Cães errantes (2013)

Por André Dick

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O cinema de Tsai Ming-liang, nascido na Malásia, é caracterizado justamente pela lentidão de sua narrativa. Quando se está diante de um filme seu, percebe-se que ele está tentando dizer algo quando posiciona a câmera e deixa as cenas transcorrerem como se estivéssemos diante de um aparelho de vídeo que registrasse as pessoas caminhando na rua ou dentro de uma casa. É um cinema essencialmente de imagens e de como elas se correspondem entre si, fazendo o possível para soarem até mesmo complexas em sua simplicidade. Quando ele consegue acertar, o espectador parece realizado; quando se estende, é possível até se aproximar de uma sensação implacável de tédio. Não é um cinema exatamente descompromissado em sua aparente despretensão no que se refere à composição de imagens. Cada enquadramento de Tsai pode suscitar uma vontade de segui-lo, tamanha a fascinação que cria, ou abandoná-lo, pela sua pouca vontade de agradar a quem o assiste, não pela falta de beleza das imagens, mas por seu despojamento.
O filme Cães errantes, vencedor do Grande Prêmio Especial do Júri em Veneza, mostra uma família que vive nas ruas de Taipei, capital da República da China. O pai, Lee (Lee Kang-sheng), carrega placas de propaganda (curiosamente remetendo a uma imobiliária), quase um outdoor humano, e fica imóvel ao lado de semáforos, enquanto os carros passam ou param, seja no vento ou na chuva. Durante o dia, os filhos (Lee Yi-chieh e Lee Yi-cheng) ficam em lugares diferentes, como num abrigo em ruínas, ou caminhando em meio a matagais. A comida é vista como um prazer raro, e uma mulher (Lu Yi-ching), que trabalha num supermercado, também ajuda os filhos de Lee, não sendo esclarecida exatamente sua ligação com eles (no início do filme, aparece o que entendemos ser também mãe deles, escovando o cabelo, interpretada por Yang Kuei-mei). É neste supermercado que o diretor oferece o ponto de vista de dentro de um refrigerador, ao mesmo tempo que as pessoas seguidamente o abrem para apanhar a comida.

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As crianças também utilizam as dependências de estabelecimentos comerciais para tomarem banho ou lavarem o cabelo na pia. Impressiona o modo como Tsai filma cada um desses movimentos, revelando, em igual intensidade, a opressão da grande cidade (e ela se mostra em suas ruas extensas ou nos neons noturnos) e a delicadeza de uma caminhada à beira de um lago. Também pode-se assistir essas imagens com a incessante continuidade de sons de todos os tipos: são feitas analogias entre o pai na chuva (com a câmera ao longe e em close, mostrando ele cantar um poema) e uma das crianças secando seu cabelo num aparelho de banheiro comercial; entre a chuva do dia e a da noite, com seu vento devastando paisagens. Em determinado momento, a sensação é de estar vendo um filme de suspense ou terror, e há visivelmente diálogos com a obra de David Lynch, pois Tsai Ming-liang filma a realidade como uma vertente do surrealismo: uma criança espiando por uma fresta de porta deve claramente ao personagem de Laura Palmer na versão para o cinema de Twin Peaks. Andar por uma casa vazia, envidraçada, que parece um abrigo para o abandono que a cerca, dialoga com a obra de Terrence Malick – com suas cortinas brancas esvoaçantes. Os sons dialogam entre si: do vento na rua, da chuva e das goteiras nas ruínas. O sr. Lee, em determinado instante, que abre um intervalo de espera no filme, devora um repolho, que pode se transformar numa espécie de boneca, e os sons se misturam com o ambiente como se fossem uma composição apenas, assim como em outro momento o soluço e as lágrimas se confundem com as gotas de chuva, numa sobreposição que impressiona.
Cães errantes é dividido em duas partes: na primeira, mostrando a rotina dia a dia; na segunda parte, a família está dentro da casa em ruínas, e vemos cenas de aniversário e uma tentativa exasperante de conciliação de Lee com aquela que entendemos ser sua mulher (Chen Shiang-Chyi), diante de uma parede com uma pintura, que significa não apenas a desolação do lugar, como também sua tentativa de ingressar essa família em outro ambiente que não aquele. Esses momentos ecoam claramente Em busca da vida, de Jia Zhangke, quando vemos as ruínas da cidade às margens de uma grande obra hidrelétrica. Em Cães errantes, a grande obra acaba sendo uma faceta da condição humana da família de Lee.

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Em termos de cinema decisivamente experimental, Cães errantes é o significado próprio dessa condição, embora se perca em alguns enquadramentos exaustivamente extensos, como se o significado precisasse ser dado pela ruptura com o espaço-tempo e tudo que significasse a realidade desses personagens estivesse ligada a uma espera bastante incisiva. Não é exatamente fácil fazer este tipo de cinema experimental: se existe uma sensação de que o diretor se excede e improvisa, pode-se ver, por outros filmes com essa mesma tentativa, que é muito difícil envolver o espectador por vários minutos com uma sequência determinada de rotina; é preciso que haja um sentido e razão para haver a duração do que se vê (o exemplo máximo, nesse sentido, é Jeanne Dielman). Tudo no cinema de Tsai remete a uma constante espera, seja pela humanidade, seja por um novo estado de coisas, e Cães errantes, como cinema, recompensa o espectador com uma densidade ligada ao ser humano que parece constantemente à margem, mas que tenta se colocar no centro das situações. Esta tentativa é feita com uma ligação direta com a natureza, e assim como esses personagens enfocados parecem abandonados e errantes, não é sem grande diferença em relação à natureza: eles estão soltos como a natureza é independente. O diálogo acaba se estendendo a um dos principais filmes de Tsai, O buraco, do final dos anos 90, mas particularmente de menos impacto em relação a Cães errantes, pois este consegue atingir um panorama mais amplo e se torna facilmente uma obra comovente dentro de seus objetivos de mostrar o afastamento entre as pessoas, mas ao mesmo tempo a necessidade que elas têm de conduzir o sentimento a um ambiente familiar, em que podem buscar um sinal de luz diante de um enquadramento, de uma escadaria ou de uma pintura.

Jiao you/Stray dogs, Taiwan/França, 2013 Diretor: Tsai Ming-liang Elenco: Lee Kang-sheng, Lee Yi-Chieh, Lee Yi-cheng, Yang Kuei-mei, Lu Yi-ching, Chen Shiang-Chyi, Wu Jin Kai Fotografia: Pen-jung Liao, Qing Xin Lu Produção: Jacques Bidou Duração: 138 min.

Cotação 4 estrelas e meia

 

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