Melhores filmes de 2014

Por André Dick

Melhores filmes de 2014.Cinematographe

O ano de 2014 já iniciou com uma série interessante de indicados ao Oscar: o espectador pôde acompanhar a relação de um homem com um programa de computador, a história de um escravo em luta por sua liberdade humana e familiar, o reencontro entre um pai e um filho numa viagem de carro e um milionário em convivência direta com uma dose extra de componentes ilícitos, além de sua dificuldade em entrar no seu carro de última geração. Também em janeiro, foram exibidos dois filmes referenciais de Leos Carax, dos anos 80: Boy meets girl e Sangue ruim. Depois, ao longo do ano, os lançamentos em grande proporção fizeram o panorama, lado a lado, com lançamentos de circulação mais restrita, além de mostras particulares e festivais paralelos que acontecem pelo Brasil.
Algumas grandes alegrias deste ano podem ser encontradas em filmes que merecem encontrar o grande público, a exemplo de Nós somos as melhores!Heli e Ida. E difícil imaginar ver um filme que trouxesse personagens basicamente sentados diante de uma mesa – o de Manoel de Oliveira – menos desgastante do que alguns blockbusters.
Também um ano em que falar bem de Interestelar virou, algumas vezes, sinônimo de ser fã de Cristopher Nolan. Em relação a quem se atreve a dialogar com 2001, bons seriam quem tenta reproduzir O poderoso chefão II Era uma vez na América (James Gray) ou Nicolas Roeg e novamente Stanley Kubrick (Jonathan Glazer). O espectador pôde vivenciar novamente a infância, seja por meio de Linklater, Jeunet ou Wes Anderson. A despedida de Miyazaki do universo da animação. As novas tecnologias puderam ser sentidas de várias maneiras, principalmente nas obras de Spike Jonze e Jason Reitman.
Para cada obra de Manoel de Oliveira, de Wes Anderson, de Von Trier, apenas um sinal que destoa: as salas têm se dedicado a passar animações efêmeras, filmes de terror e suspense e comédias com qualidade duvidosa principalmente desde 2010. Mas é assim também nos Estados Unidos e na Europa. Os lançamentos de alguns belos filmes ficaram para próximo ano: vejamos Luz depois das trevas, que chegou a ganhar uma data de lançamento em meados do ano e novamente não foi lançado. Mapas para as estrelas e Dois dias, uma noite chegaram a ganhar datas de lançamento também, mas ficam para ano que vem. Outros saíram diretamente em home video, como Apenas Deus perdoa, Vida de adulto, Temporário 12, O maravilhoso agora e Cores do destino (citados especialmente porque estariam nessa lista de melhores do ano).
Filmes da cadeia de blockbusters acabaram apagando uma obra como Transcendence – A revolução, ao mesmo tempo que tivemos no início do ano Noé e o surpreendente RoboCop de Padilha, em seguida a animação em stop-motion Uma aventura LEGO, na metade filmes de heróis da Marvel: Homem Aranha, Capitão América e Guardiões da galáxia. Houve a grande surpresa de bilheteria A culpa é das estrelas; o regresso de Luc Besson ao thriller pop em Lucy; Tom Cruise em mais uma ficção, No limite do amanhã; Woody Allen em Magia ao luar; Clint Eastwood em Jersey Boys (no final do ano, ele ainda lançou mais um nos Estados Unidos, American sniper). Também foi um ano rico para os fãs de Sin City, X-Men, 300, Transformers, Muppets, Rio, Como treinar seu dragão, Planeta dos macacos e Jogos vorazes. E o cinema brasileiro teve destaques, desde Hoje eu quero voltar sozinho a Entre nós (este com o melhor elenco brasileiro do ano).
Os filmes avaliados para a lista estrearam no Brasil entre janeiro e dezembro de 2014, inclusive aqueles indicados ao Oscar de 2013. Não foram avaliados filmes exibidos apenas em festivais ou que estrearam nos Estados Unidos e virão estrear no próximo ano em circuito comercial no Brasil.
Cinematographe apresenta primeiro duas listas (uma de menções honrosas e outra de filmes considerados superestimados ou decepções).

Menções honrosas

Oslo, 31 de agosto (Joachim Trier), Mesmo se nada der certo (John Carney), Planeta dos macacos – O confronto (Matt Reeves), O ciúme (Philippe Garrel), Guardiões da galáxia (James Gunn), Sem evidências (Atom Egoyan), Eles voltam (Marcelo Lordello), Magia ao luar (Woody Allen), Entre nós (Paulo Morelli), Uma aventura LEGO (Phil Lord, Cristopher Miller e Chris McKay), Clube de compras Dallas (Jean-Marc Vallée), Jogos vorazes: A esperança – Parte 1 (Francis Lawrence), Oldboy – Dias de vingança (Spike Lee), O menino e o mundo (Alê Abreu), Anjos da lei 2 (Phil Lord e Cristopher Miller), O abutre (Dan Gilroy), Êxodo: deuses e reis (Ridley Scott), Philomena (Stephen Frears), A menina que roubava livros (Brian Percival), Hoje eu quero voltar sozinho (Daniel Ribeiro), Ninfomaníaca – Volume II (Lars von Trier), Trapaça (David O. Russell), Confissões de adolescente (Daniel Filho e Cris D’Amato), Noé (Darren Aronofsky), Pais e filhos (Hirokazu Koreeda)

Decepções e/ou superestimados

Inside Llewyn Davis – Balada de um homem comum (Joel e Ethan Coen), Sob a pele (Jonathan Glazer), O passado (Asghar Farhadi), Mommy (Xavier Dolan), Riocorrente (Paulo Sacramento), Até o fim (J.C. Chandor), Bem-vindo a Nova York (Abel Ferrara), Garota exemplar (David Fincher), Era uma vez em Nova York (James Gray), The Rover – A caçada (David Michôd), Godzilla (Gareth Edwards), Miss Violence (Alexandros Avranas), Lucy (Luc Besson), Relatos selvagens (Damián Szifron), Praia do futuro (Karim Aïnouz), Debi e Loide 2 (Peter e Bobby Farrelly), John Wick – De volta ao jogo (Chad Stahelski e David Leitch), O lobo atrás da porta (Fernando Coimbra), O teorema zero (Terry Gilliam), Amantes eternos (Jim Jarmusch)

A seguir, a lista do Cinematographe com os 30 melhores filmes de 2014. Junto com ela, agradeço por sua leitura e companhia durante o ano.

Melhores filmes.Virgínia

Virgínia é a visão contemporânea de Coppola, que se arrisca a abandonar a grandiosidade de projetos que levaram sua Zoetrope à complicação financeira dos anos 80, como O fundo do coração e Cotton Club, mas é também a de um realizador que filma digitalmente um dos filmes mais bem fotografados dos últimos anos. As imagens de Virgínia gravam na memória como se fossem imagens de um livro distante e familiar, com uma espécie de relevo. É o bastante para torná-lo um filme a ser descoberto. Leia mais.

Melhores filmes.Fruitvale Station

É o personagem central deste filme, Jordan, quem acaba trazendo a ideia de que algo diferente poderá acontecer, desviando-se dos fatos, e é este fio de esperança que sustenta a narrativa. Pode-se assistir esta estreia na direção de Ryan Coogler com o pensamento de que se trata de uma história banal – sobretudo porque pode se confundir um ser humano com estatísticas –, entretanto Fruitvale Station nos faz lembrar de momentos que definem toda uma existência e a necessidade do afeto. Leia mais.

Melhores filmes.Jersey Boys

Muitos comentários feitos a respeito de Jersey Boys – Em busca da música se concentram no fato de que Clint Eastwood não era o diretor mais apropriado para dirigi-lo, pois é um filme que teria características muito diferentes de sua trajetória como cineasta. Talvez nesse sentido Eastwood seja apenas indicado para viver policiais de San Francisco que caçam criminosos a todo custo ou cowboys com conflitos existenciais no Velho Oeste. É justamente por ter dirigido desde os anos 90 filmes que quase não possuíam traços de humor ou músicas que Jersey Boys se torna tão interessante na filmografia de Eastwood.

Melhores filmes.À procura

Desde o início de À procura,  as imagens devem ser lidas, e apenas aparentemente querem evocar Fargo, dos irmãos Coen – há algo mais embaixo dessa superfície, e quando vemos uma das personagens saindo de uma festa onde teve de lidar com seu passado Egoyan nos mostra um parque de diversões à noite, como se ela estivesse ainda na noite imposta por A flauta mágica, de Mozart. Ryan Reynolds tem seu grande papel nesta nova obra de Atom Egoyan. Leia mais.

Melhores filmes.Amores inversos

A narrativa segue um ritmo do cotidiano, sem grandes acontecimentos, no entanto com uma fotografia cuidadosa de Kasper Tuxen, iluminando ambientes do interior ou da periferia de uma cidade, a diretora Liza Johnson delineia bem o afastamento da personagem central: Kristen Wiig mostra a sensação de alguém que está afastada do mundo na mesma medida em que tenta fugir do lugar-comum (a sequência em que ela tenta se inscrever na biblioteca mostra o seu talento). Leia mais.

Melhores filmes.Walt nos bastidores de Mary Poppins

É interessante como um filme no estilo de Walt nos bastidores de Mary Poppins pode ser visto apenas como sentimental. Não raro isso abre um espaço para aquilo que deve ser, na verdade, questionado em filmes cuja elaboração e pretensão se fixam num discurso que ronda sempre uma certa amargura visivelmente proposital para incomodar, mesmo que não que seja verdadeira ou se traduza em diálogo com o espectador, mantendo-se sempre perto de um conceito, teoria ou citação para serem cultuados e respeitados. Ou seja, há uma leveza nítida em Walt nos bastidores de Mary Poppins, mas bem menos prejudicial do que uma erudição calculada. Leia mais.

Melhores filmes.Uma viagem extraordinária

Cercado de uma direção de arte impecável, proporcionando a vontade de emoldurar as suas imagens, Uma viagem extraordinária é um dos filmes mais humanos lançados recentemente, e, na mesma medida em que tem pretensões artísticas, procura um diálogo direto com o universo infantil, com uma linha narrativa situada entre o poético e o tom de lição de moral, por vezes até simples, ainda que sem o lugar-comum. Há filmes que fazem o espectador se sentir bem, e Jeunet consegue lidar com este caminho como poucos cineastas. Leia mais.

Melhores filmes.A culpa é das estrelas

São delicados os diálogos sobre a importância de cada um, a necessidade de deixar uma memória e eles não vêm embalados meramente como pílulas de sabedoria, com os personagens recitando cada palavra como se pensassem apenas levar o espectador a ter um determinado sentimento. Isso não faria justiça ao trabalho de Woodley e Elgort. O diretor Josh Boone atinge um ponto delicado de afirmação desses personagens, que liberam a dor a ser sentida. Se essa dor vem com certa manipulação, a qualidade narrativa e o elenco de A culpa é das estrelas não deixam esquecer que este é um filme de verdade. Leia mais.

Melhores filmes.Transcendence

Pfister certamente não está conduzindo a humanidade, em seu filme, a uma fuga dos compromissos modernos e contemporâneos por meio dos computadores, mas vendo a base desse sentimento pela consciência artificial. Neste sentido, Transcendence, mais do que pontos bastante interessantes a serem discutidos, foge a qualquer traço de simples filme comercial, daí sua maior originalidade e aquilo que equivale a seu título. Leia mais.

Melhores filmes.Planeta solitário

Loktev mostra como uma determinada situação pode fazer um casal olhar não para o que até então procurava – paisagens com peso turístico e de recordação contínua –, mas para dentro de si mesmos, com os conflitos mais incontornáveis, em que um gesto de ajuda pode significar mais do que se imagina – e também a revolta pode existir em razão de desacordos não explícitos. E o que se consegue com este material a princípio limitado é realmente insinuante, dispondo algumas temáticas implícitas. Leia mais.

Melhores filmes.RoboCop

Quando se importa em quantos milésimos de segundo alguém será morto, o filme pergunta se a vida de uma criança em cena de guerra será realmente importante para quem fabrica armas – e a relação do RoboCop com o filho estabelece uma ligação direta com o início do filme em Teerã. Padilha trata o personagem não com reverência, mas como parte de um contexto, sem afastá-lo, no entanto, de sua mitologia e da diversão. Talvez toda a comparação existente com o original e um certo saudosismo ofusquem o mais evidente: o novo RoboCop é impressionante. Leia mais.

Melhores filmes.Cães errantes

Em termos de cinema decisivamente experimental, Cães errantes é o significado próprio dessa condição, embora se perca em alguns enquadramentos exaustivamente extensos, como se o significado precisasse ser dado pela ruptura com o espaço-tempo e tudo que significasse a realidade desses personagens estivesse ligada a uma espera bastante incisiva. Não é exatamente fácil fazer este tipo de cinema experimental: se existe uma sensação de que o diretor se excede e improvisa, pode-se ver, por outros filmes com essa mesma tentativa, que é muito difícil envolver o espectador por vários minutos com uma sequência determinada de rotina. Leia mais.

Melhores filmes.Ninfomaníaca - Volume I

A personagem central deste filme de Lars von Trier não consegue sentir prazer no sexo; mais, como a personagem de Kirsten Dunst em Melancolia, o sexo é apenas um símbolo de escape da própria personalidade, perdendo-se num espaço vazio, em que a personalidade ou o desejo de se preocupar com o que a outra pessoa está sentindo não é mais presente (o que se apresentava também em Shame, de forma menos interessante). Leia mais.

Melhores filmes.Nós somos as melhores!

Nós somos as melhores! revela como poucos filmes a sensação de descoberta da adolescência: estão lá os primeiros momentos em que reunir uma coletânea de músicas era uma salto para a descoberta de uma rebeldia não apenas posada, mas capaz de estabelecer afeto, e o significado de que a música pode representar, mais do que uma diversão, uma maneira de estabelecer ligação entre pessoas tão diferentes. Leia mais.

Melhores filmes.O gebo e a sombra

Embora se diga que este estilo teatral é seguido por causa de sua idade, o que Oliveira faz aqui não é pouco: por meio de um elenco de grande qualidade e uma troca rápida de diálogos, O gebo e a sombra, passado praticamente diante de uma mesa, com um ar soturno de uma casa que dificilmente viu ou vê a claridade do dia, oferece a sensação de ter mais movimento e emoção do que muitos blockbusters recentes. Leia mais.

Melhores filmes.O Hotel Budapeste

Para Wes Anderson, sempre pode haver no microscópio algo a ser transformado, atingindo tamanho desconhecido. Tudo é muito ordenado neste universo, desde a direção de arte que dialoga novamente com a de O iluminado, de Kubrick, e de filmes como A viagem do capitão TornadoNicholas e Alexandra Arca russa, até a fotografia e seus movimentos sempre calculados ao extremo, porém Anderson reflete sobre a violência histórica que também pode atravessar e perturbar este universo a princípio intocado. Leia mais.

Melhores filmes.12 anos de escravidão

A saída mais elaborada por McQueen de uma possível dramaticidade forçada é exatamente seu realismo narrativo e montagem trepidante. 12 anos de escravidão é um dos filmes mais bem arquitetados dos últimos anos, no qual não se percebe a passagem do tempo, mas sentimos todo o peso dela nos minutos em que vemos Solomon ficar às voltas com seus algozes. Sua amizade com Patsy é também uma das pontes estabelecidas mais sensíveis, um diálogo direto da amizade entre Celie e Sofia em A cor púrpura. Junto à montagem, a trilha sonora de Hans Zimmer composta para 12 anos de escravidão é esplendorosa. Leia mais.

Melhores filmes.O lobo de Wall Street

Este filme pode ser, além de grande cinema – nem todos o receberam assim –, o primeiro real acerto na parceria de Martin Scorsese com DiCaprio. Na verdade, seus encontros nunca haviam dado realmente certo, sempre cercados por uma necessidade de provarem a si mesmos que podem conquistar o mundo. Quase como Jordan Belfort. E aqui estamos: O lobo de Wall Street, embora não possa ser enquadrado num gênero definido, é também, por causa dos dois, uma das melhores tragicomédias dos últimos tempos. Leia mais.

Melhores filmes.A imagem que falta

Este documentário, que perdeu o Oscar de filme estrangeiro injustamente para A grande beleza, mostra os efeitos do regime no Camboja sobre o seu narrador. A maneira como ele conta de que os seus familiares foram desaparecendo (pais, irmãos, primos), depois de expulsos de Phnom Penh, quando ele tinha apenas 13 anos de idade, em 1975, para dar lugar a um trabalho escravo em lavouras e plantações, interrompidas apenas por palestras sobre como todos deveriam estar reunindo sob um determinado manto de justiça, é lancinante.

Melhores filmes.Nebraska

Nebraska mostra que a herança é uma espécie de sonho particular estendido às novas gerações, e Bruce Dern revela esta ideia da melhor forma, numa atuação contida e comovente. O diretor Alexander Payne mais uma vez não desaponta quem espera uma narrativa com elementos de humor, e, ao mesmo tempo, densa e trabalhada num crescente. Seu filme mais introspectivo até o momento, Nebraska nos faz lembrar de como o ser humano pode se reconhecer sempre não apenas pelo passado, como também pelo futuro, por mais limitado que pareça, afinal, segundo Payne, tudo pode reservar um alento. Leia mais.

Melhores filmes.Vidas ao vento

Com vários simbolismos remetendo à passagem rápida do tempo, principalmente para Naoko, como as nuvens no céu, Miyazaki consegue mesclar informações históricas com uma narrativa que contempla a cultura oriental em detalhes. O resultado é uma animação não apenas com pano de fundo real, como também com sentimentos reais e uma cena final especialmente tocante. Como Ponyo e Meu amigo Totoro, este é um exemplo de desenho animado impressionante.

Melhores filmes.Homens, mulheres e filhos

Parece precipitado classificar esta nova obra de Jason Reitman, que nos lembra das relações também fora desse universo como algo escapista, sob o ponto de vista de predominância da tecnologia, principalmente quando sua qualidade é maior do que está sendo apontada e seus temas são permanentes. Há elementos de afeto e de aproximação em cada personagem e, ao mesmo tempo, uma ideia de que a solidão é apenas aparente quando vista diante de um universo em expansão, podendo ser revertida por uma simples visita à janela de casa. Leia mais.

Melhores filmes.Heli

Heli tem várias cenas em que há uma opressão, tanto aquelas que se passam na fábrica quanto na casa ou mesmo numa planície deserta, levando o espectador a um lugar desconhecido, também para os personagens. Não apenas essa opressão – a das inter-relações que parecem cada vez mais vagas –, como também a suspensão de qualquer confiança no aparato policial que serviria normalmente de ajuda para superar o desastre existencial pelo qual os personagens passam marca Heli de ponta a ponta. Mas tudo isso pode escapar à rotina se há um parque de diversões ou se finalmente as crianças da casa podem dormir abraçadas diante de uma cortina aberta. Leia mais.

Melhores filmes.O homem duplicado

Se havia problemas em Os suspeitos, em razão dos excessos de metragem e de tentativas de fazer reviravoltas, O homem duplicado cresce justamente por causa de seu minimalismo, oposto à literatura de Saramago (do qual Villeneuve preserva o trabalho simbólico, mesmo que reinventado): quando se vê, o filme passou de forma tão ágil que gostaríamos logo de retomá-lo para tentar procurar outras pistas para o esclarecimento (nunca total, apesar de diversas interpretações) da obra. Leia mais.

Melhores filmes.O grande mestre

A parceria entre Leung e Ziyi se dá num plano de duelo e de ressonância emocional, um interesse amoroso que se perde por meio de cartas, mas que vai desaparecendo conforme as estações mostradas pelo diretor com a sensibilidade de descoberta. O amor entre os dois é como a troca de palavras colocada no lugar da luta. No entanto, no caso deles, o silêncio pode provocar um apego ainda maior à melancolia, e O grande mestre se mostra o símbolo mais próximo da passagem de tempo. Leia mais.

Melhores filmes.O hobbit

Se a partir do segundo filme poderia haver uma desconfiança em relação a Peter Jackson, ele finaliza a trilogia com um êxito que certamente traria percalços a quem não dirigiu O senhor dos anéis. O hobbit – A batalha dos cinco exércitos não é apenas um grande filme de fantasia ou de ação, ou uma adaptação à altura do universo imaginado por Tolkien. Do mesmo modo, não é um filme apenas para os fãs dessa obra, como muitas vezes é recebido, e sim para quem admira um cinema no qual é possível rever e guardar parte da própria imaginação. Leia mais.

Melhores filmes.Ela

A principal ideia de Ela, que parece não oferecer a segurança para um filme, torna-se, aos poucos, cada vez mais plausível e, quando percebemos, estamos inseridos na história de amor talvez mais original já feita, não exatamente pela relação virtual, e sim como ela é abordada de modo verdadeiro e sem artifícios. Quando Samantha diz a Theodore que ele a ajudou a se descobrir, não estamos mais lidando com um sentimento virtual, com uma fuga da realidade, desculpando-se pela solidão, mas com o pleno entendimento do amor. É o que torna Ela um filme tão próximo, com seu universo aparentemente tão distante: ele nos lembra de nós mesmos. Leia mais.

Melhores filmes.Ida

A fotografia em preto e branco de Ida não corresponde apenas a uma escolha estética, mas ao fato de que não apenas o seu tema está divido entre o que está descoberto e o que é implícito. Os personagens precisam enfrentar o inverno exterior como as perdas que ficam escondidas dentro: a neve que o sol não derrete em determinado momento é tão nebulosa quanto o espectro de um passado que a personagem central precisa encontrar, a fim de se reerguer de uma vida misteriosa. Leia mais.

Melhores filmes.Interestelar

Em Interestelar, e poucos filmes conseguem isso com a mesma ênfase e sem reduzir os personagens a símbolos, o amor se revela no plano da memória, mas uma memória sem tempo definido. Filhos encontram pais e vice-versa, no entanto não sabemos quais são aqueles capazes de demonstrar melhor a memória da humanidade. Podem existir outros planetas, no entanto quem fornece sentido a eles é a ligação entre seres diferentes. Cristopher Nolan e Matthew McConaughey oferecem uma emoção memorável nesta viagem tanto ao espaço sideral quanto para dentro de cada um. Leia mais.

Melhores filmes.Boyhood

Nesta obra, Linklater não trabalha o roteiro de modo a trazer núcleos determinados, que chamem especial atenção do espectador, ou que sejam demarcados, nem com pontos-chave que sejam recuperados ao longo dos anos, mas de uma forma aparentemente dispersa, no entanto bastante orgânica, sem grandes saltos no comportamento dos personagens. Esta aparenta dispersão, e ela poderia se explicar também pelos saltos temporais nas filmagens, não atinge o núcleo do filme, nem o impede de ter diálogos que fluem de maneira preciosa, mesmo que não estejam interligados com clareza. Com 165 minutos, Boyhood demarca um tempo raro. Leia mais.

Melhores filmes de 2014.Cinematographe

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8 Comentários

  1. Marcelo

     /  7 de janeiro de 2015

    Melhor lista que vi até agora de filmes de 2014. Vou guardar alguns pra assistir. Mas acho que podia incluir de outros meios, além do cinema. Parabéns.

    Responder
    • André Dick

       /  7 de janeiro de 2015

      Prezado Marcelo,

      agradeço por seu comentário generoso a respeito da lista. Em relação a outros meios, eu seleciono a partir dos lançamentos de cinema para justamente ter como base o circuito comercial, não apenas de festivais ou outros meios de assistir ao filme. Foi lançado um bom número de filmes interessantes no cinema, a meu ver, sem precisar recorrer àqueles exibidos por enquanto em festivais (o que resulta não raramente apenas em listas “cults”; leia-se: de filmes que pouquíssimos conseguiram ver e só por isso necessariamente são bons). Mas é uma escolha que cabe a cada um.
      Volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder
  2. Paula Rocha

     /  14 de janeiro de 2015

    Também gostei da lista. Vou anotar os que ainda não assisti.
    Concordei com seu comentário por optar pelos filmes de cinema comercial, pois são os que nos dá possibilidade de assistir. E claro, você pensa nos seus leitores. Como eu, morando numa cidadezinha do interior de Goiás, poderia assistir filmes em festivais? Gosto de sua seleção de filmes para resenhar. Você não opta apenas pelos “cult”, tentando fazer uma separação entre arte e entretenimento (dicotomia que já não faz mais tanto sentido), mas também pelos blockbusters, que a propósito, podem ser muito bons.

    Você assistiu “The normal heart”? Se sim, poderia escrever sobre ele pra nós?

    Obrigada”

    Responder
    • André Dick

       /  15 de janeiro de 2015

      Prezada Paula,

      Agradeço mais uma vez pelo comentário generoso. Considero, como você, que o melhor ainda é fazer uma lista baseada em filmes lançados comercialmente. E também concordamos no que se refere a blockbusters e filmes mais cults. Ignorar filmes de grande bilheteria me parece tão preconceituoso quanto ignorar os filmes lançados em cinemas de arte. Por que “Interestelar” ou “O hobbit” devem ser esquecidos para dar lugar apenas a “Ida” ou “O gebo e a sombra”, ou vice-versa? Ou por que alguns filmes passam a ser menos arte quando indicados ao Oscar? Como você comenta, essa dicotomia não tem sentido. Aliás, 2014 teve blockbusters sólidos, principalmente no campo da ficção científica.
      Infelizmente não assisti ao comentado “The normal heart” – além de tudo pelo elenco, que aprecio muito. Quando assistir, espero ter possibilidade de escrever sobre. Agradeço desde já por sua sugestão.
      E volte sempre!

      Grande abraço,
      André

      Responder
  3. Paula Rocha

     /  16 de janeiro de 2015

    Obrigada!

    “The normal heart” sempre passa nos canais da HBO. Com certeza você vai gostar muito. O elenco e as atuações impressionam. Gosto muito do Jim Parsons e achei que não conseguiria ver um bom desempenho dele em outro papel, pois ele ficou marcado como o excêntrico Sheldon Cooper. Porém, sua atuação é muito boa, e demonstra como ele é um grande ator. Mark Ruffalo está impressionante.

    Responder
    • André Dick

       /  18 de janeiro de 2015

      Prezada Paula,

      Agradeço novamente por sua mensagem e pela sugestão. Realmente o Parsons ficou muito marcado e até mesmo no filme Hora de voltar (recomendo se não viu), de anos antes da série, ele já parece Sheldon. Gosto muito das atuações de Ruffalo, que costuma ser esquecido e é uma das poucas coisas interessantes em Foxcatcher. Estou curioso!
      Obrigado pela visita e volte sempre!

      Grande abraço,
      André

      Responder
  4. Bom dia André, encontrei seu blog a pouco tempo e venho acompanhando bastante suas críticas.
    Nosso gosto não é muito semelhante, mas acredito que principalmente por esse fator, gosto de ler teus textos, que, além de muito bem escritos, diga-se de passagem, me mostram sempre uma segunda percepção da obra, sempre muito bem defendida! Isso é fantástico!

    Espero que continue postando para voltar aqui sempre! Já está em meus favoritos.
    Grande abraço!

    Responder
    • André Dick

       /  2 de fevereiro de 2015

      Prezado Andre,

      Agradeço por sua mensagem e por suas palavras sobre o blog e sobre as críticas aqui publicadas. É ótimo saber que elas estão oferecendo a você uma segunda percepção sobre a obra, mesmo que algumas escolhas não estejam necessariamente de acordo com sua avaliação pessoal. Obrigado pela generosidade e pelo apoio!
      Espero que continue apreciando os textos do blog e volte sempre!

      Grande abraço!
      André

      Responder

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