À procura (2014)

Por André Dick

À procura

Para quem este ano foi alertado de todas as maneiras para filmes terríveis, sempre na linha de um determinado consenso preestabelecido, estamos agora diante do que seria o Transcendence do gênero policial, À procura. O filme estreou no Festival de Cannes sob vaias este ano, o que não comprova exatamente se será problemático, pois outras grandes produções saíram do evento do mesmo modo, como o mais novo de David Cronenberg, enquanto Adeus à linguagem, de Godard, foi ovacionado. E é justo que haja uma avaliação do que o cineasta produziu antes e agora, no caso o diretor egípcio naturalizado no Canadá Atom Egoyan recebeu o Grande Prêmio do Júri em Cannes com a obra, bastante considerada, Um doce amanhã e teve outros destaques nos anos 90, como Exótica e Calendário. Aqui ele se volta a um gênero do qual se espera suspense e agentes à caça de psicopatas. Tudo isso tem um nome: movimento, ação, reviravoltas e de preferência nenhum sentimento exatamente incômodo para o espectador.
Em À procura, a narrativa se concentra na menina Cassandra (Peyton Kennedy quando criança e Alexia Fast quando jovem), que tem nove anos de idade e faz patinação no gelo, seguida de perto por seus pais, Matthew (Ryan Reynolds) e Tina (Mireille Enos). Enquanto a mãe trabalha na área da limpeza de hotéis, o pai é paisagista, no norte do Canadá. Certo dia, ele a deixa no banco de trás da sua caminhonete para comprar tortas numa loja à beira da estrada – quando ele volta, ela já desapareceu, vítima de um grupo que pratica crimes contra a criança, também pela internet. No entanto, essas informações não são passadas ao espectador de maneira linear, como é bastante comum na trajetória de Egoyan: ao mesmo tempo que mostra essa situação, ele já revela o que se passa anos depois dela, apresentando suas consequências. Há também uma equipe de investigadores, com Jeffrey (Scott Speedman) e Nicole (Rosario Dawson) à frente, e o vilão Mika (Kevin Durand).

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Ao contrário de cineastas como David Fincher e no ano passado Dennis Villeneuve, Egoyan nunca teve nenhum apreço pelo suspense de fato. Isso pode ser um erro mortífero em alguns casos, mas é interessante que desde o início À procura dá preferência a personagens que reagem à mesma situação em tempos diferentes – e o quanto, na verdade, eles estão, como mostram as paisagens do filme, fotografadas de maneira minuciosa por Paul Sarossy, congelados, sem nenhum tipo de movimento para saírem do lugar. As cataratas do Niágara que aparecem em algumas sequências como pano de fundo de gravações em vídeo mostram essa passagem do tempo, que os personagens não conseguem sentir. Para quem aprecia o suspense policial nos moldes de Zodíaco e mesmo Os suspeitos, possivelmente desgostará de À procura, que se concentra em cada situação mostrada, não em revelar quem é o vilão – uma vez que o filme já inicia mostrando ele – ou mesmo em reviravoltas (não necessariamente surpreendentes).
Alguns desses personagens têm suas vidas filmadas pelo sequestrador de Cassandra, e esta em determinado momento – não se sabe com certeza, pois Egoyan dificilmente explica as motivações de cada um – parece estar imersa na perturbação do psicopata. Egoyan torna as coisas bastante difíceis e mexe com o psicológico do espectador quando, mesmo ele sabendo que as coisas podem ser mais previsíveis, não consegue também desatar os nós da trama, pois o comportamento dos personagens não é normal em nenhum momento. Diante do sequestro, não se entende por que a menina serve como um ponto de apoio para Mika em vigiá-los por meio de câmeras, a fim de notar o sofrimento marcado por essa passagem de tempo, nem como ela consegue lidar com o universo musical para esquecer a realidade à sua volta ou aceitar que seja envolvida no mesmo crime cometido contra ela – a não ser que se pense numa possível Síndrome de Estocolmo. Os filmes de sequestro, e não por acaso o roteiro e o vilão de À procura dialogam com a peça A flauta mágica, de Mozart, costumam esconder a figura negativa, enquanto aqui ele logo se mostra, embora Durand esteja algumas notas acima do tom; Egoyan apresenta também os policiais agindo de maneira confusa, impondo, no caso de Jeff, por exemplo, uma necessidade de criar redes mirabolantes em sua mente sobre o comportamento do pai de Cassandra.

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Essa confusão do sistema que poderia ajudar a descobrir onde está Cassandra afeta não apenas a busca, como também coloca os pais numa sucessão de conflitos e de afastamento, com cobranças amargas principalmente de Tina em relação a Matthew. Ou seja, mesmo a dupla de investigadores, que no início se mostra um tanto rival e com o tempo inicia laços familiares, parece estar imobilizada pelas próprias obsessões: enquanto Jeffrey tenta capturar os criminosos lançando contra eles uma busca incessante, a investigadora tenta se recuperar de questões traumáticas em sua vida. Neste sentido, o psicopata lida com esses personagens como se estivesse perto deles e filmasse seu dia a dia. Para Mika, o que importa neles é justamente colocá-los sempre presos à situação causada por ele, por isso não importam as mudanças de estação. Todos os personagens, deliberadamente, acabam caindo nesta teia armada, em que cada lembrança pode significar também o que pode ocorrer no futuro, uma vez que as paisagens continuam iguais, assim como o comportamento de cada um. Em À procura, os vídeos não servem para a procura de figuras desaparecidas: eles servem para lidar com uma dor – a dos pais – presente de forma contínua, independente de lugar, e são registrados como um presente. Não existe aqui uma ruptura: o diretor Egoyan coloca os personagens em momentos diferentes ao longo de 8 anos, e mostra como a natureza deles está ligada à mesma espera, lidando com isso de maneira a colocar o espectador com uma espécie de sentimento agonizante. Nessas idas e vindas de tempo, há não raramente algumas lacunas de roteiro, mas a base da proposta de Egoyan continua presente.
Em relação a Um doce amanhã, considerado ainda a grande obra do diretor, embora não tenha o ritmo necessário, À procura tem vários detalhes semelhantes: a necessidade de a família reunir todo sentimento e aproximação, mas sobretudo as paisagens invernais do Canadá. No entanto, parece que em seu novo filme Egoyan consegue fazer um trabalho mais detalhado na movimentação de imagens, assim como acerta na escolha do elenco. Ator com sérios problemas para desenvolver personagens, Ryan Reynolds tem aqui a interpretação de sua carreira: a maneira como ele se mostra ao espectador é cortante; em intensidade próxima, embora não igual, estão Dawson, Speedman e Enos. Esse elenco é uma grande pista para o filme se mostrar não exatamente como um thriller nos moldes de Hollywood, mas como uma análise do comportamento humano diante de uma situação trágica de abuso infantil e de sequestro. As imagens, desde o início de À procura, devem ser lidas, e apenas aparentemente querem evocar Fargo, dos irmãos Coen – há algo mais embaixo dessa superfície, e quando vemos uma das personagens saindo de uma festa onde teve de lidar com seu passado Egoyan nos mostra um parque de diversões à noite, como se ela estivesse ainda na noite imposta por A flauta mágica, de Mozart. E quando o diretor ingressa no clímax de seu filme, já podemos saber de antemão a resolução, no entanto não sabemos o que se esconde por trás disso tudo: À procura indica que a vida continuará praticamente a mesma para todos os envolvidos, mas que não existe a saída da infância quando há um trama desse porte. O que permanece é apenas a falta de resolução de tudo que poderia ser resolvido, e como o quebra-cabeças de À procura anuncia: não há o fio da meada. E, se há, ele pode ser puxado.

The captive, CAN, 2014 Diretor: Atom Egoyan Elenco: Ryan Reynolds, Scott Speedman, Rosario Dawson, Mireille Enos, Kevin Durand, Alexia Fast, Peyton Kennedy, Bruce Greenwood Roteiro: Atom Egoyan, David Fraser Fotografia: Paul Sarossy Trilha Sonora: Mychael Danna Produção: Atom Egoyan, Jennifer Weiss, Simone Urdl, Stephen Traynor Duração: 112 min. Distribuidora: Imagem Filmes Estúdio: Ego Film Arts / The Film Farm

Cotação 4 estrelas

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