O abutre (2014)

Por André Dick

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Os filmes que avaliam criticamente o jornalismo estiveram sempre em alta desde Todos os homens do presidente e Rede de intrigas. Nos anos 80, tivemos peças excelentes, como Ausência de malícia e Nos bastidores das notícias, nos anos 90 os quase esquecidos O jornal e A testemunha ocular e mais recentemente Boa noite e boa sorte. Este ano, o filme a figurar com este tema é O abutre, que relata a história de Louis Bloom, um jovem que determinado dia, ao ver alguém cobrindo um determinado acidente, decide conseguir uma câmera de maneira ilícita e começar a trabalhar por conta própria. Como cinegrafista amador, mas com vontade de se profissionalizar, ele se torna uma espécie de rival para Joe Loder (Bill Paxton), o único cara da cidade que parece ter o mesmo interesse do que ele em captar imagens fortes, e cria uma amizade com uma produtora da TV, Nina Romina (Rene Russo), bastante interessada em violência, preferencialmente em bairros ricos. Eles se complementam e as cenas em que ficam diante da imagem de Los Angeles à noite diz muito do reflexo que ambos projetam.
Com um discurso pronto para o convencimento alheio, de que tem tudo à mão para ser um grande representante da captação de imagens violentas para o sucesso dos noticiários que se alimentam dela, Louis também acaba se mostrando alguém que se importa com um rapaz, Rick (Riz Ahmed), sem paradeiro definido. É Rick quem Bloom escolhe para que o acompanhe nas jornadas à noite, em busca de notícias e, consequentemente, de imagens, alimentado pelas mesmas informações que os policiais recebem. Ele se torna uma espécie de mensageiro daquilo que especifica o título original: da vida noturna de Los Angeles. Não por acaso, esse personagem usa óculos escuros de dia: ele se alimenta da noite e a praia para ele significa apenas a possibilidade de roubo para trocar por mercadorias que lhe interessem. Ele é Bloom como o personagem de Joyce em Ulisses, que atravessa o dia e a noite para perceber que tudo continuará indefinido.

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Jake Gylenhaal chama a atenção como este papel leva sua maneira de interpretar discreta a um extremo contrário: ele é a figura principal de O abutre, e o filme, consequentemente, se baseia nele e seus freqüentes exageros e nervosismo. Ele mostrava o contrário este ano com O homem duplicado, quando, com suas características de interpretação, Gyllenhaal desenhava um perfil interessante de alguém com dupla personalidade. Mas, se lá o roteiro era um enigma, aqui ele procura a mudança em seu físico (seus olhos nunca lembraram tanto os da irmã, e igualmente boa atriz, Maggie) e a tentativa de introduzir uma maneira de falar diferente. Depois de um início um pouco mal resolvido, com personagens servindo mais como exemplos de corrupção e de ambição do que como seres independentes, O abutre tem uma hora final digna de um verdadeiro thriller urbano – e é quando a atuação por vezes exagerada de Gyllenhaal adquire um ar verdadeiramente dramático e ele toma conta da tela, sobretudo quando se vira para o parceiro de empreitada fazendo promessas fantásticas de como conseguirão, juntos, alavancar a produtora de que se diz dono. Cogita-se mesmo uma indicação ao Oscar para Gyllenhaal – ele já foi indicado ao Globo de Ouro –, o que indica como parte da crítica gosta de atuações em ritmo de overacting, quando o ator já se mostrou muito competente em momentos mais discretos.
Ele já parece começar o filme como Jack Torrance, mas impressiona como Gyllenhaal leva o personagem a uma condição diante da qual o espectador teme a reação e em relação ao qual imagina sempre – e não seria diferente diante do seu comportamento – o pior. É uma atuação sem dúvida, a partir de determinado momento, muito competente e bem resolvida dentro de suas linhas com cargas dramáticas mais acentuadas alternadas com humor invariavelmente pesado e sem grande alívio para quem assiste. As risadas que o personagem de Gyllenhaal provoca são nervosas em sua maior parte, e às vezes ele se sente como um coelho que não consegue sair da sua toca de dia porque pretende rever as cenas que colheu para o noticiário e se aproveitar mais uma vez da tragédia alheia. Trata-se de um homem que não tem a menor ideia do quanto seus movimentos envolvem a ética ou o respeito aos acontecimentos fatídicos.

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Gyllenhaal cresce com as ótimas atuações tanto de Russo quanto de Riz Ahmde. Mas, de algum modo, os personagens que eles interpretam, assim como o de Bill Paxton, são apenas notas de rodapé para o desempenho de Gyllenhaal, e isso termina por, paradoxalmente, reduzir o filme a um retrato direto e não tão complexo, pois não são fornecidas subtramas capazes de ampliar o seu escopo. Todos os personagens são conduzidos por Bloom, assim como este é conduzido pela noite e pela iluminação que sai da sua câmera, sempre em busca de novos fatos, inclusive para configurá-los à sua maneira.
O que incomoda em O abutre é justamente achar que está definindo algo quando, com o mínimo de crítica, todos sabem o que cerca o jornalismo sensacionalista. Se alguns jornalistas estão pouco preocupados com os humanos que retratam, tampouco Gilroy está preocupado com seu espectador e coloca as ideias de maneira muito clara, sem deixar que ele pense sobre o que está vendo; apenas se certifique e assine embaixo, sem contestação. Com uma narrativa até determinado ponto plana e sem grandes reviravoltas, O abutre às vezes é simplista na maneira como coloca suas ideias, assim como não apresenta nada de realmente original em seu tema, embora o diretor Dan Gilroy às vezes se mostre como alguém que oferece realmente algum olhar novo, embora nunca caia na simples manipulação de, por exemplo, um 15 minutos. Trata-se da estreia na direção do roteirista de O legado Bourne, Gigantes de aço e The fall, e O abutre vem sendo recebido como uma das grandes obras do ano (foi escolhido como um dos dez melhores filmes do ano pelo American Film Institute), indicado a vários prêmios e talvez leve satisfação mais ao espectador que não espera tanto dele. E junto com as sequências de ação, que lembram não apenas o recente Drive, de Refn, como também sua inspiração original, The driver, de Walter Hill, Gilroy consegue potencializar ainda mais a fotografia de Robert Elswit, que joga com as luzes com a mesma competência que já mostrou inúmeras vezes ao longo de sua carreira exitosa. Esse é o maior mérito de O abutre, junto com a atuação de Gyllenhaal: ele captura de maneira perfeita a noite de Los Angeles, assim como evita mostrar esses personagens à luz do dia porque justamente seu habitat é uma noite contínua, sem intervalos para o alívio.

Nightcrawler, EUA, 2014 Diretor: Dan Gilroy Elenco: Jake Gyllenhaal, Rene Russo, Riz Ahmed, Bill Paxton, Kevin Rahm, Ann Cusack Roteiro: Dan Gilroy Fotografia: Robert Elswit Trilha Sonora: James Newton Howard Produção: David Lancaster, Jake Gyllenhaal, Jennifer Fox, Michel Litvak, Tony Gilroy Duração: 117 min. Distribuidora: Diamond Filmes Estúdio: Bold Films

3 estrelas e meia

 

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