Birdman ou (A inesperada virtude da ignorância) (2014)

Por André Dick

Birdman.Filme 1

Antes de assistira Birdman ou (A inesperada virtude da ignorância), é natural que se espere mais um filme superestimado, em razão do número de críticas prontas para apontar inúmeras virtudes, sobretudo numa época em que muitos filmes são lançados com o objetivo de participar de alguma premiação. O mexicano Alejandro González Iñárritu é um diretor que agradava à Academia de Hollywood, depois das indicações de 21 gramas e Babel, mas não havia lidado até agora com um material que não envolvesse um drama caracterizado até mesmo pela tragédia, como vimos em Biutiful, na interpretação de Javier Bardem. Com a colaboração do fotógrafo Emmanuel Lubezki (Gravidade e dos filmes mais recentes de Terrence Malick), ele provoca uma espécie de deslocamento em sua carreira, mesmo que não se afaste completamente de características da sua trajetória, e consegue apresentar Birdman como se fosse um único plano-sequência, mostrando os ensaios de uma peça teatral adaptada de Raymond Carver, no Teatro St. James de Nova York.
Esta peça tem à frente da adaptação e do elenco o ex-ator de sucessos de Hollywood Riggan Thomson (Michael Keaton), que interpretava o super-herói Birdman até 1992 (como o próprio Keaton quando fez Batman) e deixou de fazê-lo no terceiro filme da franquia. Longe dos holofotes, Thomson está em conflito com alguns integrantes do elenco, como Mike Shiner (Edward Norton), e sua tentativa de estabelecer um relacionamento com a filha, Sam (Emma Stone), enquanto tenta lidar com a ex-mulher, Sylvia (Amy Ryan). Ele ainda precisa buscar o equilíbrio na relação com duas atrizes: Lesley (Naomi Watts) e Laura (Andrea Riseborough), mas ainda enfrenta o pior: a voz de Birdman – que lembra tanto a de Batman quanto a de Beetlejuice – em sua mente, ditando o que deve fazer. A questão é se seus poderes o ajudarão a se livrar de um ator que está jogando a peça para baixo.
Um dos componentes mais interessantes de Birdman é justamente ser um filme que mostra uma peça teatral baseada em “Do que falamos quando falamos de amor”, de Carver, em que temos alguns temas suscitados ao longo de sua história: a relação problemática entre o homem e a mulher e, sobretudo, a vida como um limite tênue com o desespero e a busca pela personalidade. No entanto, a obra de Iñárritu não se sustenta apenas por ser um filme de referências e autorreferências, ainda que uma conversa no início remeta a Roland Barthes, um dos teóricos da metalinguagem.

Birdman 24

Birdman 15

Birdman 16

Misturando o movimento nos bastidores da peça e os arredores do teatro, na Times Square, as tomadas de Lubezki conseguem envolver o espectador numa atmosfera ao mesmo tempo familiar e enigmática, e o uso de luzes nos bastidores e no palco desempenha quase um elemento narrativo, principalmente porque algumas luzes representam situações ou sensações dos personagens. Não há muitos filmes, como Birdman, que apresentem a sensação de estarmos num teatro e na vida real (A viagem do Capitão Tornado, filme italiano de Ettore Scola, e Sinédoque, Nova York podem ser mais lembrados). Ele talvez soasse pretensioso, mas não é sentido desta maneira: Birdman consegue unir vida “real” e teatro de uma maneira criativa, por meio do plano-sequência adotado por Iñárritu, intercalado pelos solos de bateria e das trocas de roupa, maquiagem e uso de perucas de Riggan.
Diante de críticas a este estilo de filmagem, pode-se imaginar se há uma espécie de surpresa em relação a ele e Lubezki terem conseguido, por efeitos especiais, essa ilusão, ou imperícia crítica de acreditar que ele existe apenas para uma espécie de enfeite: a sensação é de que Birdman tenta costurar aquele ambiente teatral que havia nos filmes de Robert Altman, sobretudo um filme bastante esquecido de 1976, Oeste selvagem, em que Paul Newman interpretava Buffalo Bill e o fazia como se estivesse em um teatro ao ar livre.
Para dar a impressão de acompanharmos os movimentos dos bastidores, da peça e da vida “real” de cada personagem, Iñárritu filma longas sequências com diálogos, obtendo um sentido de continuidade e de variações de cada um e os duplos de cada personagem, nos bastidores e à frente do público. Trabalha-se com os duplos a todo instante, não apenas dentro da narrativa apresentada, como também em relação a outras obras, numa sucessão de piadas culturais, mesmo que possam ser vistas como descartáveis: enquanto Keaton já foi Batman, Norton atuou como Hulk, mas substancialmente, e isso se relaciona com a questão da duplicidade de Riggan, esteve em Clube da luta (também evocado em determinada sequência), enquanto Naomi Watts homenageia Cidade dos sonhos e seu papel no King Kong de Peter Jackson, como atriz selecionada por Jack Black. Por sua vez, Emma já fez par com Ryan Gosling, a quem o personagem de Norton se compara em Birdman, em dois filmes. Nesse sentido, esses atores não estão desempenhando apenas personagens, como também satirizando a própria carreira, além de remeterem às inúmeras histórias de outro livro de Carver, este adaptado para o cinema, pelo próprio Altman: Short Cuts – Cenas da vida.

Birdman 5

Birdman 11

Birdman 12

Lembrando-se que o cineasta turco Nuri Bilge Ceylan filma diálogos de 15 a 20 minutos em Winter sleep, vendedor em Cannes no ano passado, tendo como personagem central um ex-ator, Iñárritu emprega um filme que parece não ter cortes e onde tudo deve ser ensaiado, mas que quase nunca resulta no que se ensaiou. As conversas entre Riggan e seu agente, Jake (Zach Galifianakis), são divertidas porque justamente abordam essa linha de abordagem – os imprevistos da montagem teatral -, enquanto a atriz Lesley tenta obter seu primeiro sucesso na Broadway e não raramente costura algumas brigas nos bastidores, mesmo tentando, em seguida, a reconciliação. E Shiner se torna o principal ponto de provocação para Riggan, pois atrai o público para as bilheterias, a principal lembrança guardada pelo ex-Birdman dos tempos de fama e seu calcanhar de Aquiles.
Num instante em que Keaton entra num estabelecimento tomado de luzes aparentemente natalinas, mas no formato de pimentas mexicanas, Birdman também tenta voar como Enter the void, de Gaspar Noé. O espectador sente a profundidade dos ambientes, embora haja a opção, na maior parte do tempo, do diretor e de Lubezki pelos closes. É muito interessante a cena em que Keaton precisa enfrentar o Times Square (está no trailer) e as pessoas na multidão fazem comentários sobre seu estado físico ou querendo aparecer com ele em câmeras de celulares. Trata-se de uma sequência que poderia ser previsível, com sua evidente sátira ao show business, mas recebe um tratamento tão interessante por Iñárritu e Lubezki, como apoio de Keaton, que se torna quase uma síntese da narrativa. Do mesmo modo quando os personagens entram e saem do teatro como se fôssemos conhecendo diferentes níveis de consciência de cada um, sobretudo nos encontros entre Sam e Shiner no alto do teatro, de onde se pode ver a Broadway. Se, por um lado, Birdman é uma ode ao mundo do teatro e das múltiplas interpretações, ele também é um palco aberto para figuras bastante solitárias, com seus dramas de rotina.

Birdman 8

Birdman 25

Birdman 3

É a solidão de Riggan que se torna o diálogo perfeito para O fantasma da ópera, que aparece em propagandas, na Broadway, pois o personagem de Keaton não deixa de habitar os bastidores e sua persona dupla não deixa de ser um fantasma do seu eu, sobretudo por sua tentativa de conviver com as mulheres ao redor que, como aparece na peça de Carver, o abandonam ou se afastam por seu comportamento ambíguo. No entanto, é um fantasma menos taciturno, e algumas falas dele com uma crítica de teatro, Tabitha Dickinson (Lindsay Duncan), são bastante engraçadas, à medida que o desabafo se torna uma metalinguagem descompromissada. Como grande diretor de atores,  Iñárritu extrai de Keaton uma excelente interpretação (no ano passado, ele já estava bem no mais recente RoboCop), assim como do elenco coadjuvante, cumprindo à risca as mudanças de tom e direcionamentos (com destaque para os ótimos Norton, Watts e Stone) e se o filme tem um problema é não dar um desfecho à altura para cada um dos personagens.
Por meio da figura de Dickinson, Iñárritu faz, com certeza, algumas provocações pessoais ao universo da crítica, assim como leva Keaton também a falar contra quem o vê apenas como Batman, e ainda sobram referências cômicas a atores que fazem super-heróis, além da sátira às redes sociais (pela qual Jason Reitman pagou por todos em Homens, mulheres e filhos). Destacado por seu visual atrativo, Birdman é uma mescla entre estilo e substância e torna-se melhor quando o espectador se surpreende com a mudança de ambientes, mesmo dentro de um mesmo espaço, ou de situações, sempre com o ritmo de um ator que precisa jogar suas falas para a plateia de uma peça, com o calor das luzes do teatro St. James chegando também ao espectador. Há emoção nele, traduzida pelo elenco com interesse e, ainda que em seu plano mais emocional tenha elementos claros de outros filmes (como Cisne negro Asas da liberdade), é uma peça muito calibrada de cinema. Mesmo o final, aparentemente rápido demais, é capaz de estabelecer a passagem da natureza interna para a externa que o cineasta deseja mostrar, formando, com seu elenco estelar, um filme estranhamente de arte sem deixar de lembrar Hollywood. Uma obra sobre a própria vida e os clichês que costumam movimentá-la, mas não sem emoção, por meio da representação e do desejo de nunca ser o mesmo.

Birdman or (The unexpected virtue of ignorance), EUA, 2014 Diretor: Alejandro González Iñárritu Roteiro: Alejandro González Iñárritu, Alexander Dinelaris, Armando Bo, Nicolás Giacobone Elenco: Michael Keaton, Edward Norton, Emma Stone, Zach Galifianakis, Naomi Watts, Andrea Riseborough, Amy Ryan, Lindsay Duncan Fotografia: Emmanuel Lubezki Trilha Sonora: Antonio Sánchez Produção: Alejandro González Iñárritu, Arnon Milchan, James W. Skotchdopole, John Lesher Duração: 119 min. Distribuidora: Fox Film do Brasil Estúdio: Fox Searchlight Pictures / Regency Enterprises / Worldview Entertainment

Cotação 5 estrelas

Anúncios
Deixe um comentário

9 Comentários

  1. Robson Costa

     /  1 de fevereiro de 2015

    Vi ontem, filmaço. Discute muitos temas em uma narrativa só: teatro, celebridade, o que é arte (e o que seriam filmes comercias e artísticos), a influência dos super-heróis no mundo atual (isso desde o século XX mesmo que em outra mídia), e, por fim discute a “alma humana”. Grande filme.
    p.s.: só não gostei do personagem do Norton não aparecer mais depois da cena do tiro, era o personagem que falava tanto em emoção, o que ele achou disso?)

    Responder
    • André Dick

       /  1 de fevereiro de 2015

      Prezado Robson,

      Agradeço por seu comentário sobre o filme e fico feliz que também o tenha apreciado. Por todos os temas que suscita, realmente gosto muito do roteiro de Birdman. Parece fácil reunir todas essas referências, mas ele consegue, como você assinala, nisso tudo, discutir a “alma humana”. E, embora pareça para alguns exagerado, pelo modo como o filmaram, seu ritmo nunca incomoda e é essencial para os temas que discute.
      Também lamento que o personagem do Edward Norton (assim como o da Naomi Watts) não tenha um final à altura. A presença deles é excelente – e o diretor ficou devendo um pouco mais de tempo a eles.
      Obrigado pela visita e volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder
      • Márcia

         /  22 de fevereiro de 2015

        Olá, André

        Primeiro quero dizer que gostei muito da sua resenha, foi uma das mais interessantes que li sobre o filme. As muitas camadas de Birdman são pouco compreendidas. Comento aqui para deixar minha interpretação sobre o desfecho do personagem do Mike Shiner. Pra mim, ele não aparecer depois do tiro é um recurso simbólico que remete à cena final de Clube da Luta. Quando Thomson atira em si mesmo no palco, ele “mata” o Shiner, tira ele de cena no palco do teatro e no próprio filme, se desvencilha daquela personalidade conflitante para ele, e vira o grande destaque.

      • André Dick

         /  23 de fevereiro de 2015

        Prezada Márcia,

        (Aqui possíveis spoilers)

        Agradeço por seu comentário sobre o filme e a resenha. Gostei muito de sua interpretação para o fato de Mike Shiner ter “desaparecido” antes do final de Birdman. A associação com Clube da luta, no filme, me parece clara, como afirmo no texto (na figura de Norton, na briga entre os personagens dele e de Thomson, nas vozes que Thomson ouve), no entanto me parece que ela pode chegar a esse ponto que você observa. Isso me leva a acreditar que o terceiro ato pode mesmo ter concentrado tudo na figura de Thomson porque ele, ao mesmo tempo, estava afastando as outras personalidades que o perturbavam no palco e criavam essa rivalidade. E o final não deixa de ser uma aceitação de Thomson do seu alter ego e um não a Shiner, que de fato satirizava sua persona como Birdman, tentando ser mais “cult”. Além, é claro, de ser um final aberto a várias interpretações.
        Obrigado pela visita e volte sempre!

        Um abraço,
        André.

  2. umamart

     /  11 de fevereiro de 2015

    Resumindo, é um draminha sobre um cara que sofre pra ser reconhecido pelo meio porque não tem segurança de si mesmo, e daí cria um alterego que fala com ele e a ilusão de ter super poderes.
    Aparentemente tem muita gente que se identifica com isso daí. Eu passo

    Responder
    • André Dick

       /  11 de fevereiro de 2015

      Se acha que o filme se restringe a isso, tem que passar por ele direto e deixá-lo para as pessoas que admiram um “draminha” muito aquém de sua exigência pessoal, definidora de uma qualidade superior. Se assistir de novo, vai ver que “Birdman” também fala de você.

      Responder
  3. Anônimo

     /  21 de fevereiro de 2015

    Excelente filme Michael Keaton muito bem

    Responder
  4. Bruno Balestrin

     /  4 de fevereiro de 2016

    André, assisti ao filme há pouco tempo, simplesmente pela curiosidade. Me surpreendi com o filme. Lamento meu conhecimento limitado de cinema, pois não tive a felicidade de captar todas as referências apontadas por você. Mas a trama dos “clichês cotidianos” como você aponta foi realmente interessante, os solos de bateria me provocaram um estranhamento muito divertido, e, por diversas vezes, me vi confuso entre a “realidade” das personagens e suas interpretações na peça, essa dualidade foi, sem dúvidas, o ápice do filme aos meus olhos.

    Responder
    • André Dick

       /  5 de fevereiro de 2016

      Prezado Bruno,

      agradeço por seu comentário a respeito do filme e fico feliz que tenha gostado dele, pois certamente, como comenta, ele causa um estranhamento muito divertido, pelos solos de bateria e a confusão entre os personagens dentro e fora da peça. Ao contrário do que dizem, de que Birdman soa pretensioso, acho que uma de suas qualidades é satirizar a pretensão. No final do ano passado, quando estreou na TV, o revi duas vezes e o considerei ainda melhor. Um grande filme.

      Volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: