O destino de Júpiter (2015)

Por André Dick

O destino de Júpiter.Filme 10

Se os irmãos Andy e Lana Wachowski têm uma qualidade inegável é que eles sabem produzir, por meio de seus filmes, bastante polêmica. Depois de Matrix, qualquer título deles tem a qualidade de despertar o mesmo ânimo antes da estreia. No entanto, depois, seja com Speed Racer ou Cloud Atlas, embora haja uma variedade de críticas, normalmente são recebidos com certa decepção. Nunca há o mesmo impacto causado por Matrix – e mesmo as continuações dessa referência dos anos 90 foram recebidas com desconfiança. Ainda assim, os filmes considerados falhos dos irmãos são realmente interessantes: o visual e a inspiração nos quadrinhos de Speed Racer são bem trabalhados e Cloud Atlas consegue ser uma ficção científica que arrisca lidar com vários temas em conjunto. E difícil duvidar do talento de uma dupla cuja estreia é Ligadas pelo desejo, uma mistura de suspense e obra noir.
No ano passado, O destino de Júpiter era visto previamente como um fracasso antecipado de bilheterias e teve seu lançamento adiado pela Warner Bros em muitos meses, para uma possível melhora em seu acabamento e um substancial corte na metragem – ou talvez porque fosse confundido com outros filmes mais imediatos da temporada. Ele parece ser um pouco resultado desse limite entre o gênero de ficção científica e as produções de super-heróis.
Sua história já indica isso. Tudo inicia com um homem, Maximilian Jones (James D’Arcy), observando as estrelas e conhecendo a futura esposa Aleksa (Maria Doyle Kennedy) em São Petersburgo. Algum tempo demais, com a mulher já grávida, ele decide que sua filha se chamará Jupiter. Em poucos minutos, já mostra que ela cresceu (agora Mila Kunis) com familiares russos em Chicago e trabalha limpando casas. Com o desejo de comprar um telescópio, ela atende a um pedido do seu primo Vladie (Chute Gurry), enquanto, num momento delicado, surge Caine Wise (Channing Tatum).

O destino de Júpiter.Filme 2

O destino de Júpiter.Filme 7

O destino de Júpiter.Filme 3

Os Wachowski misturam essa trama – para que as duas se completem – com a de três filhos da Casa de Abrasax, uma dinastia que comanda a Terra, ou seja, Balem (Eddie Redmayne), Kalique (Tuppence Middleton) e Titus (Douglas Booth), que estão atrás de Jupiter. Caine e Jupiter encontrarão Dtinger Apini (Sean Bean) e o capitão Diomika Tsing (Nukking Amuka-Bird) e tudo poderá se transformar numa ópera espacial, mesclado a uma mistura entre história da Roma Antiga (Titus, Balem) e nomes que evocam algum humor (Jupiter Jones ou Caine, para não dizer logo “canine”, uma mistura entre humano e lobo mais parecido com um fauno da mitologia).
Desde o início, O destino de Júpiter não fica a dever para suas principais inspirações: os quadrinhos de ficção científica dos anos 30, os mesmos que envolvem Flash Gordon. E quando se vai ao filme, percebe-se que os Wachowski continuam entre os raros cineastas que ainda querem construir um universo à parte. Mas, ao contrário de seus filmes anteriores, esse visual não marca pela originalidade. Enquanto em Matrix, Speed Racer e Cloud Atlas, havia uma elaboração criativa de cenários, desta vez tudo se sente um pouco emprestado: nos cenários das naves, a Matrix Cloud Atlas; no planeta distante, a Thor e O senhor dos anéis; numa seção de burocracia espacial, a Brazil – O filme; e mesmo a trilha de Michael Giacchino, uma das qualidades para dar ênfase às cenas de ação, têm correspondência direta com a da segunda trilogia de Star Wars. E O destino de Júpiter prova, novamente, a originalidade de algumas ficções dos anos 80 (Flash Gordon, Duna) que, quando lançadas, enfrentaram críticas. São referências que devem se moldar a uma nova criatividade, o que, infelizmente, acontece apenas em parcelas. Isso, em termos dos Wachowski, é uma surpresa. Eles mantêm o cuidado com o acabamento, inclusive com os figurinos e os efeitos especiais espetaculares, no entanto é visível que eles tentaram tornar seu cinema mais acessível, embora continuem interessados em teorias.

O destino de Júpiter.Filme 15

O destino de Júpiter

O destino de Júpiter.Filme 16

Depois de Cloud Atlas, a sua obra-prima, isso soa como uma tentativa de eles não terem o desejo de ser ligados a temas considerados intimistas. Eles querem tornar as críticas aos seres humanos num plano declaradamente pop, além de forçadas por um determinado discurso contra o consumismo que pode ser revertido ao se constatar que a obra custou em torno de 200 milhões de dólares, com o uso do 3D (prejudicial por tirar as cores originais, o que é essencial no gênero da fantasia) para aumentar as bilheterias. Há traços nisso de autoria, no entanto não é o que eles têm de mais interessante: os Wachowski, de certo modo, menosprezam seu próprio talento ao lançar um filme que tenta fazer do humor sua seriedade. Nesse sentido, por um lado, ele tem um certo descompromisso, mas não o bastante para deixar de se levar a sério. Em alguns momentos, eles enveredam claramente pela sátira, porém há algo na engrenagem que não funciona, e eles recuam. Não é como o caminho adotado pelo Flash Gordon dos anos 80, em que o ator que vivia o herói, Sam Jones, realmente fazia humor com sua inexpressividade e os cenários (realmente originais) complementavam sua presença. Além disso, é difícil acompanhar as linhas escritas pelos Wachowski, tornando a família russa de Jupiter num elemento à parte.
Este é um detalhe que dificulta a ligação do espectador com os personagens: os personagens parecem carregados de uma despretensão e, ao mesmo tempo, de frases expositivas, que lidam com várias teorias ligadas ao surgimento da Terra e, consequentemente, a Jupiter Jones, a abelha-rainha da grande colmeia sideral. Pode-se imaginar quantos momentos realmente temos os personagens tratando das próprias situações pelas quais passam: todos eles estão dominados por discursos, que remetem a vários conceitos extraídos de programas de TV, livros e quadrinhos, mas, principalmente, de Eram os deuses astronautas?. Isso, inegavelmente, poderia trazer uma certa inteligência à base do roteiro, no entanto fica deslocado quando se tenta enveredar por momentos de humor sem o equilíbrio necessário, que acabam destoando do que aparenta ser sério.

O destino de Júpiter.Filme 12

O destino de Júpiter.Filme 9

O destino de Júpiter.Filme 11

E a questão seria, também, quais as indicações feitas pelos Wachowski a Eddie Redmayne para que ele compusesse o vilão. Com uma participação visivelmente diminuída pela sala de montagem, Redmayne compõe um vilão severo, mas procurando por vida e, certamente prejudicado pelo roteiro, ele se lança na única saída: o overacting mais complicado. Ele se sente como a tragédia personificada da vilania; exagerado ou não, Redmayne parece levar todas as suas falas com uma seriedade assustadora, de fazer tremer as cadeiras do cinema, mesmo que seja com sussurros. É interessante como, diante dele, mesmo Channing Tatum é beneficiado com algumas falas bem-humoradas, como aquela em que faz perguntas ao amigo Dtinger sobre dívidas passadas ou simplesmente por sua falta de expressão chega a despertar algum divertimento. Desse roteiro, o melhor beneficiado é Booth, com ironia de um lorde na medida exata, e, mesmo com pouca participação, Bean também se mostra presente. Entretanto, Mila Kunis parece outra escolha problemática: os Wachowski teriam aqui um papel para Natalie Portman, ainda que certamente lembrasse sua personagem de Thor. Kunis nunca parece de fato estar em seu papel. No entanto, a escolha do elenco talvez não repercutisse em algum resultado.
O que mais se lamenta no filme dos Wachowski é o quanto ele tem um potencial em movimento, com o mesmo montador Alexander Berner e o diretor de fotografia John Toll, de Cloud Atlas, com todas as cenas de ação bem filmadas – uma batalha nos céus de Chicago parece ser a melhor – e, ainda assim, se ressente de um traço emocional para que possa fazer uma diferença. A sensação é que o filme entretém, mas é difícil encontrar nele algo a mais além das imagens. O cinema dos Wachowski ser genuíno e sincero dentro de suas possibilidades mostradas em Cloud Atlas não parece lhes dar o direito de negarem o próprio talento: eles tinham tudo, aqui, para colocar em ação uma homenagem decisiva ao cinema de ficção científica. Embora possa ser visto daqui a alguns anos como um cult, ou mesmo melhorar numa versão mais longa, O destino de Júpiter se sente como uma obra que continua visivelmente inacabada.

Jupiter ascending, EUA, 2015 Diretores: Andy Wachowski e Lana Wachowski Elenco: Mila Kunis, Channing Tatum, Eddie Redmayne, Douglas Booth, Sean Bean, Tuppence Middleton, Doona Bae Roteiro: Andy Wachowski, Lana Wachowski Fotografia: John Toll Trilha Sonora: Michael Giacchino Produção: Andy Wachowski, Lana Wachowski Duração: 127 min. Distribuidora: Warner Bros Estúdio: Village Roadshow Pictures / Warner Bros

Cotação 2 estrelas e meia

 

Anúncios
Post anterior
Deixe um comentário

1 comentário

  1. Republicou isso em Josean Regoe comentado:
    Eu tive a oportunidade de assistir O DESTINO DE JÚPITER que, destaco, é maravilhoso. Talvez eu tenha chegado a essa conclusão por identificar os inúmeros elementos sobre os relatos de vida extraterrestre na película.
    Mas encontrei uma excelente resenha sobre o filme que reblogo aqui.

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: