Whiplash – Em busca da perfeição (2014)

Por André Dick

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As proximidades da temporada de premiações em Hollywood costumam anunciar uma série de filmes com predisposição a conquistar prêmios e a crítica. No ano passado, tivemos talvez a melhor safra desde que o Oscar começou a selecionar nove ou dez títulos na categoria principal. Mas, entre eles, há sempre obras superestimadas, com uma qualidade inferior à recepção que atingem. Em 2013, este era o caso de O lado bom da vida e em 2014 de Trapaça, ambos curiosamente de David O. Russell e com qualidade, mas não a ponto de serem indicados a todos os prêmios principais.
Este ano o filme independente com força para estar em inúmeras listas e premiações é Whiplash – Em busca da perfeição. Seu tema não é corrente no universo cinematográfico – o mundo dos alunos de jazz – e não é comum a parceria existente entre Miles Teller e J.K. Simmons. Teller faz Andrew Neiman, que entra no Conservatório Schaffer. Ele deseja ser um baterista reconhecido e nos horários de folga costuma ir ao cinema com o pai Jim (Paul Reiser), enquanto se interessa por uma universitária que trabalha nele, Nicole (Melissa Benoist). É também observado pelo exigente professor Terence Fletcher (Simmons), que o convoca a participar de sua banda, para tocar, entre outras composições, aquela que dá nome ao filme e cuja altura da voz ultrapassa a dos solos de bateria. Enquanto tenta participar do melhor modo da banda, Andrew é constantemente pressionado a melhorar – e cadeiras podem voar na sua direção se não atender ao que o professor exige.
O diretor Damien Chazelle soube tocar as plateias que assistiram a Whiplash, e isso lhe rendeu inicialmente prêmios no Festival de Sundance. Depois, ele soube selecionar dois grandes nomes para os papéis principais: Teller se afirmou, depois do interessantíssimo Reencontrando a felicidade, no ótimo e quase esquecido O maravilhoso agora, no qual tem seu melhor momento como ator, e Simmons é um dos nomes preferidos de Jason Reitman, curiosamente o produtor executivo deste sucesso de público e crítica nos Estados Unidos quando dirigiu esta temporada o superior Homens, mulheres e filhos (em que aparece Simmons). Whiplash tem um roteiro com elementos interessantes, como o duelo interno entre as personalidades de Andrew e Fletcher.

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Mas Chazelle não esconde a sua inexperiência e, se há excelentes enquadramentos no momento em que os músicos se reúnem, e a montagem é satisfatória o bastante para que nunca percamos de vista os personagens centrais (auxiliada pelo fato de que Teller realmente tem experiência como baterista), falta a ele o que havia em Alan Parker quando dirigiu o excepcional Fama, do qual Whiplash extrai muito, desde o sonho de ser artista e reconhecido até seus momentos em que a plateia entra em simbiose com o personagem principal e a torcida é voltada para seu sucesso, além da primeira meia hora, com a disposição dos integrantes em estúdios de música. Parece não haver uma tentativa maior de estabelecer ligações entre os personagens e analisar a fundo o que exige a fama e como músicos a exemplo de Andrew querem se transformar em ídolos para, então, combater os próprios ídolos num patamar exigente de competição entre aqueles que não são considerados menos do que geniais. Para Whiplash, a arte é uma maneira apenas de sobrepujar o outro e os gênios não compõem, são apenas intérpretes com força e devem ser acordados de preferência com um balde de gelo ao lado. Não pode haver amizade entre quem investe na competição e para se atingir o sucesso é preciso não dar espaço (nisso, quem derrama lágrimas deve se lembrar de que não sofreu nada). Ao mesmo tempo, as comparações que o filme faz do personagem com o saxofonista Charlie Parker, cuja cinebiografia, Bird, foi feita por Clint Eastwood nos anos 8o, não são corretas, pois este foi um criador musical incomum, e não alguém dedicado puramente à virtuose.
Em meio à trama central, Whiplash necessitaria de um roteiro mais interessante, com personagens coadjuvantes mais expressivos. A utilização de Nicole como interesse amoroso e do pai são caminhos aceitáveis, mas em Whiplash eles não são sequer elaborados. Há uma fala de Nicole numa lanchonete em que ela menciona o que o roteiro deveria desenvolver, mas não consegue, por isso coloca em sua personagem uma espécie de síntese. São detalhes que apenas circulam ao redor da trama principal, mas eles parecem subitamente expostos, assim como uma reunião em que Andrew quer deixar claro a todos que está sendo colocado em segundo plano.

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Impressiona, neste caso, não que Whiplash seja visto como um representante de qualidade do cinema independente, mas que outros filmes potencialmente superiores nesse campo sejam deixados em segundo plano. Também em razão das atuações vigorosas de Teller e Simmons, há uma constante vontade em Whiplash de estabelecer agrados por meio dos personagens centrais, evitando que Andrew e Fletcher sejam mais do que iguais ou opostos; havia realmente complexidade nesta relação, que o diretor reduz a solos de bateria não apenas pelo tema, mas porque não tem real interesse em ver tudo além de um embate entre mestre e aluno. Mais interessante é ver como Andrew vai mostrando sua aversão a críticas alheias e comportamentos capazes de ignorar seu talento; se no início Teller faz um jovem recém-saído da adolescência com receio de demonstrar suas habilidades como músico, Whiplash mostra, aos poucos, como é possível buscar crescimento em sua própria aversão ao receio de demonstrar sua explosão pessoal. Este é um filme sobre um personagem que surge de uma determinada maneira e progressivamente piora, em busca da homenagem à virtuose – e parece ser aqui que a história é basicamente sobre um indivíduo autocentrado. A música, em Whiplash, não representa uma libertação, mas sim aquilo que irá prender seu personagem; é uma sensação estranha, mas parece ser o que mais agrada ao espectador.
No entanto, os caminhos adotados pela narrativa não são o bastante para transformar o filme numa referência como os músicos do jazz são para Andrew, ou seja, os conflitos entre aprendiz e mestre nunca trazem algo de realmente original – e Fletcher dirá impropérios contra o pai de seu pupilo por este não ser o que sonhou, numa espécie de verniz psicológico desnecessário. Não chega a haver intensidade nos conflitos que não tenha sido vista antes com mais propriedade em Cisne negro (entre os personagens de Vincent Cassel e Natalie Portman) ou Sociedade dos poetas mortos (embora Simmons não tente ser agradável como o professor feito por Robin Williams).
Ainda assim, há algo nele profundamente sincero, em meio aos seus problemas narrativos: assim como o próprio diretor, embora pareça, os personagens de Whiplash não estão interessados no que a plateia vai considerar de seu talento ou não; eles simplesmente se entregam ao momento para obterem a rivalidade a ser buscada em qualquer situação. É exatamente o que a plateia tem em mãos: Whiplash parece ter um monte de talento guardado, mas ele pouco está interessado na sua recepção. É, na verdade, uma história sobre um mentor e um aprendiz que se unem para ignorar o público. Para eles, esta é a perfeição a ser buscada.

Whiplash, EUA, 2014 Diretor: Damien Chazelle Elenco: Miles Teller, J.K. Simmons, Melissa Benoist, Paul Reiser, Austin Stowell, Nate Lang Roteiro: Damien Chazelle Fotografia: Sharone Meir Trilha Sonora: Justin Hurwitz Produção: David Lancaster, Helen Estabrook, Jason Blum, Michel Litvak Duração: 106 min. Distribuidora: Sony Pictures Estúdio: Blumhouse Productions / Bold Films / Right of Way Films

Cotação 2 estrelas e meia

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