Resultados do Oscar 2015

Por André Dick

Birdman.Oscar

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas escolheu este ano Neil Patrick Harris como apresentador. As participações dele foram discretas, mas sua presença não chegou a ser cansativa como poderia ser; o número musical do início teve certa qualidade depois daquele que causou polêmica há dois anos, com o diretor de Ted, Seth MacFarlane. Trouxe as presenças de Anna Kendrick e Jack Black e lembrou um pouco os números conduzidos por Billy Cristal nos anos 90, principalmente. Ainda assim, a cerimônia se estendeu como de costume e sem destacar a apresentação feita a cada filme, apresentados em grupo, como se não houvesse tempo: como se sabe, há. Um dos melhores momentos foi quando Harris imitou o personagem de Michael Keaton em um determinado momento de Birdman. A homenagem aos 50 anos de A noviça rebelde (vencedor do Oscar em 1966) apresentou Julie Andrews agradecendo emocionada. E aconteceram algumas surpresas não apenas nas categorias principais, como também nas técnicas.

Birdman.Oscar 2

Melhor filme 

Se há um filme que realmente cumpriu as expectativas nas categorias para as quais era indicado é O grande Hotel Budapeste, de Wes Anderson. Nenhum filme do cineasta havia recebido um Oscar anteriormente e neste ano conseguiu 4 conquistas na parte técnica. Os filmes de Anderson sempre foram visualmente muito atrativos, mas depois de Moonrise Kingdom havia a impressão de que nunca conseguiria chegar ao Oscar. Depois de quase 15 anos da obra que ainda é a melhor de sua trajetória, Os excêntricos Tenenbaums, Anderson consegue avançar em Hollywood para continuar produzindo seus projetos independentes e criativos. Ainda que não tenha recebido o Oscar de melhor roteiro e direção, ou seja, continue sem receber os principais, Anderson se credencia para novos projetos.
O filme que realmente parece ter “encolhido” na chegada final da disputa foi Boyhood – Da infância à juventude. É estranho que tivesse sido lembrado no Oscar, uma premiação avessa a produções que se rotulam como “indie”. Ao contrário de Wes Anderson, que apresenta junto com sua imaginação um lado histórico em O grande Hotel Budapeste, Richard Linklater continua usando sua simplicidade conseguida na série Antes do amanhecer/Antes do pôr do sol/Antes da meia-noite. Filmado durante 12 anos, Boyhood tem um afeto incalculável e, se a premiação que obteve de atriz coadjuvante (para Patricia Arquette) é bastante justa, não parece ter sido seu esquecimento em outras categorias.
A grande surpresa foi Whiplash – Em busca das perfeição, que recebeu os Oscars de ator coadjuvante (J.K.Simmons), montagem e mixagem de som (depois da premiação, fui conferir se entre os produtores do filme estavam os Irmãos Weinstein, que conseguiram um feito parecido com O discurso do rei, mas não os encontrei).
Diante de surpresas ou não, Birdman se antecipou como o grande ganhador da noite quando Sean Penn, ator de 21 gramas, de Alejandro González Iñárritu, subiu ao palco para apresentar o Oscar de melhor filme. Eis um filme que, depois de Boyhood, era um merecedor desse prêmio e um daqueles com menos tendência, pelo menos antes das indicações, a recebê-lo. Não que o trabalho de fotografia de Emmanuel Lubezki não seja excepcional, mas porque Birdman era dirigido novamente por um mexicano, que havia recebido o prêmio de diretor no ano passado (Alfonso Cuarón). E Iñárritu não apenas recebeu o prêmio de direção, como de roteiro e de filme. Contrariou-se também a lógica dos últimos anos, quando se deu o Oscar de melhor direção para quem não dirigiu o melhor filme, apenas para contrabalançar. Apesar de ser uma crítica aos filmes de super-heróis, o diálogo com Batman, em razão de Michael Keaton, é evidente e não deixa também de ser uma homenagem. E, ao contrário do que costuma recitar certa crítica, que aponta falhas nos filmes de Iñárritu, seus filmes, mesmo o problemático Biutiful, têm qualidade de autor. Não deixa de ser uma confirmação dos talentos do México que se firmaram neste século, com uma geração que tem, além de Iñárritu e Cuarón, os nomes de Guillermo del Toro, Carlos Reygadas, diretor de filmes como Luz silenciosa e Luz depois das trevas, e Amat Escalante, pupilo de Reygadas e diretor de Heli. 
Os demais indicados, O jogo da imitação, A teoria de tudo, Sniper americano e Selma, saíram, cada um, com Oscar. Um grande acerto do Oscar foi não ter incluído Foxcatcher entre os indicados à categoria principal e não ter premiado o filme de Miller.
Embora entre os indicados contássemos com filmes inferiores à indicação para melhor filme, não chegando à qualidade vista em 2012 e 2013, foi um ano muito bom (ver mais sobre filmes esquecidos em “Indicados ao Oscar 2015”).

Melhor diretor

Birdman.Oscar 3

O mexicano Iñárritu já havia sido indicado a melhor direção pelo ótimo Babel e seu 21 gramas havia concorrido a dois Oscars. Seu último trabalho, Biutiful, havia sido menor em sua trajetória exitosa, que, como a de Cuarón, atinge seu ponto de conhecimento popular com Birdman. Seu filme é raro, assim como o trabalho que compôs, e na categoria os principais concorrentes eram Wes Anderson e Richard Linklater. As indicações de Bennett Miller, por Foxcatcher, e Morton Tyldum, por O jogo da imitação, a meu ver, já ocupam espaço de diretores que tiveram um trabalho bastante superior no ano passado, para citar alguns Paul Thomas Anderson (Vício inerente), Cristopher Nolan (Interestelar), J.C. Chandor (O ano mais violento) e Pawel Pawlikowski (Ida).

Melhor ator

A teoria de tudo.Filme 2

Mesmo depois de sua participação em O destino de Júpiter, Eddie Redmayne manteve o favoritismo e recebeu o Oscar por sua atuação irrepreensível em A teoria de tudo. Michael Keaton teve o mérito de estar no filme ganhador do prêmio principal. O ótimo Benedict Cumberbatch certamente terá outras oportunidades, assim como Bradley Cooper, muito bem em Sniper americano (lamenta-se que o filme seja irregular), enquanto Steve Carell, com toda minha apreciação, não se mostra bem em Foxcatcher. Para seu lugar, havia possibilidade de nomes como Matthew McConaughey (Interestelar), Joaquin Phoenix (Vício inerente), Jake Gyllenhaal (O abutre ou O homem duplicado), Bill Murray (Um santo vizinho), Ellar Coltrane (Boyhood) e Oscar Isaac (O ano mais violento).

Melhor atriz

Para sempre Alice

Julianne Moore merece o prêmio por Para sempre Alice, pelo conjunto da obra feita no ano passado também em Mapas para as estrelas (pelo qual venceu em Cannes) e Jogos vorazes: A esperança – Parte I. Marion Cotillard, de qualquer modo, tem a melhor atuação em Dois dias, uma noite. Não concordo tanto com as indicações de Rosamund Pike (Garota exemplar), Reese Whiterspoon (Livre) e Felicity Jones (A teoria de tudo). Poderiam ser lembradas Kristen Wiig (Amores inversos ou Irmãos desastre), Jennifer Aniston (ótima em Cake) ou Shailene Woodley (A culpa é das estrelas ou Pássaro branco na nevasca).

Melhor ator coadjuvante

Whiplash.Oscar

J.K. Simmons teve uma vitória novamente predeterminada, como Jared Leto no ano passado, sem o devido merecimento, embora esteja bem como o Sr. Fletcher em Whiplash. Mais uma vez Ethan Hawke foi injustiçado na categoria, como havia sido em Dia de treinamento. Edward Norton também está excelente em Birdman, e Mark Ruffalo tem a presença mais humana de Foxcatcher. E Robert Duvall era a lembrança afetiva do grande ator em O juiz. Três coadjuvantes que poderiam estar nessa lista são Robert Pattinson (The Rover – A caçada), Richard Armitage (O hobbit) e Josh Brolin (Vício inerente).

Melhor atriz coadjuvante

Boyhood.Oscar 9

A atriz Patricia Arquette acabou recebendo o prêmio simbólico para Boyhood. Ela, de certo modo, representa bem a proposta do filme. As demais atrizes estão bem, como Emma Stone, em Birdman, mas sem a mesma presença, inclusive Laura Dern, uma das atrizes mais talentosas de Hollywood, prejudicada pela montagem adotada em Livre. Um esquecimento nesta categoria foi o de Jessica Chastain, destaque em O ano mais violento. Também Adriana Barraza (em Cake), Naomi Watts (em Um santo vizinho ou Birdman) e Whiterspoon (ótima em Vício inerente) poderiam ter sido lembradas.

Melhor roteiro original

Birdman.Oscar 4

Este é um dos prêmios merecidos da noite: Birdman tem um jogo de linguagens muito instigante e é assinado a oito mãos (Alejandro González Iñárritu, Nicolás Giacobone, Alexander Dinelaris Jr. e Armando Bo), embora os trabalhos de O grande Hotel Budapeste e Boyhood também sejam ótimos. Gosto menos dos trabalhos de O abutre e, sobretudo, de Foxcatcher, o mais fraco desses indicados. Foram esquecidos os roteiros de J.C. Chandor para O ano mais violento; de Pawel Pawlikowski e Rebecca Lenkiewicz para Ida; de Bilge Ceylan e Ebru Ceylan para Winter sleep; e de Jean-Pierre e Luc Dardenne para Dois dias, uma noite, todos muito bons.

Melhor roteiro adaptado

O jogo da imitação

O vencedor foi Graham Moore pelo roteiro de O jogo da imitação. Nessa categoria, havia, no entanto, o trabalho excelente de Paul Thomas Anderson em Vício inerente, adaptando o livro de Thomas Pynchon, que merecia o prêmio. Dos demais indicados, o roteiro mais interessante era o de A teoria de tudo.

Melhor filme estrangeiro

Ida.Oscar

O filme polonês Ida é de uma beleza extraordinária, apesar do previsível hype contrário que se estabeleceu, quando se tornou conhecido, depois de chamar atenção em festivais, e tinha Leviatã, da Rússia, também excelente, como principal concorrente. Os outros filmes têm qualidades (embora alguns deles passageiras), mas a Academia mais uma vez deixou pontos de interrogação no que se refere a não ter indicado Força maior, Winter sleep e Dois dias, uma noite.

Melhor filme de animação

Operação Big Hero.Oscar

Depois da exclusão de Uma aventura LEGO, a Walt Disney, assim como no ano passado com Frozen – Aventura congelante, novamente vence na categoria com Operação Big Hero.

Melhor fotografia

Birdman.Oscar 5

No ano passado, quando Emmanuel Lubezki recebeu o Oscar por Gravidade, já era o melhor diretor de fotografia da atualidade, por seus trabalhos com Terrence Malick. Birdman talvez tenha levado ao limite essa escolha. Apenas se lamenta que novamente Roger Deakins tenha perdido o prêmio com seu trabalho impressionante em Invencível. Os trabalhos de Robert Yeoman em O grande Hotel Budapeste e de Lukasz Zal e Ryszard Lenczewski em Ida são memoráveis; se não tivessem o trabalho de Lubezki como parâmetro, mais chamativo, poderiam receber o prêmio com merecimento também.

Melhor trilha sonora

O grande Hotel Budapeste.Filme

Finalmente, o grande Alexandre Desplat recebeu o Oscar, com a trilha de O grande Hotel Budapeste (também era indicado por O jogo da imitação). Ainda assim, particularmente, a melhor trilha é a de Hans Zimmer para Interestelar, como já era, no ano passado, a de 12 anos de escravidão. Muito bela a trilha também de Jóhann Jóhannsson, em A teoria de tudo.

Melhor montagem

Whiplash.Oscar 2

Nesta categoria, foi dada preferência ao trabalho de montagem de Whiplash em detrimento daquele de Boyhood, que torna orgânica uma filmagem de 12 anos, e de O grande Hotel Budapeste, que comprime várias histórias em 100 minutos. Os trabalhos apresentados em Birdman e Interestelar não foram lembrados.

Melhor design de produção

O grande hotel Budapeste 8

O design de produção feito por Adam Stockhausen e Anna Pinnock para O grande Hotel Budapeste é extraordinário. Merecido, como seria em quase todos os filmes de Wes Anderson. Seu mais forte concorrente era o trabalho mostrado em Interestelar.

Melhor figurino

O grande hotel Budapeste 5

O figurino de Milena Canonero em O grande Hotel Budapeste é um destaque. Canonero é um dos nomes geniais dessa área, e já havia vencido por Barry Lindon, Carruagens de fogo e Maria Antonieta. Para Wes Anderson, já havia feito os figurinos de A vida marinha com Steve Zissou.

Melhor maquiagem e penteado

O grande Hotel Budapeste 21

Um prêmio para Frances Hannon e Mark Coulier que sustenta ainda mais a parte técnica de O grande Hotel Budapeste, embora o destaque se concentre no caso de Tilda Swinton.

Melhor canção

Selma.Oscar 2

Composta por John Stephens e Lonnie Lynn, “Glory”, de Selma, foi a escolhida, numa categoria que contava ainda com “Everything is awesome”, de Shawn Patterson (Uma aventura LEGO) e “Lost Stars”, de Gregg Alexander e Danielle Brisebois (Mesmo se nada der certo). Foram boas as apresentações de todos nessa categorias, entre os melhores momentos da noite, inclusive a de “I’m not gonna miss you”, de Glen Campbell e Julian Raymond (Glen Campbell…I’ll be me).

Melhores efeitos visuais

Interestelar.Oscar

O único prêmio, e merecido, para Interestelar, com os melhores efeitos especiais, apesar de os trabalhos apresentados pelos concorrentes serem de qualidade.

Melhor mixagem de som

Whiplash.Oscar 4

Havia dois trabalhos excepcionais concorrendo com o vencedor Whiplash: Interestelar e Invencível.

Melhor edição de som

Sniper americano

O filme de Clint Eastwood Sniper americano teve sua vitória na categoria em que O hobbit – A batalha dos cinco exércitos obteve uma solitária indicação, ao lado de grandes trabalhos apresentados em Birdman, Invencível e Interestelar.

Melhor documentário em longa-metragem

O documentário O sal da terra, de Wim Wenders e Juliano Salgado, sobre o fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, acabou perdendo para Citizenfour, apontado como favorito anteriormente.

Melhor curta-metragem

The phone call

Melhor documentário em curta-metragem

Crisis Hotline: Veterans Press 1

Melhor animação em curta-metragem

Feast

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