Foxcatcher – Uma história que chocou o mundo (2014)

Por André Dick

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Depois de sua estreia no Festival de Cannes de 2014, Foxcatcher – Uma história que chocou o mundo tem feito uma trajetória à altura do que se esperava para uma obra de Bennett Miller, o mesmo de Capote e O homem que mudou o jogo, filmes com atuações memoráveis de Philip Seymour Hoffman (que lhe rendeu o Oscar) e Brad Pitt e Jonah Hill, respectivamente. Miller sempre esteve preocupado com o discurso referente aos Estados Unidos – e foi assim que construiu seu início de trajetória e foi premiado como melhor diretor em Cannes. Mas Foxcatcher traz uma história, embora sobre esportes, como O homem que mudou o jogo, muito diferente: há algo nele que tenta se estabelecer para longe do discurso que adota em sua narrativa.
Baseado em fatos reais, já no início vemos os dois personagens vitais para a narrativa, os irmãos Mark (Channing Tatum) e Dave Schultz (Mark Ruffalo), treinando luta greco-romana. Mark  vive solitário, enquanto David tem mulher, Nancy (Sienna Miller) e filhos. Depois de ganhar a medalha de ouro nas Olimpíadas de 1984, Mark ainda vai a colégios tentar incentivar crianças a adotarem o esporte. Certo dia, o milionário John Du Pont (Steve Carell) o procura. Ele pretende treiná-lo para que possa competir nas Olimpíadas de Seul em 1988, e Mark precisa ir morar na sua mansão, chamada Foxcatcher e afastada de tudo. Du Pont é um indivíduo que vai se mostrando cada vez mais estranho – sempre em busca de um domínio sobre os esportistas que treina, no grupo que denomina também Foxcatcher, e por meio dos quais não quer descontentar sua mãe Jean (Vanessa Redgrave). No entanto, ele não consegue obter a participação de Dave, com quem Mark consegue treinar no seu máximo. Esta é uma história aparentemente excepcional e chama a atenção como Miller no início obtém uma transformação dos atores, principalmente Tatum, que sempre pareceu um ator intruso, e tem aqui, na primeira hora, seu melhor momento no cinema.

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Depois dessa primeira hora interessante, Foxcatcher passa a criticar o patriotismo americano muitas vezes de maneira deslocada, como se quisesse adotar um tom de autoimportância – mas filmes não são bons porque são patrióticos ou antipatrióticos, e o de Miller atesta isso. Se no início Du Pont representa a chance do “sonho americano” ser concretizado, aos poucos a sua mansão vai adquirindo uma ambientação mais fúnebre, com o cenário sempre cinza, o céu encoberto, como se os personagens estivessem num universo à parte, em que não pudessem nunca se sentir felizes, e a relação de Du Pont e Mark vai se intensificando com um comportamento misterioso e não solucionado por Miller em nenhum momento. De todos os motivos, o principal no fundo é o seguinte: Du Pont poderia ser feliz, mas não é, porque carrega os males da América, a ganância, o desejo de superar qualquer outro. E carrega a tradição de sua família, o peso de sua vida. Há uma crítica a este “sonho americano” sobretudo porque Du Pont não é exatamente o que mostra ser, repetindo isso várias vezes em seu helicóptero para que o espectador não esqueça. De qualquer modo, o filme está sempre em busca da quebra de ritmo dos personagens, e a passagem dos anos nunca fica muito clara, fazendo com que não seja bem calculada por Miller, pelo menos para o êxito da trama. Para isso, Miller se apoia no trabalho de fotografia de Greig Fraser, que fotografa o filme com os mesmos tons que adotou para o bosque de Branca de Neve e o caçador, desta vez como se estivessem infiltrados numa espécie de pesadelo e não de fábula.
Os personagens de Foxcatcher em nenhum momento esboçam uma tranquilidade ou um alívio; não raramente, servem como símbolos do que o diretor pretende dizer, e isso vem acontecendo muito desde O homem da máfia, também com Pitt: a sociedade norte-americana não pode mais ser salva, e é isso que Foxcatcher tenta reafirmar a cada instante. Se há uma espécie de glorificação do esporte nos Estados Unidos, Miller alerta para o fato de que ele pode esconder apenas seres tristes e autoconcentrados. As lutas, mesmo nas Olimpíadas, parecem não representar o esporte, sendo apenas uma antecipação para um cortejo fúnebre. O sentimento em relação ao filme pesa como chumbo, com o objetivo de fazer o espectador se sentir claustrofóbico em meio a todas as situações mostradas, sem nunca conseguir se aproximar de suas figuras. Enquanto criticam Angelina Jolie pela direção “conservadora” de Invencível, Miller ganhou em Cannes e foi indicado ao Oscar por um estilo que tenta emular o de cineastas europeus e produções da Nova Hollywood dos anos 70, porém naquela época era sinal de termos Michael Cimino, um criador de atmosferas poucas vezes visto.

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Depois de um início bastante promissor, mesmo surpreendente, Steve Carell, ao longo do filme, tenta equilibrar a prótese em seu nariz colocando sua cabeça para trás em poltronas, sofás e cadeiras, indo nisso boa parte da energia para compreender seu personagem. Aos poucos, é possível perceber que não há um minuto de espontaneidade na sua interpretação, baseada de modo fundamental no Don Corleone de O poderoso chefão, sobretudo pelos gestos mínimos e pela maneira de olhar as pessoas sem necessariamente falar, como se estivesse ameaçando. O espectador muitas vezes se sente intimidado e fica surpreso de ver o mesmo ator de O virgem de 40 anos e Amor a toda prova com um ar tão grave e comedido – a pergunta é onde estaria esse ator antes e a resposta certamente seria: em algum lugar onde não estivesse pensando em ser indicado ao Oscar. Carell é um excelente ator, mesmo com elementos dramáticos, como já mostrou em Pequena miss Sunshine, Um divã para dois e Procura-se um amigo para o fim do mundo, mas o excesso de destaque dado a ele também prejudica o filme, pois é difícil ver qualquer naturalidade em seu comportamento: o ator é mecânico em suas variações e sentimentos em relação aos demais personagens, tentando evidenciar que está representando uma persona e de como ela seria difícil de ser reproduzida. Tatum e Ruffalo poderiam oferecer essa tonalidade mais humana (ambos estão muito bem), no entanto Miller os emprega de maneira equivocada no terceiro ato, longo e monocórdio, como se tudo estivesse antecipando o clímax moral a ser atingido pelo diretor. Em vez de analisar também a relação entre os irmãos, a parcela certamente mais sensível do filme, Miller quer apenas destacar sua crítica ao sistema.
Foxcatcher, nesse sentido, é melancólico como a atuação propositadamente grave de Carell: não há nada no filme que busque compreender esses personagens, pois Miller está interessado exclusivamente nessa crítica ao establishment norte-americano. No entanto, ele, ao mesmo tempo, duvida da inteligência do espectador, colocando constantemente símbolos dos Estados Unidos: bandeiras, águias etc. para onde quer que sua câmera aponte. Esta crítica adquire, aos poucos, um tom de impropriedade, e mina toda a estrutura do roteiro, que já carece de entendimento e desenvolvimento.
Os personagens estão à deriva porque Miller, na verdade, como um diretor de dentro da indústria, não quer se comprometer: ele deixa o terceiro ato todo de Foxcatcher transcorrer em silêncio e comportamentos ambíguos porque não quer assumir de fato o seu discurso. Ele parece ter certo receio de chocar o espectador com alguma revelação que possa abalar o público a que se destina – predominantemente norte-americano – e esconde seus personagens por trás de silêncios que, ao contrário do que vemos nos filmes que inspiram Miller, os europeus, não dizem substancialmente algo de importante. O que mais Foxcatcher consegue ser é uma infalível isca para o Oscar: ele teve cinco nominações (melhor direção, ator, ator coadjuvante, roteiro original, maquiagem e cabelo), mas não a principal, de melhor filme. Talvez Foxcatcher se sinta excluído por pensar dizer alguma verdade incômoda sobre a sociedade dos Estados Unidos; mais provável é que se trata de um filme infelizmente pouco marcante. É Miller quem ao final gostaria de estar gritando: “USA! USA!”. Afastado de tudo e de todos, Du Pont tem as mesmas características deste cinema, que se afasta do espectador para tentar ser diferente, mas carrega consigo todos os clichês imaginados. E quer soar poderoso, mesmo que não seja mais do que parte do mundo, nem mais nem menos.

Foxcatcher, EUA, 2014 Diretor: Bennett Miller Elenco: Steve Carell, Channing Tatum, Mark Ruffalo, Vanessa Redgrave, Sienna Miller, Anthony Michael Hall Roteiro: Dan Futterman, E. Max Frye Fotografia: Greig Fraser Trilha Sonora: Mychael Danna, Rob Simonsen Produção: Anthony Bregman, Bennett Miller, Jon Kilik, Megan Ellison Duração: 130 min. Distribuidora: Sony Pictures Estúdio: Annapurna Pictures / Likely Story / Media Rights Capital

Cotação 2 estrelas e meia

 

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