Sniper americano (2014)

Por André Dick

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O filme mais polêmico a ser indicado ao Oscar deste ano parece ser Sniper americano, a nova obra de Clint Eastwood. No ano passado, o cineasta já havia feito Jersey Boys – Em busca da música, que foi recepcionado em grande parte por críticas negativas. Se nele Eastwood mostrava uma originalidade ao conjugar trama biográfica e musical, com um insuspeito bom humor, inexistente em sua trajetória, em Sniper americano ele se volta ao lado da guerra do Iraque, que marcou os Estados Unidos depois, principalmente, dos atentados de 11 de setembro. Este enfoque custa aos filmes que tratam dessa guerra como exploradores de violência, o que foi o caso, por exemplo, de A hora mais escura, de Kathryn Bigelow, criticado, na época de seu lançamento, pelas cenas de tortura.
Alguns anos depois deste filme, Eastwood vai ao campo de combate mais uma vez, para mostrar a história de Chris Kyle, considerado o maior atirador dos Estados Unidos, vivido por Bradley Cooper. Eastwood, conhecido por seu talento em mostrar cenas de guerra, como em Cartas a Iwo Jima e A defesa da honra, segue o seu enfoque militarista. No entanto, este não é o seu segundo O destemido senhor da guerra, uma produção de guerra que mesclava o ambiente militar com humor. Sniper americano é uma espécie de segundo A hora mais escura, utilizando a mesma paleta de cores e a mesma movimentação de câmera – em determinado momento, o espectador parece assistir a entrada dos militares na casa de Bin Laden, mas desta vez é o grupo de Kyle (as imagens, se montadas em conjunto, se passariam pelo mesmo filme).
A crítica Pauline Kael, crítica severa de Eastwood, certamente ficaria surpresa com a recepção a este filme nos Estados Unidos, depois de ele arrecadar quase 300 milhões de dólares desde sua estreia no início de janeiro. Segundo ela, não havia um pingo de bom senso em algumas obras de Eastwood e este possivelmente seria a sua gota-d’água: Sniper americano, mesmo que não seja exatamente pró-violência (ele lida com os personagens de maneira quase documental), tem um discurso estranhamente desvalorizado pelo ritmo empregado e por diálogos que não chegam a soar críveis ao espectador. A impressão é que Bradley Cooper, que ajudou a financiar o projeto, chamou Eastwood, um cineasta reconhecido, para criar um candidato ao Oscar. O filme não apresenta elementos psicológicos que caracterizam os últimos filmes dele e, mesmo quando ele tenta transformar a violência cotidiana em elemento de heróis, como Gran Torino, há alguém de visão atrás das câmeras.

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Sniper americano é um retrato sobre o peso da violência na sociedade dos Estados Unidos. Depois de uma década de 90 irreparável, com quatro peças excelentes (Coração de caçador, Os imperdoáveis, Um crime perfeito e As pontes de Madison), Eastwood, nos últimos anos, tem tentado investigar o que corre embaixo da superfície social dos Estados Unidos, em peças como Sobre meninos e lobos, Gran Torino e J.Edgar, ou da política mundial, em Invictus, embora se permita a filmes com temática mais religiosa (Além da vida). E o diretor nunca propagou a violência, a exemplo do que vemos em Os imperdoáveis e Menina de ouro, sempre mostrando indivíduos afetados por um universo violento, mas que desejam, afinal, se afastar dele. Ou seja, sempre foi, embaixo de sua visão de cowboy americano, um cineasta de ideias intimistas.
Há esta tentativa de intimismo em Sniper americano, mas Eastwood esbarra no roteiro de Jason Dean Hall, de uma limitação visível, a partir das memórias de Chris Kyle. Um dos filmes anteriores com roteiro de Hall é Jogando com prazer, com Ashton Kutcher, e ele mostra bem as limitações de escrita: difícil em Sniper americano o espectador ver mais do que balas varando a câmera para atingir americanos ou inimigos dos americanos. E Cooper, na mesma medida em que oferece um personagem introspectivo – o espectador não fará ideia de quem foi Kyle, além de ser alguém abalado pela guerra –, desempenhando com certa solidão as linhas do roteiro, jamais se aproxima do que seria a ideia do filme: ser contra a violência utilizando dela a todo o custo. Para Eastwood, Kyle não é um atirador exímio porque teria sangue frio para tal: ele age como tal porque a cultura o produziu assim e tudo o que fez é como se fosse uma expectativa depositada nele por seu país. Este olhar exclui notavelmente o indivíduo em si mesmo, e Eastwood julga que Kyle é um herói não por se considerar desse modo, e sim porque seus colegas militares acharam que ele estava fadado para ser um sniper. O fato de o personagem não estar satisfeito com esta condição é claro, porém este aspecto não é trabalhado no sentido de criar uma tensão dramática.

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O máximo de profundidade que este personagem atinge é ficar em dúvida se atira ou não em crianças no cenário de guerra. Ele conseguiria conviver tranquilo tendo um filho e tendo de matar, ao mesmo tempo, crianças no Iraque? É uma das questões que o filme suscita, mas deixa pelo caminho, com receio de se comprometer, mesmo porque o roteiro não a elabora. Há um possível número de conceitos (e todos poderiam ser feitos a partir apenas do trailer) a respeito disso, só não são apresentados com traços interessantes. Enquanto Bigelow não faz elogios a governos pós-11 de setembro, avaliando, numa crítica ao sistema americano, que os métodos usados para extrair informações de suspeitos são encobertos e tortuosos, para Eastwood os métodos de Kyle fazem apenas parte de uma cultura de guerra, sendo apenas uma extensão do Velho Oeste.
Há, ao longo do filme, tentativas de equilibrar o racionalismo de Kyle com o de sua mulher, Taya (Sienna Miller, muito bem), entretanto Eastwood, aqui, não encontra a medida exata, mesmo contando com uma bela atuação de Bradley Cooper, possivelmente a melhor e mais discreta de sua carreira, apesar de limitada pelo roteiro. Muito em Sniper americano soa como se costurado em fragmentos indecisos, e parece que as ações não têm o impacto que deveriam na construção da narrativa, apesar de Eastwood continuar com um talento para filmar cenas de tiroteio (sobretudo na quarta ida de Kyle ao Iraque). Isso se deve não apenas ao roteiro de Hall, como também a uma escolha de montagem equivocada: querendo potencializar o lado dramático que seu filme, e em relação ao qual tem consciência, não possui, embora pareça – pelo próprio cenário de guerra –, Eastwood tenta tirar a linearidade da narrativa. Nisso, ele acaba deixando de lado os personagens, que soam como se estivessem apenas de passagem ao lado de algum tanque, com diálogos sem ênfase e dramaticidade e uma justificativa histórica falha para a Guerra do Iraque, várias vezes já desmentida. Este é um filme de ideias instigantes, com um bom ator principal e um diretor talentoso atrás das câmeras que simplesmente não funciona em boa parte, apesar de ser assistível e com sequências de guerra encaixadas. E, como o personagem de Kyle, não há uma explicação exata para isso.

American sniper, EUA, 2014 Diretor: Clint Eastwood Elenco: Bradley Cooper, Sienna Miller, Luke Grimes, Max Charles, Kyle Gallner, Brando Eaton, Jake McDormanRoteiro: Jason Dean Hall Fotografia: Tom Stern Produção: Andrew Lazar, Bradley Cooper, Clint Eastwood, Peter Morgan, Robert Lorenz Duração: 132 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: Warner Bros. 

Cotação 3 estrelas

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