Garota exemplar (2014)

 Por André Dick

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Depois de praticamente ter reinventado o thriller de suspense no cinema, com os filmes Zodíaco, Seven e Millennium, e ter conseguido tornar a criação do Facebook num drama contemporâneo real, Fincher é um cineasta a ser sempre visto. Mesmo porque ele também possui em sua trajetória alguns filmes estranhamente esquecidos, como O curioso caso de Benjamin Button, um daqueles a melhor mostrar as contradições de tempo na vida humana, e o surpreendente Vidas em jogo (ainda do início de sua carreira). Ao anunciar que adaptaria para o cinema o romance Garota exemplar, de Gillian Flynn, era natural que se criasse uma grande expectativa em torno, sobretudo porque volta ao gênero que o consagrou com obras tão diferenciadas e complementares.
No início de Garota exemplar, os personagens demoram a ganhar força, sendo apresentados de maneira um tanto abrupta. Acompanhamos Nick Dunne (Ben Affleck), que depois de parar no bar que administra com a irmã gêmea, Margo (Carrie Coon), volta para a casa e vê sinais de briga na sala. A questão é que sua mulher, Amy (Rosamund Pike), desapareceu, e Fincher retoma em flashbacks o momento em que ambos se conheceram. Assim como o presente dado por Nick a Margo, tudo passa a ser um jogo. A polícia da pequena cidade do Missouri para onde Nick e Amy se mudaram, depois de ambos terem uma trajetória como escritores em Nova York, começa a segui-lo. A partir daí, preocupado em estar num capítulo de Law & Order, Nick tem sua vida invadida pelos questionários da detetive Rhonda Boney (Kim Dickens) e do oficial James Gilpin (Patrick Fugit), assim como a TV dos Estados Unidos concentra seu espaço no desaparecimento. Fincher emprega um ritmo cada vez mais crescente, apresentando alguns novos personagens e sempre levando o espectador para um universo aparentemente de rotina, mas enigmático. É o que Garota exemplar tem de mais interessante: a atmosfera criada é basicamente de um filme de Fincher, e isso diz muito da sua qualidade visual.

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Acompanhar as lembranças de Amy por meio de um diário ajudam a dar um registro de sinuosidade à trama, mas, assim como Ben Affleck se mostra quase ao limite indefinido sobre qual tom deve seguir, Rosamund Pike é possivelmente uma das escolhas de elenco mais problemáticas da trajetória de Fincher: ela não possui a força necessária para levar o personagem adiante. Em determinados momentos, ela lembra muito o estilo de atuação usado por Rooney Mara não em Millennium, de Fincher, mas em Terapia de risco, de Soderbergh, e quando a assistimos atuando tudo é tão elaborado que não resta nenhuma espécie de tom humano – e não há nuances, pois Amy parece se comportar como se estivesse numa propaganda da Dolce & Gabbana. É justamente isso o que falta em Garota exemplar e havia com tanta intensidade nos filmes anteriores de Fincher: os personagens não são guiados pelo sentido de descoberta e de suspense inerente ao comportamento de cada um, mas estão claramente atendendo aos passos de uma trama, de um labirinto, e Fincher, por mais que tente adaptar o romance com apoio da própria autora, com certa dedicação e fidelidade, nunca consegue apresentá-los com insegurança, medo, solidão. Talvez pela falta de amplitude nas atuações de Affleck e Pike, o filme se coloca num meio-termo entre a avaliação psiquiátrica de um matrimônio conturbado e a crítica aos meios de comunicação sobre quererem interferir na condução de um caso.
Desse modo, o que parece estar nas margens de Garota exemplar se torna estranhamente central e destacado, sem discrição. Isso já ocorria em outros filmes de Fincher, como Clube da luta, em que o discurso que habitava a mente conturbada do personagem de Edward Norton sobrepujava toda a narrativa e a fazia ligada de maneira equivocada do início ao fim. Mas em Garota exemplar o eixo é ainda mais destacável, pois trata-se de uma história que depende de o espectador estar ligado ou não aos personagens. Que o personagem de Nick Dunne não tem a vida necessária isso parece claro por causa das limitações conhecidas de Affleck, mas seu comportamento certamente não poderia ser tão descompromissado diante da situação, seja qual fosse o objetivo da trama. Fincher não consegue também colocar o roteiro como algo que pudesse reparar pelo menos a falta de condução do elenco (não são raras as vezes em que se tem a impressão de que Fincher não realizou uma segunda tomada com Affleck e Pike).

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A adaptação de Garota exemplar foi feita pelo próprio autor do romance, porém, ao contrário de outros filmes notáveis de Fincher (e sua obra-prima permanece sendo Zodíaco), há algumas escolhas bastante estranhas e confusas (neste parágrafo, spoilers menores). É difícil indicar, num thriller, o que pode ser desconsiderado, para que se dê mais espaço aos imprevistos, mas o roteiro de Garota exemplar possui algumas lacunas consideráveis, sobretudo da metade para o final quando Fincher desloca suas câmeras da investigação policial – e os integrantes da polícia acabam sumindo de cena mesmo quando possuem em mãos uma das provas que podem incriminar Dunne – para coadjuvantes num hotel de beira de estrada ou para o milionário Desi Collings (Neil Patrick Harris), assim como surge um advogado, Tanner Bolt (Tyler Perry), que, depois de parecer indicar todas as soluções, acaba sendo colocado de lado em qualquer decisão.
Essa transição não é feita de maneira clara e compassada por Fincher, fazendo com que os personagens fiquem prejudicados ou deixados em segundo plano, para que se possa desenhar um pretenso estudo psicológico da personagem de Amy. Este estudo não apenas afeta o filme como um todo, em razão da atuação excessivamente posada de Pike, como leva Garota exemplar a ter duas personalidades, e quando os avisos de passagem de tempo surgem, mostrando os impactos na vida de Dunne e sua corrida para tentar convencer a todos de que não tem ligação com o desaparecimento da mulher, são apenas uma maneira de estabelecer ainda mais a distância que o espectador vai criando em relação à narrativa, mesmo que a atmosfera acabe atraindo a atenção.
Os melhores momentos de Garota exemplar são aqueles que justamente dialogam com  outras obras de Fincher: as lanternas dos investigadores remetendo a Zodíaco e a Seven; o bairro onde mora Nick com a solidão do campus de A rede social à noite; as imagens da natureza de rios pela manhã como em O curioso caso de Benjamin Button; as imagens de casas ou bares à noite retratando uma sugestiva perfeição. Outros momentos (como inúmeras pessoas num campo esverdeado ou ao lado de um rio atrás do paradeiro) remetem a O círculo vermelho, de Jean-Pierre Melville, thriller referencial dos anos 70. Para um filme de quase duas horas e meia, esta atmosfera hipnotiza – e Fincher fazer isso com o roteiro que tem em mãos mostra o quanto tecnicamente é um autor sem sobressaltos. Não há como não prestar atenção num filme assim. No entanto, são artifícios, que tentam constantemente desviar o espectador das atuações problemáticas, da falta de um roteiro realmente surpreendente e de duas atuações centrais e de alguns coadjuvantes (sobretudo Patrick Harris, Fugit e Dickens) sem o ânimo necessário, embora Coon e Perry tragam um sopro de humanidade.

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Isto pesa no resultado final, em razão dos desdobramentos nem sempre necessários. Garota exemplar vai criando várias camadas de enredo e a energia aos poucos diminui, mostrando que Fincher teve dificuldade de lidar com o tema mais básico do roteiro – a relação entre o homem e a mulher – que nunca foi seu predileto. Nos filmes de Fincher, quando casais são enfocados, eles nunca formam o centro, mas sim servem apenas para ressaltar a solidão do homem (os personagens de Pitt e Gyllenhaal em Seven e Zodíaco, o Mark Zuckerberg de A rede social, o Benjamin Button, o jornalista e a hacker de Millennium); em Garota exemplar, embora pareça que o enfoque seja a solidão de Nick ou de Amy, Fincher é chamado a tratar realmente das relações entre o homem e a mulher. No entanto, como não consegue retratá-las, ele desvia para outros temas: as exigências feitas à mulher de um casamento perfeito, a manipulação da mídia em relação a um caso (e todas as jornalistas são caricaturais), e nisso Fincher não é sugestivo, mas impõe sua visão. Ou seja, só existe o terceiro ato de Garota exemplar – e ele é eminentemente falho em todas as suas soluções – porque Fincher e a roteirista e autora do romance Flynn acreditam que não há saída para essa idealização: a saída é a entrega a uma determinada loucura ou cinismo diante da realidade. Para Fincher, o casamento só pode ser enfocado de maneira irônica e sem explicação e o círculo da investigação se completa. Não raramente, com a trilha intrusiva de Atticus Ross e Trent Reznor, o filme acaba tendo um tom frequente de autoimportância, como se estivesse recontando o gênero do qual faz parte, quando não consegue ser efetivo nos caminhos que escolhe. Nessa linha de ideias mal solucionada, Fincher acaba caindo numa espécie de indefinição, o que é bastante raro em sua trajetória. Isso não torna Garota exemplar dispensável, mas não tira seu impacto de jogo previsível.

Gone girl, EUA, 2014 Diretor: David Fincher Elenco: Ben Affleck, Rosamund Pike, Neil Patrick Harris, Tyler Perry, Carrie Coon, Kim Dickens, Patrick Fugit, Casey Wilson, Missi Pyle, Sela Ward Roteiro: Gillian Flynn Fotografia: Jeff Cronenweth Trilha Sonora: Atticus Ross, Trent Reznor Produção: Arnon Milchan, Ceán Chaffin, Joshua Donen, Reese Witherspoon Duração: 149 min. Distribuidora: Fox Film Estúdio: New Regency Pictures / Pacific Standard / Regency Enterprises

Cotação 2 estrelas e meia

 

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6 Comentários

  1. Elisandro

     /  3 de janeiro de 2015

    Gostei desse filme bem mais do que você, mas não posso deixar de dizer que ele não é tudo o que dizem, daí ter achado que conseguiu fazer uma ótima análise que me fez repensar falhas da trama. Belo texto.

    Responder
    • André Dick

       /  3 de janeiro de 2015

      Prezado Elisandro,

      Agradeço por sua mensagem a respeito do texto. Sou admirador da obra de Fincher e acredito que se esse filme fizer o público conhecer os melhores trabalhos do diretor já terá uma parcela de sucesso. Mas realmente impressiona como Fincher não selecionou desta vez o melhor elenco e não consegue elaborar a trama da melhor maneira.
      Obrigado pela visita e volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder
  2. Wanderson

     /  22 de janeiro de 2015

    Parei de ler no momento em você critica a Rosamund Pike , a atuação dela foi perfeita!

    Responder
    • André Dick

       /  22 de janeiro de 2015

      A atuação de Pike me parece superestimada como o filme de Fincher, mas tem muitos defensores. Lamento apenas que a atuação de outras atrizes muito melhores não tenham o mesmo reconhecimento. Para ficar num só exemplo, basta comparar com Marion Cotillard em Dois dias, uma noite.

      Responder
  3. SPOILER:

    Trama cansativa previsível, com alguns fatos mal contados, que ás vezes pareciam até novela da globo, e que tenta um final impactante pra tentar sair da previsibilidade mas que no fim acaba sendo estúpido, o personagem do ben affleck em momento algum demonstra traços pra esse desfecho, ficou claro durante o filme inteiro que ele tinha uma personalidade comum de alguém que segue o script no decorrer dos fatos , sem deixar ao menos um pequeno rastro de dúvida e de uma hora pra outra ganha complexidade e é um sujeito que acata ficar com a esposa com o pretexto de estar com o filho, ou porque depende de amy para ser importante, um sujeito aterrorizado pensaria em ser importante às custas de uma psicopata? Síndrome de Estocolmo num curtíssimo período de tempo?Jogada mal realizada , Seria mais interessante se ela o matasse junto com os pais. Ruim…. Apesar de sua crítica ao personagem de Pike, eu gostei , ela passa estranheza e frieza todo o tempo, gera tensão, é o tipo de pessoa que você mesmo conhecendo todas suas virtudes, não deixa transparecer profundidade ou um pingo de generosidade humana, acho que funcionaria com outro roteiro. Quanto tempo perdido , se ao menos fosse mais curto a tragédia seria menor.

    Responder
    • André Dick

       /  11 de fevereiro de 2015

      Prezado,

      SPOILER

      Também acredito que este filme não consegue solucionar as mudanças repentinas de personalidade dos personagens, tudo sendo apenas um jogo do diretor e da autora para causar uma surpresa. A atitude do personagem na última meia hora não tem explicação nem no universo de psicopatia que o filme retrata. E, se David Fincher não tirou uma boa atuação de Affleck, talvez o ator precise de mais uma temporada filmando com Terrence Malick. Já a personagem de Pike realmente tem um roteiro difícil pela frente, mas em nenhum momento acreditei nela, mesmo com essa estranheza e frieza. Sua recepção é um enigma, pois já vi outras atrizes seguindo esses passos de atuação dela sendo bastante criticadas. Mas faz parte do jogo de Fincher: ele continua sendo recebido como grande cineasta, mesmo com esse tropeço – de longa duração, como você observa. O que não me deixa criar desinteresse pela obra em geral dele, muito boa.

      Volte sempre!

      Um abraço,
      André

      Responder

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