Homens, mulheres e filhos (2014)

Por André Dick

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O universo da tecnologia está cada vez mais presente no cotidiano desde o início deste século, com sua febre de produtos cada vez maior e em maior proporção. Para enfocar essa mudança, o diretor Jason Reitman fez o que David Fincher já havia feito em A rede social no sentido de crítica a este universo, embora nunca deixando de considerá-lo fascinante – e Fincher ainda extraía conflitos verdadeiramente humanos ao redor da criação do Facebook. Em seu filme Homens, mulheres e filhos, Reitman conserva o estilo já demonstrado em outros projetos, como Amor sem escalas e Jovens adultos, no sentido de destacar o elenco, conservando uma simplicidade na narrativa que se confunde às vezes com esquecimento de uma maior densidade no trato de personagens e situações.
Embora tenha sido recebido de outra maneira pelos filmes que realizou (exceto por Refém da paixão), Reitman não havia experimentado o fracasso financeiro e de crítica: Homens, mulheres e filhos não conseguiu arrecadar praticamente nenhum valor nos cinemas dos Estados Unidos e sofreu a mesma perseguição que os personagens desse filme sofrem dos pais com a indicação de que o filme seria uma condenação da internet, do uso de celulares, de tablets, smarthphones, vendo perigo em tudo o que a tecnologia nos apresenta. O mais interessante quando se vê de fato o filme e não se lê suas críticas partindo desse pressuposto de lições de moral disparadas na velocidade de um tweet, é o quanto Homens, mulheres e filhos parece tratar disso, mas na verdade trata do seu pano de fundo.

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Reitman, também autor da adaptação do romance de Chad Kultgen, com Erin Cressida Wilson, esquece um pouco os filmes de histórias necessariamente interligadas, a exemplo de Crash e Short Cuts, para enfocar as ruas de um subúrbio nos Estados Unidos, depois de passar pelo espaço sideral e pela narração de Emma Thompson. Essa mudança do espaço para os subúrbios fornece uma ideia de que esses seres humanos também são vistos a distância, como se olham entre si. Don Truby (Adam Sandler) é casado com Rachel (Rosemarie DeWitt), e utiliza o computador do filho, Chris (Travis Tope), para buscar aventuras que o casamento parece não permitir mais. O filho tem interesse em Hannah (Olivia Crocicchia), uma moça que vive sendo seguida pela mãe, Donna Clint (Judy Greer), que tira fotografias dela para seu website comprometedor. No bairro onde moram, eles têm a liderança de Patricia Beltmeyer (Jennifer Garner), que reúne os pais para demonstrar os males da tecnologia, mas consegue impedir sua filha Brandy (Kaitlyn Dever) de utilizá-la. Brandy usa o Tumblr como fuga e ao mesmo tempo atrai a atenção de Tim Mooney (Ansel Elgort), um jovem decidido a encerrar sua carreira como jogador de futebol do seu colégio e filho de Kent (Dean Norris), ainda sem se recuperar da partida da mulher. Há também uma menina, Allison (Elena Kampouris), filha do Sr. Doss (J.K. Simmons), e que atua como animadora de torcida ao lado de Hannah, com problemas de anorexia. Esses personagens são colocados por Reitman de maneira descompromissada, enquanto ele vai costurando suas relações seja ao vivo, seja por meio de redes sociais ou por celulares e muitos tweets.
Este ano, Jon Favreau lidou com o tema no interessante, mas superficial, Chef, e o jovem que ingressava na banda do interessantíssimo Frank também queria conquistar as redes sociais, mas Reitman tem outro objetivo: por meio de uma fala de Tim sobre Carl Sagan, ele faz a ligação entre as pessoas com dificuldade de se conectarem com a dificuldade de estabelecer qualquer ligação com a própria origem (ideia implicita no discurso de Mason em determinado momento de Boyhood). Reitman analisa, misturando uma trilha sonora criativa, essas relações sem incorrer em alívios cômicos excessivos ou excessos dramáticos, mas simplesmente procurando o enfoque direto dos personagens, no entanto sem reduzi-los.

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O filme apresenta temas seculares (sobre o casamento, a amizade, a melancolia, a descoberta sexual, a pressão de seguir um determinado rumo dependente de aprovação dos pais) e Reitman mostra como os meios tecnológicos podem potencializar algumas sensações de solidão e desamparo, como vemos principalmente nos personagens de Tim e Brandy, pelo paradoxo de tentar ouvir justamente a todos – longe ou perto. E Reitman comprova como palavras digitadas no teclado ecoam mais na reação de outra pessoa do que um simples encontro ao vivo, assim como sensações deixam de ser compartilhadas no âmbito privado para serem compartilhadas no público, do mesmo modo como o destino da mãe de Tim. São ideias, a princípio, bastante óbvias, mas Homens, mulheres e filhos talvez seja o primeiro filme a mostrar isso de maneira mais clara e elucidativa, não coberto por uma superfície de moralidade, e sim com a tentativa de mostrar como se comporta um grupo que vive no subúrbio dos Estados Unidos – que pode ou não dialogar com o restante da humanidade, no entanto certamente têm elementos em comum.
Reitman registra com sensibilidade as relações entre o casal Don e Rachel e o casal de jovens Tim e Brandy. De alguma maneira, ambos acabam agindo de maneira parecida no sentido de esconderem o que na verdade querem, independente da idade. Tudo isso talvez não fosse possível sem o elenco, tendo à frente o jovem Elgort, como Tim, com o talento já mostrado em A culpa é das estrelas, enquanto sua parceira Kaitlyn Dever mostra-se excelente, sobretudo em seus duelos verbais com a mãe, feita por uma Jennifer Garner concentrada. Junto com eles, Olivia Crocicchia e Elena Kampouris conseguem dar uma dimensão maior a papéis que poderiam ser esquecíveis. Esse elenco se junta com Greer, Norris e Sandler, todos excelentes em seus papéis, principalmente Greer – e na parcela de entendimento de certa juventude contemporâneo Reitman é mais interessante aqui do que em Juno, filme que conseguiu fazer grande sucesso em cima de temas tão cotidianos quanto esses.

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Homens, mulheres e filhos

Nesse sentido, Homens, mulheres e filhos ainda tem um dos melhores elencos do ano, e quando vemos lamentos em razão de Marion Cotillard (uma grande atriz) não estar recebendo tanto destaque nas premiações por sua atuação limitada pela direção no épico vastamente falho e com um revisionismo autossatisfeito Era uma vez em Nova York, pergunta-se se o elenco do filme de Reitman deveria ser esquecido. Evitando seguir o conceito de clássico seguro e sem riscos, uma uma das qualidades de Homens, mulheres e filhos, Reitman apresenta de maneira consistente cada um dos núcleos, mesmo que em determinados momentos a montagem às vezes seja atropelada, pois tudo é registrado de forma veloz e o interesse se concentra sobretudo nos momentos em que esses personagens se afastam da tecnologia para se dedicarem diretamente uns aos outros. Parece precipitado classificar um filme que nos lembra das relações também fora desse universo como algo escapista, sob o ponto de vista de predominância da tecnologia, principalmente quando sua qualidade é maior do que está sendo apontada e seus temas são permanentes. Há elementos de afeto e de aproximação em cada personagem e, ao mesmo tempo, uma ideia de que a solidão é apenas aparente quando vista diante de um universo em expansão, podendo ser revertida por uma simples visita à janela de casa. É isso que torna Homens, mulheres e filhos um filme a ser revalorizado mesmo que tenha sido lançado há tão pouco tempo.

Men, women & children, EUA, 2014 Diretor: Jason Reitman Elenco: Kaitlyn Dever, Ansel Elgort, Adam Sandler, Rosemarie DeWitt, Jennifer Garner, Emma Thompson, Judy Greer, Dean Norris, Travis Tope, Olivia Crocicchia, Elena Kampouris  Roteiro: Chad Kultgen, Erin Cressida Wilson, Jason Reitman Fotografia: Eric Steelberg Produção: Helen Estabrook, Jason Reitman Duração: 119 min. Distribuidora: Paramount Pictures Estúdio: Paramount Pictures / Right of Way Films

Cotação 5 estrelas

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