Invencível (2014)

Por André Dick

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É comum, todo ano, escolherem um filme com todos os componentes para o Oscar e em 2014 foi o caso do segundo trabalho de Angeline Jolie à frente da direção, Invencível. Anunciado meses antes de sua estreia como o mais fácil candidato aos prêmios da Academia de Hollywood, parecia estranho, depois de seu lançamento, que a crítica e o público já haviam diminuído a expectativa. A questão é que qualquer excesso de expectativa pode ser prejudicial, ainda mais quando estamos lidando com uma das atrizes mais conhecidas de Hollywood ainda pouco experiente na direção e foi protagonista recentemente de um sucesso infantojuvenil, Malévola, dos estúdios Disney.
Particularmente, não chego a apreciar Jolie nem mesmo nos filmes em que ela despontou, como Garota, interrompida, pelo qual recebeu o Oscar de melhor atriz coadjuvante. Dito isso, não estava aguardando especialmente esta obra, apesar do interesse pela reprodução de época, à medida que Invencível se enquadra naquele tipo de biografia histórica tão aos moldes da Academia de Hollywood. Trata-se de um projeto, por tudo que o cercou, muito pessoal para a atriz e cineasta: a vida de Louis Zamperini (Jack O’Connell), que foi um atleta olímpico. O filme inicia mostrando-o como soldado, num avião B-24, em meio a uma batalha sobre o Pacífico durante a Segunda Guerra Mundial, contra japoneses. Esses minutos iniciais já compõem o que será Invencível: é um filme bastante econômico na montagem e com uma fotografia inacreditavelmente bela assinada por Roger Deakins.

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É difícil recordar outro filme recente com uma batalha aérea tão detalhada e compassada como esta que abre Invencível e, se ela é cortada por flashbacks do personagem central em direção à sua infância na Califórnia (então interpretado por CJ Valleroy), quando era perseguido por colegas e, devido à necessidade, precisava correr, passando por isso a ser treinado pelo irmão Peter (John D’Leo), logo Jolie nos coloca em meio aos objetivos de Zamperini: tornar-se atleta olímpico, para competir nas Olimpíadas de 1936. Há, nesta parte de filme, muito claramente um diálogo com Carruagens de fogo, um dos filmes de esporte mais fascinantes de todos os tempos, apesar do comum desapreço por ter recebido justamente o Oscar de melhor filme de 1981. A partir daí, é mostrada a trajetória de Zamperini, tendo de enfrentar inúmeras adversidades, tanto em alto-mar, quando está ao lado de Russell Phillips (Domhnall Gleeson) e Francis McNamara (Finn Wittrock), quanto num campo de concentração japonês, para onde é mandado e conhece Mutsuhiro“Bird”Watanabe (o músico Miyavi), que se torna seu inimigo, além de Fitzgerald (Garrett Hedlund).
Jolie, de forma reveladora, tem um olhar bastante claro para o que pretende mostrar, independente do discurso que contenha: não são poucas as vezes que Invencível dá a impressão de não ter um roteiro sólido. A cineasta deixa de se concentrar em diálogos para narrar o filme por meio de imagens, e elas nunca são menos do que impressionantes, não apenas pelo trabalho fotográfico de Deakins, mas porque o astro Jack O’Connell se coloca como uma extensão entre o espectador e o cenário. São aparadas todas as arestas, e Invencível se desenvolve de maneira ágil, mesmo ignorando sua duração. Escusado será dizer que em alguns momentos o excesso de castigos imputados a seu personagem parecem exceder o bom senso, mas O’Connell nunca deixa de carregar uma fagulha de emoção em sua atuação física que, pelas circunstâncias mostradas, lembra a de Christian Bale em O sobrevivente, de Herzog. Porém, se o filme de Herzog ainda tem uma linha de diálogos mais extensa, os silêncios de Invencível remetem mais à obra-prima de Nagisa Oshima, Furyo – Em nome da honra, que mostrava um soldado neozelandês (feito por David Bowie) enfrentando um capitão japonês (o também músico Ryûichi Sakamoto), numa estranha relação.

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Os silêncios da narrativa, entrecortados por imagens de uma ponte, interligando o campo de concentração com a civilização ou uma pintura de Hokusai num restaurante onde vai se alimentar, dialogando com as cenas em que o personagem central precisa enfrentar problemas em alto-mar, mostram uma complexidade, tornando Invencível sobre um grito recolhido, não de vitória (como Zamperini gostaria de ouvir na pista de corrida), mas de desespero, diante da barbárie a que é submetido. Angelina Jolie tem um olhar muito claro em relação ao que deseja mostrar a partir de um roteiro adaptado por Richard LaGravenese e William Nicholson, e também pelos irmãos Joel e Ethan Coen, do romance de Laura Hillenbrand (autora de Seabiscuit): para ela, a história é feita da insistência em não ser esquecido e os elementos da natureza que são dispostos (do ar, passando pela água, depois pelo fogo e pela terra, quando é preciso enfrentar o trabalho forçado) ajudam a formar não apenas a narrativa, como o próprio personagem central. E a arte e os esportes são uma maneira muito clara de eternizar a própria condição efêmera da guerra. Invencível se propõe a colocar o personagem dentro dessa rede de conceitos interessante, fazendo com que ele possa se autossolucionar independendente de sua imagem ligada à guerra. Apenas se lamenta que, com esse destaque dado ao personagem central quase de forma absoluta, alguns personagens coadjuvantes não possam ter um desenvolvimento maior, como o de Fitzgerald.

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Embora haja alguns elementos patrióticos no filme, eles não são excessivos quando condicionados pela atuação de O’Connell, que realmente representa esse elenco com a força necessária individual (e parecem menos previsíveis do que a crítica ao patriotismo ianque de um Foxcatcher). Deakins faz um passeio pela história proporcionando ao espectador imagens aproximadas a quadros de ambientes que realmente existiram, e para isso o desenho de produção e o figurino atuam com perícia. Jolie, num terreno já frequentado antes por grandes e renomados cineastas, como Clint Eastwood, consegue encontrar emoção e estranheza na condição de Zamperini diante do que precisa enfrentar.
Não se trata de um caminho fácil; assim como mostra a contemplação diante de cenas fortes graficamente, Jolie compõe algumas cenas de movimento com grande êxito, como aquelas em alto-mar, que se aproximam do trabalho de Ang Lee em As aventuras de Pi, no entanto com uma tensão própria. É notável, em igual escala, o modo como a claridade é captada por Deakins no início do filme, com os flashbacks da infância de Zamperini, e o quanto ela vai desaparecendo, embora não totalmente, ao longo do filme, até se conciliar à frieza dos trabalhos forçados num cenário completamente cinza. Se está sendo feito um filme com base na história, esta não pode ser colocada em segundo plano, assim como a narrativa, em busca sempre de um equilíbrio. Mesmo que Invencível se sinta de algum modo como um projeto em construção (comenta-se que a montagem não teve concordância completa da diretora), principalmente ao final, quando cede a um intervalo mais pop, ele tem uma força e ressonância próprias, capazes de fazer o espectador se interessar não apenas pelo tema, como também pela própria figura enfocada e sua constante superação pessoal. Este filme é um relato de sobrevivência transparente tanto de um indivíduo quanto de um tipo de cinema que retoma o passado procurando esclarecer os caminhos a seguir.

Unbroken, EUA, 2014 Diretor: Angelina Jolie Elenco: Jack O’Connell, Domhnall Gleeson, Garrett Hedlund, Finn Wittrock, Jai Courtney, Alex Russell, Luke Treadaway, Miyavi Roteiro: Richard LaGravenese, William Nicholson, Joel e Ethan Coen Fotografia: Roger Deakins Trilha Sonora: Alexandre Desplat Duração: 137 min. Distribuidora: Universal Pictures Estúdio: 3 Arts Entertainment / Jolie Pas / Legendary Pictures

Cotação 4 estrelas

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8 Comentários

  1. muito bom a critica ,….

    Responder
  2. Ótima crítica, cita as referências sem excesso de verborragia, me fez compreender melhor, obrigada por isso!!

    Responder
    • André Dick

       /  27 de janeiro de 2015

      Prezada Fátima,

      agradeço por seu comentário generoso e fico feliz que o texto tenha ajudado no entendimento do filme. Embora eu não seja admirador da atriz Angelina Jolie, como afirmo acima, se fosse de um diretor mais reconhecido “Invencível” seria recepcionado, de maneira geral, como um clássico silencioso e profundo.

      Obrigado pela visita e volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder
  3. Paula Rocha

     /  12 de julho de 2015

    Spoilers abaixo

    Excelente reflexão!

    Só queria que você me esclarecesse o que quis dizer quando colocou que, ao final o filme cede a um intervalo mais pop. Foi por causa da música do Coldplay? Ou por causa das imagens reais de Zamperini?

    Responder
    • André Dick

       /  13 de julho de 2015

      Spoilers abaixo

      Prezada Paula,

      Agradeço novamente por sua mensagem! O intervalo pop a que me refiro é exatamente por esses dois motivos. Primeiro, aquele trecho com imagens de Zamperini com mais idade, fazendo com que o final pareça o trecho de um documentário, me pareceu muito abrupto e faz uma concessão certamente para o Oscar, que ignorou, infelizmente, o restante. E a música do Coldplay funcionaria, a meu ver, se a trilha anterior antecipasse essa faceta pop, como em Maria Antonieta, mas o adendo parece ter sido apenas para tentar uma indicação ao Oscar de canção para a banda. Problemas pequenos num filme admirável e certamente subestimado.

      Obrigado pela visita e volte sempre!

      Grande abraço,
      André

      Responder

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