafka e, apesar de não sabermos em que época o filme se passa, nos sentimos tanto durante a Revolução Industrial quanto num passado futurista com toques dos anos 80 (a programação na televisão lembra claramente a MTV), assim como em meio a um clima no ar de perseguição paralela à Segunda Guerra Mundial. Ainda assim, o que mais perturba no trabalho de Ayoade é que, sem tentar ser um drama efetivamente ou uma comédia de humor trágico, O duplo mostra uma melancolia associada ao seu personagem e seu desconforto diante do mundo que o cerca muito próximo daquilo que víamos em outro filme de Aronofsky, Pi, em que um homem que vivia solitário num apartamento era perseguido por homens que viam nele a possibilidade de desvendar o universo.

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Com certa sobriedade onírica, em sua maior parte, mesmo quando tem elementos de humor, ao mesmo tempo possui uma profundidade que não havia em Submarine e um personagem central bem delineado, em razão de Eisenberg, em seu melhor papel desde A lula e a baleia ou A rede social. Mas ele não conseguiria atuar com competência sozinho: Wasikowska está em um de seus melhores momentos, mostrando a sua maturidade, que também se mostra um destaque em Mapas para as estrelas, deixando de lado sua persona de Alice no país das maravilhas. De maneira geral, O duplo surpreende por sua tentativa de não reduzir tudo a um enigma. Sim, em determinado momento Simon encontra seu duplo como um rival em seu local de trabalho – e o espectador se pergunta a partir daí o que seria verdade ou sonho. Oscilando entre esses dois espaços, a trilha sonora com influências orientais e de thrillers, assinada por Andrew Hewitt, é tão requintada quanto a abordagem de Ayoade para a questão da duplicidade. Ela lida com seu jogo de espelhos, reflexos e versões diferentes para um mesmo ponto de vista, transformando o filme num panorama psicológico amplo e uma espécie de tratado sobre a culpa de não se conseguir atender ou entender a todos, nem a si mesmo. Há elementos evidentes, nisso, também do esquecido (e excelente) Kafka, de Steven Soderbergh, em que o escritor (Jeremy Irons) ia descobrindo várias histórias relacionadas a seu local de trabalho. O ambiente de casa se torna tão estranho quanto o de trabalho, e Simon não sabe mais em quem pode se apoiar: se no que vê ou na sua paixão por Hannah, ou nas suas referências familiares, que já parecem distantes a fim de que possa alcançá-las. A atmosfera noturna de O duplo guarda, além da influência noir, a vontade permanente de se afastar do que acontecerá no dia seguinte, o local do trabalho para o qual Simon deve regressar. E, apesar de apresentar toques do Eraserhead de David Lynch, esse caminho não atrapalha o traço autoral de Ayoade neste filme que parece até modesto em suas dimensões, se não apresentasse um tema de maneira tão instigante. Nitidamente de orçamento reduzido, em que a imaginação de todos é colocada a prova, O duplo se torna, ao mesmo tempo, um outro lado do diretor ainda não mostrado: o daquele que consegue, por meio de uma história aparentemente descompromissada, procurar o mistério de entendimento que pertence a cada um, sem artifícios e ambiguidades reconhecidas de antemão.

The double, ING, 2013 Diretor: Richard Ayoade Elenco: Jesse Eisenberg, Mia Wasikowska, Wallace Shawn, Gemma Chan, James Fox, Paddy Considine Roteiro: Avi Korine, Richard Ayoade Fotografia: Erik Wilson Trilha Sonora: Andrew Hewitt Produção: Amina Dasmal, Robin C. Fox Duração: 93 min. Distribuidora: Europa Filmes Estúdio: Alcove Entertainment

Cotação 4 estrelas

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